Os mistérios por trás dos exames psicológicos

Candidatos, organizadoras e especialistas comentam a polêmica avaliação psicológica.

Redação
Publicado em 05/06/2009, às 15h35

Motivados pela emoção de trabalhar mediante a levantes e motins ou pela estabilidade proveniente dos concursos públicos, 75.763 candidatos saíram de suas casas em um dia ensolarado para testar os conhecimentos (ou tentar a sorte) no concurso para agente penitenciário da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) de São Paulo. Apenas 200 serão aprovados. Mesmo assim, poderão comemorar 15 mil candidatos que serão convocados para o teste psicológico.

E, mediante tamanho entusiasmo ao passar para a segunda etapa, eles sequer tentarão descobrir informações sobre o exame. Esse espírito investigativo tampouco é exigência para exercer o cargo. No edital, consta que serão verificadas características como controle emocional, controlada agressividade e adequadamente canalizada, bom nível de atenção, elevada flexibilidade de conduta, entre outras.

Também, caso fosse esperado dos candidatos habilidade similar a de um agente de inteligência para descobrir algo sobre exames psicólogos, todos estariam reprovados. A maioria das organizadoras opta por não divulgar qualquer informação a respeito. Durante um mês, entramos em contato com as principais organizadoras na tentativa de entender este tipo de avaliação. Como resposta, ouvimos falsas promessas de retorno, recebemos números de telefone inválidos e escutamos vários “não”. Apenas a Consulplan, organizadora do concurso para agente penitenciário da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania (SEJUC), Estado do Rio Grande do Norte, se dispôs a falar. A Banca de Psicólogos – que teve o nome de seus integrantes salvaguardado para evitar o assédio de candidatos desesperados e de cursos preparatórios – explicou que o teste “é uma amostra objetiva e padronizada de um comportamento, cuja função principal é mensurar diferenças entre indivíduos e suas reações, em situações diversas”. É de posse do chamado perfil “profissiográfico” (que neste concurso identificou como necessário ao cargo características de concentração, atenção, capacidade de memória e controle emocional), que acontece a escolha da avaliação.

Ainda segundo a Consulplan, alguns pontos da entrevista não puderam ser respondidos “pelo risco de comprometer o sigilo que o teste exige, podendo ferir princípios como igualdade, isonomia e segurança, fundamentais para o processo de seleção pública”. A organizadora não pôde responder de que maneira foi definido o perfil profissiográfico, não pôde se manifestar a respeito de quais as características de personalidade prejudiciais e restritivas ao cargo que renderiam o NÃO-RECOMENDADO e se o sigilo a respeito de como será o teste é intencional e influi no desempenho do candidato.

NO ESCURO - O assessor jurídico Marcius Carvalho foi reprovado no exame psicológico para escrivão da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. “Fiquei com uma sensação de impotência, pois não tive nenhuma satisfação sobre os motivos da reprovação”. E, junto com a decepção, Marcius teve que aguentar a gozação de amigos. “As pessoas acham que o exame avalia se o candidato tem problemas mentais, o que não é verdade”.

Diferente do que a maioria pensa, o teste revela características de personalidade. “Uma função precisa de um perfil profissional e, por meio dos testes, a instituição procura selecionar aqueles que se alinham mais”, explica a psicóloga Luiza Ricotta.

Sem acesso aos motivos de sua reprovação, Marcius imagina ter reprovado por responder de acordo com que achava que seria o perfil de um candidato a policial, já que sabia não possuir tais características. “A prova é repleta de contradições. Fazem perguntas ‘aparentemente’ relacionadas umas a outras e esperam que você responda de forma ‘coerente’”, explica.

O candidato Odicsan Penna, embora também reprovado no psicológico, obteve um pouco mais de êxito. Ele, que estuda para concursos desde 2007, foi submetido a três exames psicológicos. Vitorioso nos dois primeiros, Odicsan amargou uma derrota no terceiro. O curioso é que já havia sido aprovado para o mesmo cargo. Para Perito do Instituto Geral de Perícias de Santa Catarina, foi considerado apto. Já para igual cargo no Rio Grande do Sul, inapto. “Como posso ser apto em um Estado e não ser no outro? Mudei minha personalidade? Ou será que o processo é falho?”, questiona.

