O empreendedorismo veste saia

Nem melhor, nem pior que os homens. Apenas diferente.

Redação
Publicado em 27/06/2007, às 10h37

* Por Luiz Fernando Garcia

Nem melhor, nem pior que os homens. Apenas diferente.

Desde o início da participação das mulheres no mercado de trabalho, questões culturais e atávicas não davam margem à exposição de pesquisas referentes à conduta feminina em atividade corporativa. Apenas dados sugestivos a empreendedores masculinos eram divulgados.

Na medida em que cargos de presidência geridos por mulheres passaram a crescer notoriamente (dados Grupo Catho), mudanças começam a ser percebidas.

Dados da pesquisa "Empreendedorismo no Brasil", divulgada recentemente pelo GEM - Global Entrepeneurship Monitor, em parceria com o Sebrae e o IBQP - Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Paraná, comprovam que o número de mulheres empreendendo por necessidade é maior que a dos homens (39% homens e 42% as mulheres).

Mulheres que, há décadas estavam à frente dos negócios e conseguiram sobreviver ao longo do tempo, perduraram. São mulheres que têm personalidade franca, que nasceram para ser empreendedoras, característica pouco comum ao sexo feminino.

Pesquisa realizada pela Caliper Estratégias Humanas do Brasil, confirma que 42% das mulheres abrem os negócios chamados por necessidade, com base na emergência financeira ou em uma experiência informal anterior. Além disso, o estudo mostra que o perfil conservador é comum entre 181 mulheres ocupantes de cargos de diretoria, gerência ou coordenação. Mulheres que optam por abrir uma franquia, por exemplo, afirmam maior facilidade e segurança já que têm um nome estabelecido no mercado. Se por um lado, essa condição as favorece e as protege contra o cometimento de falhas, por outro, muitas vezes deixam de arriscar e, por isso, mostram-se menos ousadas em fazer sugestões em seu trabalho.

Características do universo feminino, de forma preconceituosa, são consideradas fraquezas. Impulso para acomodar situações, sensibilidade para a necessidade dos outros, preocupações comunitárias, etc, acabaram virando vantagens no mundo corporativo atual. Se os homens foram os heróis da Era Industrial, as mulheres têm um grande papel a desempenhar na era dos Serviços, que precisa de habilidades de relacionamento com clientes e com comunidades, característica feminina por excelência.

Tais mulheres têm mais facilidade para compor equipes, persistência, cuidado com detalhes, além de valorizarem a cooperatividade. Apesar de incluírem certa dose de sentimentalismo a suas decisões, têm maior facilidade a desenvolver atividades intelectuais, inverso ao homem, que é mais ágil e prático.

Metaforicamente, a mulher agüenta quinze assaltos e ganha uma luta por pontos. Já o homem agüenta apenas cinco e ganha por nocaute, buscando o resultado final. Enquanto a mulher persiste a longo prazo e vence justamente por isso, os homens são resolutos.

Quando critérios como auto-realização, eficiência e lucros foram utilizados para avaliar o sucesso feminino, concluiu-se que mulheres empreendedoras quebraram o pensamento estereotipado e hegemônico já existente. Fatores internos como o sucesso interior foram considerados quesitos de maior importância, onde possuir um negócio próprio parece ser uma estratégia de vida e não meramente uma ocupação ou um meio para ganhar dinheiro.

Ambivalentes, as mulheres tendem a valorizar mais o trabalho do que os filhos ou a família em geral, mas, ao confrontar o dilema trabalho x marido, as empreendedoras optam por uma alternativa que expressa a valorização combinada de ambos. Assim, têm como meta atingir um equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal, utilizando diferentes estratégias para lidar com as demandas do negócio e da família.

As empreendedoras, mesmo com forte tendência a perceber seus negócios como difíceis, os vêem muito mais como um desafio do que um fardo. Contrariando crenças muito difundidas, os negócios tendem a ser vivenciados sem culpa, em harmonia com o lar, vantajosos para a família, não se constituindo, portanto, como oposições.

Ao buscarem auto-realização e independência financeira através de suas empresas, essas mulheres se sentem desafiadas e instigadas. Desta forma, ao contrário à famosa expressão "dupla jornada", que qualifica a mulher no mercado de trabalho, o duplo desafio é enfrentado positivamente.

Mulheres empreendedoras não gerenciam menos ou pior que os homens; trata-se somente de outra perspectiva de gestão. Pragmatismo ou não, o "feeling" feminino realmente funciona.

* Luiz Fernando Garcia é consultor especialista em manejo comportamental e empreendedorismo em negócios; metodologista; empresário; palestrante e autor dos livros "Pessoas de Resultado" e "Gente que faz", da Editora Gente.

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