Minha fase de concurseiro

Delegado da Polícia Civil-DF e professor de Legislação Penal, Sergio Bautzer conta um pouco sobre sua trajetória no mundo dos concursos

Redação
Publicado em 29/08/2013, às 14h53

Sergio Bautzer

Minha história de concurseiro tem início no momento em que fracassou minha breve carreira de goleiro no clube de futebol profissional Noroeste, de Bauru, no interior de São Paulo. Minha baixa estatura e uma cirurgia grave na adolescência contribuíram para meu fracasso como jogador. Eu me dedicava integralmente aos treinos e deixava o curso de Direito em segundo plano. No fim da faculdade, eu acumulei mais de 15 dependências e só consegui ser o quinto goleiro do time profissional (nossa…eu tomava cada “frango”).

Em um almoço dominical, conversava com meu pai sobre a possibilidade de fazer um curso de Educação Física, após duas reprovações no Exame de Ordem da OAB. Ele me disse que não me ajudaria novamente, mas estava disposto a pagar um cursinho preparatório para concurso em São Paulo. Meu descontentamento era tanto que foi minha mãe quem me matriculou no curso. Pensei: “Bom, vamos lá. Seja o que Deus quiser”.

Lembro que no primeiro dia do curso eu vi pela primeira vez  o professor Luiz Flávio, que deu uma pequena, mas verdadeira, palestra motivacional. Recordo-me de que, no intervalo, saí da sala, liguei para meus pais e, muito emocionado, disse que venceria (e assim pararia de pedir dinheiro para eles). Começava uma longa batalha para recuperar o que eu não havia estudado faculdade.

Depois de quatro provas, consegui superar a 1ª fase do Exame de Ordem, e precisava aprender as peças práticas de Direito Penal, que eram exigidas na 2ª fase. Cheguei a fazer mais de 20 vezes a mesma peça. Deu certo! Consegui a aprovação! Eu era advogado, mas não sabia ao certo o que faria na vida.

Comecei a trabalhar como advogado em um banco privado. Continuava a frequentar cursos no período noturno e estudava sempre que possível. Resolvi estudar para concursos públicos, pois estava insatisfeito, e assim abandonei a advocacia. Em um sábado, assistindo a um curso de Medicina Legal, ministrado pelo saudoso professor Carlos DelMonte Printes, decidi que seria delegado de Polícia. O professor disse durante a aula: “Se eu não fosse médico, não sei o que seria na minha vida”. A frase me tocou tanto que eu fiquei por horas extasiado, até chegar à conclusão que conduziria minha vida.

Assistindo às aulas do professor Luiz Flávio, nascia também o fascínio pelo magistério! Comecei a estudar intensamente os editais para delegado de Polícia Civil e Federal e me inscrevia em outros concursos para treinamento. Tive diversos insucessos.

O mais traumático foi para delegado de Polícia Civil de São Paulo em 2003. Recordo que eu estudava umas 10 horas por dia na última fase, mas minha ansiedade era tanta que me prejudicou no simulado oral e na prova real. No simulado, eu estava morrendo de medo das perguntas do examinador de Direito Penal. Ele me perguntava uma matéria, e eu respondia outra totalmente diferente. Os outros membros da banca tentavam me acalmar, mas eu não conseguia ficar tranquilo. A experiência foi tão ruim que eu não gosto nem de lembrar. Fiquei muito nervoso, mesmo dominando a oratória, e acabei indo mal na prova.

Eu soube da minha reprovação num sábado pelo Diário Oficial. Chorei o que tinha que chorar na casa dos meus pais  e na segunda-feira retomei os estudos.  O que mais me diferenciou de outros candidatos é que eu nunca desisti diante das adversidades.

A Drª Martha Maria Guida Fernandes, psicóloga, contribuiu muito para eu superar a dor da reprovação e ajudou-me a diminuir a ansiedade que me acometia quando eu começava a chegar perto do final de cada certame (para ela, meu muito obrigado!).

Em 2004, eu era monitor na sede do LFG (antigo IELF), onde trabalhei com os professores Luiz Flávio e Rogério Sanches, entre outras “feras”, quando comecei a prestar o concurso para delegado de Polícia do Distrito Federal. Venci muito bem as quatro primeiras etapas. No teste físico eu tive problemas de saúde. Contraí febre tifóide a uma semana da prova. Eu tinha 40ºC de febre, muita dor no corpo e prostração. A prova consistia em uma corrida de 3.000 m em 12 minutos; em um salto de 1,80 m e cinco barras. Uma hora antes da prova, minha mãe me ajudava a vestir a roupa, pois eu não possuía forças nem para isso. Durante a prova, eu reuni toda a energia que pude e consegui atingir os índices mínimos em cada teste, que foram suficientes para que eu fosse aprovado. Da pista do Colégio Elefante Branco em Brasília, eu fui parar em uma cama de hospital.

Mas essa não foi a última batalha. Retornei à capital do país para o teste psicotécnico. Foram horas e horas de prova. Houve muita confusão no dia, pois os exames não eram realizados de forma simultânea. Todos os candidatos saíram exaustos do local.

Dias depois, meu nome não constou da lista de aprovados. Eu não sabia o que poderia ter ocorrido, pois eu apresentava o perfil compatível com a profissão. Em Brasília, eu contratei um advogado para acompanhar meu caso. Eu ingressaria com um mandado de segurança, tendo em vista todos os erros que foram constatados na realização da prova.

Pouco antes da fase da sindicância da vida pregressa, recebi uma notícia que mudaria minha vida (e acreditem: eu já estava estudando novamente!). Por um erro material da organizadora do concurso, meu nome não havia constado da lista de aprovados e, assim, eu estava de volta ao concurso. A portaria foi assinada pelo Diretor-Geral da Polícia Civil do Distrito Federal à época. Apesar do meu avô materno ter falecido naqueles dias, só quem já passou por isso sabe a sensação de ser aprovado depois de uma intensa batalha. Você passa praticamente três dias acordado, comemorando com todas as pessoas mais importantes ao seu redor.

Hoje, sou delegado de Polícia Civil do Distrito Federal, trabalho como delegado-chefe adjunto na 20ª Delegacia de Polícia, na cidade-satélite do Gama, que fica a 20 km de Brasília e ainda leciono as matérias: “Prisão” e “Sistemas de Prova no Inquérito Policial” nos cursos de formação de policiais na Academia da Polícia Civil do Distrito Federal. Tenho orgulho de fazer parte da melhor Polícia Civil do país.

Em 2007, quando comecei a lecionar, fui agradecer ao professor Luiz Flávio a contribuição em minha conquista. Nós nos encontramos no estúdio da rede LFG em Brasília. Esperei o mestre entregar todos os certificados de conclusão de curso aos alunos, que estavam presentes. Assim, eu lhe agradeci e disse que meu primeiro sonho, o de ser delegado, tinha se realizado e que eu gostaria de realizar o segundo, e o mestre perguntou: “Qual?”. Eu respondi: “Quero ser professor na Rede LFG”. O professor Luiz Flávio me respondeu: “Avante”. E o resto da história, todos já conhecem...

Sergio Bautzer é delegado da Polícia Civil do Distrito Federal e professor de Legislação Penal Especial da Rede LFG

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