Na bagagem, histórias de outros destinatários

Na infância, Carlos via a profissão de carteiro com curiosidade de menino repleto de porquês.

Redação
Publicado em 13/11/2009, às 15h01

Em frente ao espelho, um homem baixo e robusto espalha cuidadosamente no rosto e nos braços filtro solar fator número 30. Antes de sair para mais um dia de trabalho, ajeita o boné azul e arruma a gola da camiseta amarela com parte do peito na cor azul. O tênis preto, resistente e antiderrapante, chama atenção. E na enorme bolsa a tiracolo, uma bagagem de aproximadamente seis quilos de outros destinatários.

Naquele dia de sol pouco habitual para São Paulo e também para Carlos Gonçalves de Souza – mais acostumado a tomar chuva – não há protetor solar que proteja dos tantos raios solares. Mesmo assim, ele segue sorridente o caminho que conhece como, ou mais, que a palma de sua mão. Na Vila Leopoldina, segue pela rua Trípoli no lado par, dobra à direita também no lado par da rua Camandulas, retorna na mesma rua pelo lado ímpar, mais um percurso pela rua Trípoli, um novo “U” (lado par e depois ímpar) na rua Quari e mais um retorno pela rua Trípoli, desta vez pelos números ímpares.

Oláááá – grita uma senhora de cabelos brancos, ainda sem abrir a porta de entrada.

Tudo bem, dona Elza? – responde Carlos atenciosamente.

Há mais de dez anos trabalhando na mesma região, o carteiro se parece como um emissário de boas novas, ainda que em suas mãos figurem mais cartas de cobranças do que correspondências de amor ou papeis repletos de lembranças e saudades.

Na infância, Carlos via a profissão de carteiro com curiosidade de menino repleto de porquês. Com parentes nordestinos, intrigava-se com o tamanho da viagem das cartas que, incansáveis, iam e vinham todas as semanas. Ao receber a correspondência, questionava o portador, querendo entender como de tão longe, elas chegavam apenas em três dias.

Encantado, tal como nas cartas, Carlos escreveu para si mesmo um destino e, determinado, correu atrás do sonho de carteiro. Em 1990, com 19 anos, soube do 1º concurso para os Correios e, solteiro, não teve motivo que o distraísse ou o afastasse do desafio. Carlos estudou cerca de quatro horas diárias para matérias de matemática, português, redação e conhecimentos gerais.

Das aproximadas 200 vagas, passou em 64º lugar. Na mesma época, também foi aprovado para o cargo de cobrador de ônibus. Não quis. Queria o contato com o público e, como cobrador, ainda que o tivesse, teria uma vida sedentária, sentado na poltrona do ônibus. “Como carteiro, exercito-me bastante”, justifica.

E é mesmo a profissão de carteiro o que Carlos exercita tão bem. Durante as férias, os moradores já sentem sua falta. Elza, a senhora simpática, chegou mesmo a enviar carta de reclamação, suplicando o retorno de Carlos. Um descuido do substituto, que trocou a correspondência dela pela do vizinho, foi motivo de sobra para reivindicar o retorno. Na correria, o outro entregou as cartas de Elza de Souza Bernardo para um vizinho de sobrenome Bernardo de Souza e no trabalho de resgate das correspondências... saudade de Carlos.

“Carlinhos é o filho que Deus me deu. Eu daria um carro pro Carlinhos entregar carta. É a minha paixão”, declara sem timidez alguma.

Carlos – paixão de Elza, como um filho – já é homem criado, casado e com filho para chamar de seu. O filho, ainda longe de decidir o rumo da vida, não diz se quer ou não seguir o exemplo do pai. Carlos, no entanto, faz questão de afirmar a oposição: “carteiro sofre muito, passa calor, toma sol, toma chuva”.

E, ainda, corre de cão. Logo quando entrou, numa entrega no bairro Jardim de Abril, na rua Governador Lucas Nogueira, Carlos também teve sua história com os cães. E, no caso dele, na falta de um, vieram dois.

E ele com telegrama urgente. Esperou cinco, dez minutos e então os cães deram descanso. Depois do telegrama entregue e sem o peso da urgência nas mãos, teve que continuar o percurso e voltar pelo mesmo caminho. E, mais uma vez, os dois à espera. Com um galho nas mãos, ele se protegeu e os cachorros avançaram. E no empurra-empurra de galho contra cão, o carteiro saiu ileso.

Com trabalho reconhecido, Carlos foi convidado duas vezes para mudar de cargo, em oportunidades de promoção. Recusou. Queria era ser carteiro. Uma pena que, no lugar das hoje ultrapassadas cartas de amor, Carlos se encarregue na maioria das vezes do leva e traz de correspondências nada pessoais. E é por isso que, muitas vezes, sobram as exclamações desagradáveis: “Já vem me trazer contas”, alguns dizem.

Na memória, no entanto, ficam as histórias que, mesmo reais, mais se parecem ficção. Para uma das moradoras, Carlos entregava cartas vindas do Japão. Fazia dois anos que o marido estava distante e, do outro lado do mundo, era Carlos o encarregado de transportar as saudades, também recheadas de esperança. “Ela ficava esperando e eu também esperava para poder entregar as correspondências”.

Nina Rahe/SP

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