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Consolidado como forma de expressão artística e de veículo para propaganda política, o cinema se mostra eficiente nas duas frentes.

Redação
Publicado em 10/12/2010, às 14h36

O cinema é tido como um importante instrumento para o homem pensar sua vida, sua conjuntura social e, também, refleti-las. Consolidado como forma de expressão artística e de veículo para propaganda política, o cinema se mostra eficiente nas duas frentes.

No Brasil, pode-se dizer que essa vocação atrasou um pouco o desenvolvimento do cinema no país. Quem nunca cansou do, carinhosamente chamado, “favela movie” ou daquelas fitas protagonizadas por retirantes nordestinos? A proliferação desses filmes se devia à necessidade dos realizadores de explicar o país. O cinema brasileiro, mais do que qualquer outra cinematografia mundial, sente a urgência de traduzir o Brasil para os brasileiros. Isso, ao longo dos anos, afastou o público dos filmes nacionais. Paradoxalmente, foi este mesmo movimento (ainda que com um foco diferente) que começou a aproximar o público brasileiro de seu cinema.

A violência, como bem sabemos, é uma mazela social de nosso país. Os números assombrosos de homicídios, latrocínios (assalto seguido de assassinato), sequestros, entre outros, impressionam os brasileiros a cada nova estatística divulgada. Contudo, nenhuma chaga social é tão debatida (seja no cinema ou não) quanto o tráfico de drogas. Foi ao enquadrar essa realidade que o cinema nacional recuperou um prestígio perdido e um público desconfiado. Primeiro veio “Cidade de Deus” (2002), que foi ao Oscar e devolveu ao nosso cinema os sucessos de bilheteria. Contemporâneo ao filme dirigido por Fernando Meirelles é “Ônibus 174” (2002). O documentário, considerado por parte da crítica internacional como um dos melhores da história do cinema, procura investigar a figura de “Sandro”, um menor que, viciado, fez um ônibus (cheio de passageiros) refém no ano 2000 e teve sua vida abreviada em um erro de estratégia cometido pelo BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro). O filme não promove a vitimização de “Sandro”, tão pouco busca dignificá-lo. O que o diretor José Padilha objetiva aqui é descortinar uma realidade que parece distante do noticiário nacional e que nos toma de assalto no noticiário televisivo. Padilha propõe o entendimento dessa realidade alarmante. A mesma orientação o pautou em “Tropa de elite” (2007), novamente com a violência no Rio de Janeiro e o tráfico de drogas no centro do debate.

O filme, além de popularizar o BOPE e sua política de atuação no combate ao tráfico, trouxe outras questões para a discussão. Como, por exemplo, até que ponto o consumidor de substancias ilícitas é responsável pelo círculo vicioso do tráfico? “Tropa de elite” não apresentava respostas, mas lançava as perguntas incômodas que muitos queriam evitar. Foi mais ou menos esse o espírito que motivou José Padilha na sequência da fita. “Tropa de elite 2”, ainda em cartaz nos cinemas, eleva a temperatura do debate. Padilha, com seu alter ego das telas Nascimento (vivido com competência ímpar pelo ator Wagner Moura), descem os morros e sobem nos palanques políticos para desbaratar algumas mesquinhices eleitoreiras muito típicas do jeito de fazer política no Brasil. A partir do momento que confrontarmos este cenário, avalia o segundo filme, poderemos reclamar um país melhor.

Com a fita ainda colhendo recordes nas salas de cinema do país, sociólogos e articulistas com trânsito junto à opinião pública se apressam em dizer que o que testemunhamos nesses últimos dias no Rio de Janeiro é um “enredo de Tropa de elite 3”.

Não há necessidade de um terceiro filme. A realidade, ainda que ficcionalizada, está soberana nos dois primeiros filmes. Até mesmo o apoio da população que surpreendeu os policiais na última semana está lá, logo no inicio do segundo filme. Política, aplausos e Nascimento se constrangem em uma cena passada em um restaurante carioca. 

Concursos para a área de Segurança Pública

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, solicitou ao Ministério da Defesa a permanência de cerca de 2 mil homens das Forças Armadas no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro.

Segundo Cabral, o efetivo das Polícias Militar e Civil disponível não é suficiente para atender à demanda da ocupação que o Estado pretende instalar nas duas áreas. A chegada das UPPs (Unidade de polícia Pacificadora) só deve ocorrer em meados do próximo ano. Com esse quadro, cresce a expectativa para novos concursos voltados para área de segurança pública no Estado do Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2011.

A presidente eleita Dilma Rousseff declarou, em campanha eleitoral, que pretende estender o modelo das UPPs cariocas por todo o país. 

Por Reinaldo Matheus Glioche

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