Fazendo graça com a aprendizagem

Quando se achar, em nosso idioma, que algo está certo, a probabilidade de “o certo” estar definitivamente errado é quase certa

Redação
Publicado em 06/08/2013, às 16h07

Eduardo Sabbag

Certa vez, um aluno, referindo-se à complexidade das regras da gramática normativa, fez um curioso comentário e, a seu modo, recomendou como se devia proceder diante de uma questão de português. “Na dúvida, escolha a outra resposta, não aquela em que você acredita...”, dizia ele, quase em tom profético.

Com exagero ou não, há uma certa pertinência na sincera opinião do discente. Para ele, quando se achar, em nosso idioma, que algo está certo, a probabilidade de “o certo” estar definitivamente errado é quase certa. De fato, aproveitando o mote para mais um trocadilho, eu complementaria: “aprendemos português, todos os dias, e poderemos errar várias vezes ao dia se não estivermos em dia com o estudo de todo dia”.

Em palavras diversas, o caro aluno quis vaticinar que devemos sempre ter uma boa dose de hesitação diante das insidiosas regras da gramática normativa. Nada de afoiteza ou, mesmo, segurança demasiada. O português “prega peças” e vai continuar pregando. Não é à toa que a disciplina tem sido a recorrente “vilã” nas provas de concursos públicos. Sempre procuro orientar os alunos em sala de aula com uma pitada de severidade: “chegando de ‘salto alto’, poderá ‘beijar o chão’”. Tem dado certo o recado!

Diante disso, as pérolas do português merecem destaque em nossos estudos. Chamamos de pérolas aqueles deslizes a que todos estamos sujeitos, é bem verdade, mas que devemos, com todas as forças, evitar. Tudo isso porque a pérola costuma ser chocante, quer pelo aspecto gramatical, quer pelo aspecto da jocosidade, dando uma má impressão sobre o emissor. Por outro lado, é inquestionável o aspecto pedagógico do erro. Sim, isso mesmo, pedagógico! A nosso ver, o deslize gramatical, se for gritante, marca e, sendo corrigido a tempo, educa. E tal perpetuação de conhecimento permitirá que não se insista nele, que se afaste dele e, sobretudo, que se aprenda com ele. Todavia, é bom frisar, há opiniões divergentes, que insistem na pedagogia pautada na não reiteração do erro. Respeitamos o modo de ver.

Nesse passo, o propósito deste artigo é dividir com o leitor algumas pérolas que acabam “ensinando” muito – e com graça, o que é mais importante – aquilo que devemos evitar. Passemos a elas.

Lembro-me de ter encontrado em um texto a expressão "ao léo". O responsável pela gafe talvez desconhecesse que a expressão aceita em nosso idioma é “ao léu”, com -u, na acepção de “à toa”, “a esmo”, “ao deus-dará”, “à vontade”. E não foi a única vez. Conta-se que, certa feita, um advogado desavisado usou a expressão “ao léo” (com -o) em uma petição, sendo questionado pelo magistrado, acertadamente, sobre o ingresso de um novo interessado na lide: o “Léo” (de Leonardo). Só rindo...

O equívoco acima só não foi pior que a opinião de um entrevistado, quando comentava sobre o risco de certas doenças. Fez menção, com muita autoridade, a umas tais “doenças venéricas”. Venéricas? Como se não bastasse a gravidade da enfermidade, houve, ainda, a impropriedade vocabular. Grafa-se, com correção, “venéreo”, logo, no feminino, “doenças venéreas”.

Também já me causou certa aflição o incrível “tenção nervosa”. Como qualidade do que é “tenso”, somente existe “tensão”. Por outro lado, a forma “tenção” possui a acepção de “intenção”, sendo, sim, dicionarizada, mas o sentido é diverso. Portanto, não “troque as bolas”, sob pena de provocar uma “tensão geral”...

A propósito da busca da “calmaria”, é melhor restituir a paz evitando a “passificação”. Aqui, com franqueza, o repórter poderia ter tomado mais cautela. O substantivo derivado do verbo “pacificar” é “pacificação”, como “ato de apaziguar, tranquilizar ou restituir a paz”. Com essa “passificação” equivocada, teremos menos paz... e muito mais tensão. Não acha?

Por fim, a diferença entre a flexão verbal “há” e a preposição “a” continua complicando a vida dos desatentos. Não faz muito tempo, corrigi um texto de um concursando, em que ele escreveu “ser humano apto há receber”. Ora, a expressão adequada é “apto a receber”, sem a flexão verbal “há” – indicadora de tempo passado ou decorrido – e, também, sem a crase, uma vez que não se coloca acento grave no “a” antes de verbo. Disse-lhe, em tempo, que deveria tomar todos os cuidados, pois as bancas de concursos não costumam tolerar a falha.

Aliás, o jocoso virou profético. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) exigiu o tema em seu vestibular/2011 para o curso de administração de empresas – um dos mais concorridos do Brasil. Na prova de português, a partir de um texto sobre a ópera O Guarani, de Carlos Gomes (Coleção Folha Grandes Óperas. São Paulo: Moderna, 2011. Adaptado), apresentou a expressão “daqui a tempos” e perguntou ao vestibulando se, no português atual, a preposição “a” deveria ser substituída por “há”, formando a expressão “daqui há tempos”. É claro que a resposta é negativa, uma vez que a referência a um tempo futuro avoca a preposição “a”, e não a flexão verbal (há).

A solicitação no recente vestibular serve de prova cabal: podemos aprender muito “fazendo graça”, o que é bem diferente, como sabemos, de fazer graça com a aprendizagem. Não recomendo.


Eduardo Sabbag é doutorando em direito tributário na PUC/SP; mestre em direito público e evolução social pela Unesa/RJ; professor de direito tributário e de língua portuguesa na Rede de Ensino LFG; e coordenador e professor do curso de pós-graduação em direito tributário também na LFG.

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