A Luciana da vida real

A Luciana desta coluna é de carne e osso, tem 27 anos e mora no Guará, cidade-satélite do Distrito Federal.

Redação
Publicado em 13/08/2010, às 15h46

Luciana é jovem, loira, tem um sorriso que contagia e é cadeirante. Mas não, não estamos falando da personagem da recente novela exibida no horário nobre da TV brasileira. Qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência. A Luciana desta coluna é de carne e osso, tem 27 anos e mora no Guará, cidade-satélite do Distrito Federal.

Portadora de atrofia muscular espinhal, a jovem não tem todos os movimentos dos membros superiores e inferiores e, como ela relata, necessita da ajuda de outras pessoas para realizar suas atividades básicas diárias. “Tive os primeiros sintomas com oito meses de idade, perdi o equilíbrio do corpo e a sustentação dos membros inferiores”, conta.

Mesmo com as limitações impostas pela doença, Luciana garante conseguir levar uma vida o mais “normal” possível, com as aspas acrescentadas por ela mesma. Não precisa realizar tratamentos médicos ou fazer uso de medicações constantes e, para melhorar sua rotina, o local em que vive e o carro da família são adaptados. A casa conta com elevadores de acesso às partes superiores, rampas de acesso e espaço amplo para que ela consiga se movimentar adequadamente. O automóvel também é grande o suficiente para ela e a cadeira de rodas. 

No entanto, é claro que algumas dificuldades se impuseram ao longo do caminho. Na infância, por exemplo, foi difícil para os pais de Luciana encontrar uma escola que a aceitasse como aluna, justamente por conta de sua deficiência. Depois de muita insistência, ela passou a frequentar as aulas do então ensino primário e chegou a ser reconhecida como destaque na instituição.

Outro momento delicado foi quando estava na universidade e tentava encontrar sua primeira colocação profissional. Matriculada no curso de administração, carreira escolhida inspirada pelo pai que é administrador de empresas, ela sofreu ao buscar um emprego ou estágio. “Até recebia convites por telefone para participar de processos seletivos, mas quando mencionava minha deficiência, logo me dispensavam alegando que a empresa não possuía as condições físicas necessárias para me contratar”. A primeira experiência no mercado de trabalho só apareceu depois de alguns meses de procura, quando foi chamada para atuar em uma instituição de pessoas com deficiência.  

Foi por sentir na pele a dificuldade que uma pessoa portadora de necessidades especiais tinha de enfrentar para ingressar em uma empresa da iniciativa privada que Luciana começou a pensar na alternativa de prestar concursos. “Os concursos, hoje, são a melhor opção para qualquer pessoa”, reitera a jovem.

E assim teve início sua jornada de concurseira. Estudava em casa e frequentou dois cursinhos preparatórios especializados. Disputou várias seleções sem obter êxito, até que foi aprovada no processo seletivo da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) em 2005. Concorreu a dois cargos – um que exigia nível médio e outro que pedia ensino superior –, passou em ambos, mas não pôde assumir a vaga de nível superior por ainda não ter concluído a faculdade. Começou a trabalhar, então, no cargo de nível médio e permaneceu na ECT por um ano e meio.

Saiu de lá para tomar posse em outro órgão público, a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). Está lá até hoje, ocupando a função de analista de administração de recursos humanos. Mas, Luciana já está preparada para dar adeus aos colegas de trabalho a qualquer instante. É que, em 2008, ela participou da seleção para técnico judiciário (nível médio) no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) e conseguiu outra aprovação. Agora, aguarda sua nomeação sair. “Apesar de gostar da Caesb e de trocar um cargo de nível superior para o de técnico, o TJ vai me dar a possibilidade de começar a trilhar uma carreira jurídica”.

Aos espantados, a explicação. Após terminar o primeiro curso superior, Luciana não se deu por satisfeita e foi correr atrás de outro sonho. Atualmente, ela cursa o terceiro ano de direito e divide seu tempo entre o trabalho e as aulas. “Quando terminar a faculdade, vou me dedicar aos concursos de analista na área jurídica, para tribunais, Ministério Público etc”.             

 

Talita Fusco

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