Sobre querer ser juiz...

Paulo Roberto Barcellos da Silva Junior, 31 anos, quer ser juiz, mas já quis ser médico.

Redação
Publicado em 10/09/2010, às 15h17

Paulo é alto. Imponente até. É, também, tímido. Embora hesite em qualificar-se como tal. Paulo Roberto Barcellos da Silva Junior, 31 anos, quer ser juiz, mas já quis ser médico. “Não me arrependo de minha escolha”, argumenta sobre a opção pelo direito. “Acredito serem as ciências jurídicas uma opção melhor de vida”.

Existe, porém, um aspecto comum em ambas as funções que as aproximam. A incumbência de tomar decisões. De ater-se à liturgia do cargo. Por essa razão e por entender que como juiz pode contribuir mais para a sociedade do que como advogado, Paulo optou por perseguir a carreira. “A magistratura é como um sacerdócio. Deve-se abdicar de sua vida pessoal para se dedicar à judicatura 24 horas por dia”, reproduz uma frase que ouviu certa vez e o marcou profundamente.


É a esse sacerdócio que Paulo tem se candidatado. Já prestou cinco concursos. “Eu aprendi a usar isso como uma arma para melhorar”, explica sobre como retém as experiências frustrantes de ainda não ter conquistado seu objetivo.

O jovem advogado tem dois amigos que se formaram com ele e que já foram aprovados em concursos para a magistratura. “Eles me dizem que o esforço vale a pena”. Paulo, que considera a carreira como “a realização de um sonho”, aprendeu a se blindar contra a inveja, o descrédito e as intrigas daqueles que não compreendem a rotina de quem se prepara para um processo de seleção de alto nível como esse. “Me fecho e desconsidero”, resume com propriedade.

Apoiado pela família, ele não enxerga uma metodologia específica para abarcar os estudos. “Cada um tem seu método. Acho fundamental a sedimentação da matéria e o apoio fiel da família”.

Após a conclusão da faculdade, a dedicação era total. Estudava em tempo integral (foram dois anos de cursinho). Hoje, a rotina de estudos é entremeada com a atuação como advogado. Aliás, sobre essa função - embora seja uma etapa no projeto de vida de Paulo – ele a tem em grande estima. “Ajudará no momento que eu tiver que decidir sobre a vida de uma pessoa”, pondera sobre como a experiência como advogado pode lhe ser útil no ofício de juiz. “Acho que a exigência dos três anos de prática jurídica é positiva para quem pretende atuar como magistrado”, finaliza sobre um ponto que ainda levanta polêmicas entre os que prestam a magistratura.

Confrontado com uma verdade incômoda, a de que muitas pessoas não conseguem administrar bem o poder que subitamente conquistam (e que emana do cargo de juiz), Paulo demonstra serenidade: “É uma questão de caráter. Todo o ser humano é vaidoso. Por isso, acho positiva a experiência de vida.” Ele completa: “Ela te torna mais humano. Provê a visão diferente daquilo que o papel não passa”.

O advogado se refere ao difícil equilíbrio que nem todos os juízes apresentam entre interpretar a lei e zelar pelas garantias individuais e coletivas. “Não vou te dizer que tenho 100% dessa visão, mas vou te dizer que estou mais maduro do que há cinco anos”.

A verdade implícita que parece surgir durante a hora e meia de bate papo é que o sacerdócio está mais ligado ao merecimento do que a competência. É como se Paulo ainda estivesse sendo lapidado para a judicatura. Todos nós sabemos que isso não corresponde aos fatos.

Entretanto, dá gosto ver uma pessoa que se prepara para um cargo como este não só se amparando nos livros, mas privilegiando sua estrutura emocional. Paulo pode ainda não estar pronto. Seus últimos resultados mostram isso. Mas quando chegar lá vai estar mais preparado do que muitos de seus colegas.

Reinaldo Matheus Glioche/ SP

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