Um exemplo na vida

Carla chegou aos 40 anos sem ter cursado uma faculdade. “Graças a Deus sempre ganhei muito bem e pensava: Para que fazer faculdade?”.

Redação
Publicado em 02/07/2010, às 14h32

“Você já ouviu falar daquele ditado “o olho do dono é que engorda”? Então com mulher é bem pior”, essa espirituosa frase foi proferida por Jean Carla Dalbianco, em dado momento da entrevista, para tentar contextualizar este entrevistador das agruras de se ter um negócio e de conseguir fazê-lo prosperar. Segundo Carla, a forma como essa paulistana de 46 anos gosta de ser chamada, ser empresária (no feminino) demanda o dobro de energia.

A sinceridade da ex-empresária é muitas vezes chocante, mas sempre contagiante. Carla chegou aos 40 anos sem ter cursado uma faculdade. “Graças a Deus sempre ganhei muito bem e pensava: Para que fazer faculdade?”. Isso ocorreu porque desde cedo Carla lançou-se no empresariado. “Sempre tive negócios, mexia com público, ia para cima, sabe?”, pondera quando indagada de onde vem todo esse desprendimento que não foge a percepção de qualquer interlocutor. 

Ela conta que foi depois da quarta gravidez que “esse negócio de ser empresária” perdeu o apelo. Carla não queria voltar a trabalhar com comércio, mas, a princípio, não sabia com o que queria trabalhar. “Eu não estava acostumada com salário baixo, entende?”, afirma meio que perguntando em busca de alguma aprovação. “Sim, entendo”. Dou anuência para que prossiga e ela prossegue como se minha concordância fosse uma formalidade demorada demais. “Foi aí que me interessei pelos concursos”.

Carla relembra que tinha alguns preconceitos em relação a iniciar estudos tão tarde na vida, mas que depois de começar a frequentar o curso preparatório da Central dos Concursos para uma seleção de oficial de justiça em São Paulo, mudou radicalmente de opinião. “Quando fui para a Central deixei de pensar nisso. Percebi que havia sintonia de estudo, não de idade”, resume. O gosto pelos estudos foi sendo descortinado aos poucos para raiar em todo o seu esplendor em uma aula de direito do professor Mário. Carla então submeteu-se a uma rotina que muitos classificariam como lunática. Mãe de quatro filhos, todos em fase de estudos (o mais velho faz direito, uma gêmea faz economia, a outra faz direito com ela e o caçulinha, bem, é o caçulinha), nossa ex-empresária e concurseira embrenhou-se em duas faculdades. Administração e direito. Uma à noite e outra de manhã. As duas faculdades não surgiram em concomitância, mas foram como a evolução de um vício. Sim, de um vício. O termo foi empregado por Carla. “Fiquei viciada em estudar”, ri, nostálgica, do outro lado da linha. A universitária faz questão de provar o grau de seu vício. “No último sábado (a entrevista foi realizada em uma segunda-feira) foi aniversário do meu filho mais novo. Então, no bufê que era das 13h às 17h, eu fiquei ouvindo as minhas aulas em um MP3”, conta orgulhosa. Carla pontifica que não ouviu suas aulas durante toda a recepção, apenas otimizou seu tempo.

É com muita boa vontade, clareza e bom senso que Carla reparte sua história e seus anseios. “Agora estou focada na OAB”, explicou quando perguntada sobre qual o rumo depois da faculdade.

A mulher que se classifica como “simples, alegre e determinada”, que nutre um “maravilhoso” relacionamento com os filhos (“sou amiga das amigas dela” em referência a filha Rúbia Stefanie com quem divide também o campus da Universidade) e que já terminou a faculdade de administração pensa que tem vocação para professora. “Está aí um concurso que eu prestaria hoje”, conclui em tom de divagação, lembrando que na prática já atua como professora. Tanto a filha quanto uma amiga recorrem a ela não só na hora do aperto, mas para amadurecer a matéria dada em sala de aula.

Jean Carla não estranha as bifurcações que a vida faz. Orgulha-se delas. “Não te digo que para tudo eu tenho um exemplo na vida?”, me desafia ao relatar que um ex-funcionário já pediu demissão por não admitir acatar ordens de uma mulher. E assim segue essa paulistana radiante.

Vivendo e construindo exemplos. Não necessariamente nesta ordem. 

Por Reinaldo Matheus Glioche


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