Na entrevista devolutiva, a profissional explicou que ele tinha dificuldade de lidar com situações novas. E, durante a mesma conversa, ele teve a oportunidade de demonstrar que o parecer era equivocado. Para surpresa, a psicóloga reconheceu o erro (embora nada mais fosse possível fazer: o recurso seria avaliado por outra pessoa). Nos testes avaliativos que fez em razão do recurso, os resultados também foram díspares dos apontados pela psicóloga. Mesmo assim, Odicsan acredita que alguma forma avaliativa deva existir, para evitar o acesso irrestrito aos cargos públicos.

Para saber a opinião dos leitores, o Jornal dos Concursos & Empregos realizou uma enquete com a seguinte pergunta: “Você confia nos testes psicológicos aplicados nos concursos?”. Do total de 1.753 respostas, durante oito dias, 70,79% apontou que “não, pois não há como saber os critérios usados”, 12,26% que “sim, os psicólogos têm credibilidade suficiente, 8,50% apontou que “depende do cargo e do órgão” e 8,44% que “depende da empresa organizadora”.

RECURSOS? - Para aqueles que ainda serão submetidos a exames psicológicos e, como resultado, amargarem um NÃO-RECOMENDADO, é possível se valer do (des)controle emocional ou da (in)adequada impulsividade para protestar. Talvez seja o momento para comprovar inteligência investigativa e descobrir o motivo da reprovação.

No edital do concurso para a SEJUC, consta que o candidato poderá apresentar recurso contra o resultado, solicitando vista do material produzido e acesso ao resultado do exame. Serão então agendados local, data e hora para análise da avaliação pelo candidato, que poderá ser assessorado por um psicólogo (por ele contratado, que fique claro). O edital também especifica que não será admitida a retirada dos testes, devendo o candidato ou o profissional por ele indicado analisar o material produzido na presença do psicólogo responsável pela avaliação. Esse procedimento, na opinião da advogada Lívia Figueiredo, dificulta a sua atuação: “Na revisão do teste, o resultado em geral só é mostrado a outro psicólogo e negado ao advogado contratado, o que resulta em prejuízo para a defesa”. A advogada argumenta que tal procedimento fere a Constituição Federal e o direito à ampla defesa.

O sigilo que envolve esse tipo de avaliação, pelo que parece, dificulta a vida dos candidatos do início ao fim. Odicsan, por exemplo, reclama que não teve acesso, em nenhum edital, ao perfil necessário ao cargo. “É extremamente frustrante não ver seu nome publicado na lista dos aprovados após ter investido tempo e dinheiro em inscrição, estudos, livros e, depois disso, ter que investir novamente para interpor recurso”.

Indignado, ele acredita que o que deve acontecer é uma harmonização nacional de todos os processos de concursos, desde a elaboração do edital até a publicação do perfil exigido para o cargo. “Se o candidato conhece de antemão o perfil necessário e sabe que não o possui, não despenderá nenhuma energia naquela direção”, conclui.

Depois da reprovação, ele, que recorreu até mesmo à terapia, conseguiu superar a derrota. Na próxima semana, será submetido mais uma vez à avaliação. Agora para o cargo de investigador da Polícia Civil de São Paulo. Que, ao menos dessa vez, não venha nenhuma surpresa desagradável!

Não desanime! - Para os reprovados no teste de inteligência investigativa, não é hora de desanimar. Os exames psicológicos, ao que parece, não exigem tamanha astúcia. E, embora não exista, segundo a psicóloga Luiza Ricotta, uma maneira de se preparar, a dica é estar calmo e relaxado durante o exame, pois candidato tenso retém informações que poderiam contribuir na avaliação.

Nina Rahe/SP

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