Entre pilhas de livros e pesadelos

“Fiquei feito louca, não falava com ninguém".

Redação
Publicado em 07/08/2009, às 14h40

Desde 2006, quando fechou o salão de beleza do qual era proprietária, Patrícia Antunes mantém uma rotina intensa de estudos. Ela já prestou concursos para o cargo de técnico judiciário no Tribunal Regional Eleitoral, no Ministério Público da União e no Tribunal Regional do Trabalho (15ª região); para técnico e analista no Tribunal Regional do Trabalho (2ª região); para escrevente no Tribunal de Justiça e também para outro cargo no Instituto Nacional de Seguro Social. Na conta, ficam de fora concursos menores, considerados por ela irrelevantes e prestados sem tanto empenho.

Sem ter conseguido tomar posse nos cargos que já almejou, Patrícia lamenta os tantos “quase” que encarou ao se deparar com os resultados. Quando prestou para escrevente, chegou a ser aprovada nos exames objetivos, mas amargou derrota na prova de digitação. Sem entender os mistérios que envolvem esses tipos de avaliação, entrou com recurso. Afinal, tinha terminado a prova com tempo de sobra, o suficiente para conferir se a digitação estava correta. O recurso, no entanto, foi indeferido. Patrícia imagina que talvez tenha esquecido alguma frase. No concurso para o INSS, outra decepção: ela caiu na besteira de ouvir a dica do professor, que alertava para que os alunos escolhessem como lotação o Centro, que teria mais vagas.  Como resultado, Patrícia ficou em 78º lugar. Ela conta que, se tivesse escolhido o Brás, por exemplo, teria alcançado as primeiras colocações e estaria agora exercendo o cargo.


Nessa época, também ouvindo os alardes dos mestres, assumiu uma rotina de estudos que não abria espaço nem mesmo para pequenas distrações. Os professores advertiam que os alunos deviam abdicar até mesmo de horas de sono. Assim, dedicar-se a qualquer atividade que não fosse de estudo deixava Patrícia com enorme culpa. Os amigos, as saídas ou qualquer tipo de lazer ou tempo destinado ao ócio foram relegados a segundo plano. O único contato que tinha era com pessoas do cursinho; as conversas não fugiam aos assuntos referentes a provas, questões, resultados, isto é, tudo o que dizia respeito aos concursos.


As aulas eram no período matutino e vespertino e o tempo restante para complementar o aprendizado. Os amigos nem mais compreendiam tamanho afastamento. Nessa época de clausura “obrigatória”, uma de suas irmãs ressentiu-se da pouca procura e achou até mesmo que Patrícia tivesse cortado relações. “Fiquei feito louca, não falava com ninguém. Não era nada com ela”, explica.


Nem mais em sonhos Patrícia conseguia fugir. Durante seis meses, só sonhava que estava resolvendo questões, fazendo testes e o fato de não saber se resolvia corretamente a deixava ainda mais nervosa. “Somente um dos professores com quem conversei me disse que eu deveria fazer as aulas e estudar cinco horas a mais por dia. O restante dos professores dizia que era preciso estudar, estudar e estudar. E mesmo depois de uma prova, já é para estar na semana seguinte no cursinho”.


A maioria dos alunos se agarra aos dizeres de que prestar concurso é como estar em uma fila: se você estiver estudando, irá andar adiante. Então não se pode desistir. Na opinião de Patrícia, no entanto, a concorrência está ficando tão grande que não adianta fazer 80%, o que já seria uma nota boa, é preciso gabaritar a prova, sendo cada vez mais difícil ser aprovado.


Atualmente, no apartamento silencioso, os livros e apostilas estão espalhados pela mesa de jantar, mas contrariando os ensinamentos dos professores, Patrícia não está desesperada tampouco muito animada com os próximos certames. Sem saber se continua a maratona de estudos, ela não se esquece de que o concurso de oficial de justiça está próximo e é preciso estudar. Só resta torcer para que a fila ande.


Nina Rahe/SP

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