A fina teoria de um concurseiro balzaquino

Aos 33, Adriano Carvalho largou um emprego com status de gerência para se dedicar aos concursos públicos

Redação
Publicado em 19/10/2012, às 16h18

Você largaria seu emprego para prestar concursos públicos? Imagine que você esteja empregado há dez anos, exerça um cargo de gerência e não tenha perspectiva imediata de ser demitido. Imaginou? Ainda assim você largaria tudo para prestar concurso? Já ouviu aquela expressão “Se joga”? Foi mais ou menos nesse espírito que Adriano Carvalho, 33 anos, saiu do emprego de  em uma empresa privada do ramo de concursos em busca de um posto efetivo.

Embora seu emprego não estivesse ameaçado, Adriano avaliou que as constantes cobranças por melhores resultados e as jornadas que muitas vezes avançavam o fim do expediente não eram o futuro que ele buscava para si.  “Eu poderia ter trocado de emprego, mas em qualquer outra empresa privada seria a mesma coisa: exigências cada vez maiores, menos tempo para a família e para o lazer. E mesmo que eu pudesse ganhar mais, não compensaria porque eu não conseguiria ter qualidade de vida”, contou à reportagem.

Com a experiência adquiria na área financeira, Adriano se pôs a fazer contas: quanto tempo tinha de empresa, quanto teria direito se recebesse a rescisão contratual e por quanto tempo conseguiria se manter. Concluiu que o dinheiro daria para se manter por um ano nos estudos e decidiu pedir ao chefe para ser demitido. Diante da negativa, o concurseiro iniciou sua própria operação padrão: cumpria rigorosamente o expediente, no que passou a ser seguido pelos subordinados. Com uma espécie de motim instalado, o diretor acabou concedendo a demissão a Adriano.

Determinado a vencer na missão que se impôs, ele matriculou-se na Academia do Concurso e passava cerca de 12h por dia estudando, entre as aulas e a revisão da matéria para ser aprovado em um cargo público no período de um ano.“Comecei a fazer o básico de nível médio porque eu queria me empregar logo, em vez de me dedicar a um único concurso”, explicou.

Adriano aprendeu como estudar observando com os colegas do cursinho se preparavam e também pela experiência passada pelos professores do cursinho, todos ex-concurseiros. “Tudo o que nós vamos passar, eles já passaram, então passam a experiência deles sobre como estudar como deve se proceder na prova.Isso motiva bastante a galera”, conta.

A principal dificuldade de Adriano para se manter focado nos estudos foi abrir mão da vida social. “Você bota na cabeça que tem que ser aprovado, mas os amigos não entendem que se você abrir mão dos estudos um dia, isso se torna dois, três... Se estou estudando para uma coisa, não abro exceção”, explicou.

Em pouco tempo, ele foi aprovado no concurso da Unirio para assistente de administração.  Ciente de que ainda levaria de oito meses a um ano para ser convocado, Adriano decidiu prestar o último concurso dos Correios para operador de triagem e transbordo, cuja convocação estaria mais próxima. “Depois de dois meses da prova fui convocado, ainda fiquei lá uns cinco meses até a Unirio me chamar”, lembrou.

Se o salário ainda não é o satisfatório, Adriano já comemora o ganho de qualidade de vida. Com o cargo na universidade, ele conseguiu retomar os estudos de nível superior. Optou por trancar a faculdade de direito e ingressou no curso de gestão pública. “Pretendo prestar concursos por ainda mais três ou quatro anos”, admitiu. Ainda neste ano, o plano é se inscrever no concurso para técnico judiciário do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) do Rio de Janeiro.  No longo prazo, as metas são de retomar ocurso de direito e prestar os exames para a Polícia Rodoviária Federal ou para a Polícia Federal. “O conteúdo dos dois concursos é semelhante e até a banca costuma ser a mesma, o Cespe/UnB”, observou.

Como boas notícias trazem boas notícias, Adriano passou a inspirar pessoas próximas a seguir a carreira pública: “Tenho amigos que começaram a estudar depois de mim, inclusive, minha sobrinha de 18 anos me pegou como referência e começou a estudar para concursos. Ela estava em dúvida sobre qual curso fazer e acabou decidindo prestar concurso primeiro. Achei ótimo porque ela vai ganhar tempo para tomar uma decisão que vai definir a vida inteira dela e ela terá condições de pagar o curso”.

Aline Viana

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