Na raça

"Um vencedor vê o óbvio antes que ele atinja a sua definição".

Redação
Publicado em 29/01/2010, às 15h49

Um vencedor vê o óbvio antes que ele atinja a sua definição. A frase parece extraída de um livro de auto-ajuda; e é. É justamente aos livros desse gênero que João Paulo Fonseca Teixeira, empreendedor por força das circunstâncias, recorre nos momentos de precisão e fraquejo.

Bacharel em direito, ele se viu na contingência de interromper a faculdade no meio para pagar as dívidas que o pai trouxera à sua realidade. “Você confia e vai assinando; é teu pai”, desabafa João Paulo. Ele confessa ter largado a faculdade porque não suportava mais a rotina de negociações para cobrir as dívidas. “Eu acabei me vendo em uma situação a qual estava devendo e não tinha nada a ver com aquilo; acabei negligenciando meus estudos. Fui vender bala de gengibre”. As balas de gengibre foram mais do que um recurso disponível para ganhar dinheiro em tempos de vacas magras. Elas foram um importante laboratório para que João descobrisse que tinha o tino empreendedor de seu pai - que abrira empresas em busca de estabilidade financeira - e o equilíbrio que lhe faltara. “Durante um ano e meio vendi essas balas. Foi horrível. Não acreditava no produto, as dívidas me sufocavam e a margem de lucro era pequena”, enumera, com voz acelerada, as razões que o fizeram voltar e terminar a faculdade de direito. “Meu sonho, desde pequeno, era ser delegado. Mas eu voltei transformado”, relata em tom de contemplação.     

Essa transformação ainda precisava ser digerida e, no meio tempo, João insistia no sonho de criança. “Prestei dois concursos, fiz cursinho preparatório, mas percebi que eu não tinha aquele perfil, aquela dedicação necessária para passar em um concurso. Além do mais, eu precisava ganhar dinheiro”, relativiza, com visível ansiedade.

Foi conversando no MSN (ferramenta de conversa instantânea pela internet) com o amigo Rodrigo, publicitário que mora nos Estados Unidos, que João teve a ideia de abrir um negócio. “Perguntei para ele o que estava bombando lá e ele me disse que eram o serviço de aluguel de filmes on-line e as menupages” (sites que divulgam o menu de restaurantes diversos). O então pretenso empresário pôs-se a pesquisar a viabilidade do serviço de menupages no Brasil e verificou que não havia nada naquela linha.  A formação em direito foi útil para o ponto de partida. “Fiz uns contratinhos e fui para a rua para ver o que acontecia”. Mas como investir? Como abrir um negócio sem capital e cuja única experiência remete a venda de balas de gengibre?

“Fiz um curso de vendas no Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e paguei R$ 600 reais para um cara montar o site para mim”, lembra com orgulho. “O resto foi muita lábia e convicção”.

João conta que logo no primeiro dia fechou com um cliente. “Fiz umas quinze visitas, muitos não me receberam, tomei uns dez “não”, mas saí com aquele cliente fechado, um restaurante mexicano”. O resto é história. Hoje, um ano e meio depois daquele “primeiro dia”, João, aos 29 anos, tem quatro funcionários em um escritório no Butantã, zona oeste de São Paulo, um site com média de 30 mil acessos por mês, uma carteira de 128 clientes e um faturamento médio mensal de R$ 10 mil, com expectativa de crescimento.

O segredo do sucesso? João hesita em revelar. “Olha, talvez seja não se impressionar com um não”, pondera. “Sabe, às vezes você vai lá na zona norte e o cara nem te recebe; também é um momento difícil quando o cliente desiste”, reitera sua percepção.

Elétrico, e fã dos livros de auto-ajuda, João não se acomodou. Paralelamente ao desafio diário que é conduzir sua empresa, já desenvolve um outro projeto. Um outro site. “Eu vou lá no (parque) Ibirapuera e peço para as pessoas me contarem suas histórias. O legal é que as pessoas participam”, exalta-se como se tivesse acabado de descobrir o caminho das Índias. “Eu juro que não foi por causa da novela do Manoel Carlos”, emenda com senso de humor, em alusão aos depoimentos que encerram a atual novela das oito da rede globo. A razão de criar um site de auto-ajuda foi tão fugaz quanto a necessidade de vender balas de gengibre. “Resolvi que tinha que ter outro site”.   

Reinaldo Matheus Glioche

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