Muito além da aparente fragilidade

Glauce Paraguassu, de 29 anos, não pode imaginar o quanto ela já conquistou. Nascida em Brasília, a jornalista sempre teve que conviver com a adversidade.

Redação
Publicado em 25/06/2010, às 14h21

Quem olha para a aparência frágil de Glauce Paraguassu, de 29 anos, não pode imaginar o quanto ela já conquistou. Nascida em Brasília, a jornalista sempre teve que conviver com a adversidade. A brasiliense é portadora de osteogênese imperfeita (também conhecida como ossos de vidro), uma doença genética rara que causa, principalmente, a fragilidade nos ossos, que quebram com facilidade.

Filha única, quando criança adorava brincar com os primos, mas sempre precisou tomar muito cuidado para não fraturar os ossos. Impossibilitada de andar devido à doença, ela mora com os pais zelosos. Aprendeu a ler e escrever em casa e ingressou na escola somente na 2ª série. Mas a deficiência de Glauce nunca fez com que ela se privasse de sonhar e a jornalista queixa-se somente das dores. “Desde o nascimento tive problemas, mas, só fui fazer o tratamento correto aos 11 anos. Osteogênese é uma doença cruel, que sempre nos faz lembrar sua existência. Quanto às dificuldades, a maior delas é lidar com as dores no corpo. O resto eu tiro de letra”.

Aos 19 anos, ela prestou todos os vestibulares de Brasília para a área de psicologia e somente um processo seletivo para jornalismo. E foi justamente neste que Glauce conquistou a aprovação. Por este motivo, ela costuma afirmar que o jornalismo a escolheu e foi a melhor opção para sua vida. Sua paixão pela carreira começou quando percebeu a diversidade de temas com que poderia trabalhar e a capacidade de interação com o mundo.

Um ano após entrar na universidade, a jornalista começou a trabalhar como funcionária terceirizada no Ministério das Comunicações. Sonhadora, sempre imaginou que atuaria em uma empresa privada, onde poderia demonstrar suas habilidades e ser reconhecida. Porém, Glauce tentou por diversas vezes e nunca foi chamada nem para uma entrevista.  “Um dia a ficha caiu. Eu senti que precisava conseguir um emprego por conta própria, com benefícios e estabilidade. E fui estudar para concursos”, relata.

A jornalista perdeu as contas de quantos concursos já prestou. Mas acredita que tenham sido mais de dez. Destes, foi aprovada em quatro seleções e convocada em dois concursos. Já concorreu a uma vaga para o Superior Tribunal de Justiça (STF), Agência Nacional de Transportes Aquáticos (Antaq), Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e Câmara dos Deputados.

Em 2005, após estudar dois meses em um cursinho, foi aprovada em primeiro lugar nas vagas de cota para assessoria de comunicação do Ministério da Educação (MEC). E não parou por aí. Mesmo conseguindo a tão sonhada estabilidade de uma funcionária pública, ela se dedicou por mais quatro anos nos estudos e recentemente foi convocada pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Glauce pediu a exoneração no Ministério e ingressou no novo órgão.  “No Tribunal de Justiça do DF também entrei por concurso. Passei e esperei dois anos pela convocação. Foi um período de muita ansiedade, mas finalmente consegui entrar. Já estou há dois meses no TJ e pretendo parar por aqui”, diz. Mesmo trabalhando mais, ela comemora sua nova conquista. No Tribunal, Glauce foi bem recebida e contou que o órgão possui um núcleo de inclusão, que trata tanto das necessidades estruturais e arquitetônicas, quanto das questões de conscientização e sensibilização.

Independente financeiramente, consegue pagar suas contas, sua cadeira motorizada, o tratamento e os remédios. Nas horas livres, a jovem, que adora maquiagem, gosta de sair, de festas, ler livros, acessar a internet, ver filmes, viajar e fotografar. Coisas comuns para a idade. Além disso, mantém um blog na internet, onde divide sua rotina com outros deficientes.  

A brasiliense tem o sonho de construir a própria casa e decorá-la do seu próprio jeito. Melhor ainda se for perto da residência dos pais. “Meus pais são minhas pernas e meus braços. Sem eles eu não seria nada hoje”.

Mas algo que a irrita muito é o preconceito. E ela afirma ter sofrido de todas as formas. “Já sofri preconceito dentro da família, com colegas, com desconhecidos. Algumas vezes finjo que não é comigo. Outras vezes dou uma boa resposta. Mas, cada um dá o que tem de melhor, não é?” Ela que o diga.

Samantha Cerquetani/SP

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