Cansei de me frustrar. O que faço?

A pandemia do novo coronavírus exponenciou o sentimento de frustração entre os concurseiros com o adiamento dos cursos, além da perda de parentes próximos. Mas como devemos lidar com a frustração?

PUBLIEDITORIAL
Publicado em 17/03/2021, às 08h52

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Estamos vivendo tempos de muita frustração, não é? Nossa mente cria um roteiro, com expectativas e cenários bem definidos, e eis que a senhora Realidade vem e não dá a mínima para esse script. O concurso é adiado, a prova é suspensa, o edital que seria publicado fica para outro momento...

E, então, começamos a desenvolver aversão à encomenda que a vida nos trouxe. Problematizamos tudo e nos vemos brigando com os fatos, com a realidade jamais imaginada, nem em pesadelo. Tudo parece estar dando errado, e é quando nos sentimos visceralmente frustrados. Como lidar com isso? Nossa conversa de hoje traz algumas pistas.

As fontes de frustração são muitas. Sair de casa para assistir a uma aula ou palestra e não entender nada do que foi dito é uma. Destrinchar um edital recém-publicado, planejar toda a preparação para as provas, mergulhar nos estudos e, algum tempo depois, ser informado de que foi tudo suspenso, e por tempo indefinido, é outra.

E não podemos nos esquecer do potencial que as pessoas do nosso círculo têm de nos decepcionar profundamente, em regra por depositarmos sobre elas expectativas altas demais. Frustrações como essas disparam dor, tristeza, desamparo, desespero. Estamos falando de um misto de sentimentos que se abate sobre nós quando uma expectativa não se concretiza.

Por isso, se direcionamos toda ou grande parte de nossa energia a um evento ou objetivo, damos chance para a frustração vir com tudo.

A melhor forma de nos pouparmos é estarmos prontos para as inevitáveis decepções. Precisamos fazer como um bom jogador de xadrez: analisar as peças no tabuleiro e tentar antecipar os lances do oponente. Dito de outra forma, é crucial aprendermos a identificar, em nossos projetos, tudo que abre brecha para a frustração, a fim de nos prepararmos para a hipótese de a vida, o Universo, Deus, ou qualquer outro ser, conforme nossa crença, nos pregar uma peça.

Outra boa ideia é ser comedido. Refiro-me a dosar as expectativas, sonhando grande, mas sem dar passo maior que as próprias pernas. Parece contraditório, mas não é.

Quando se trata de sonhos, o céu é o limite. A razoabilidade está em ser realista quanto ao processo, quanto às metas e objetivos intermediários.

Esteja convencido de que muito pode acontecer fora do que você idealizou para seu percurso. Uma meta que parecia tranquila de alcançar pode se tornar inatingível num piscar de olhos, basta algo imprevisível acontecer – como, por exemplo, uma pandemia.

Ser prudente é ter consciência de que nem tudo se dá do jeito que previmos. Ponderação é a palavra de ordem para evitar sofrer demais com isso.

A prática de atividade física ajuda, e muito. Exercícios regulares fortalecem não só o corpo mas também nossa resiliência. Quem tem o corpo e a mente sãos enfrenta melhor as adversidades, suas consequências e efeitos colaterais, que podem ser bem cruéis. Vão da perda da autoconfiança, passam pela raiva e chegam à depressão e às tentativas de fuga da realidade, com apego a drogas e álcool.

É comprovado que mexer o corpo contribui para melhorar o humor e diminuir o estresse. Experimente. Tenho certeza de que não vai se arrepender.

Tudo bem, os anos de 2020 e 2021 vieram pôr à prova até o mais resiliente dos seres humanos. Não dá para fingir que nada de mais está acontecendo. Doença, tristeza, angústia, morte, afastamento social, uso de máscara, suspensão de concursos, fechamento de escolas, comércio e restaurantes, tudo isso é real.

São os fatos, e é o que se tem para hoje. Não era o que você ou eu queríamos, mas é o que é, e precisamos aceitar. Cedo ou tarde teremos de aprender a conviver com essa realidade.

Não sei quanto a você, mas, para mim, é um alento imaginar que todas as experiências, mesmo as ruins, têm seu papel em minha construção como um ser humano melhor amanhã. Procuro pensar que algum dia entenderei as razões de passar por tudo isto. Acredito que o futuro um dia me mostrará o porquê de tanta aflição e incerteza.

Por ora, aceito que frustrações são parte do jogo da vida. Se até a mãe amorosa provoca alguma frustração nos filhos a cada bronca, e tudo na melhor das intenções, o que se pode esperar do Universo?

Portanto, chega de agir como uma criança que queria um sorvete de morango, mas ganhou um de limão. Ela faz birra, esperneia, até que o sorvete derrete. Só então o menino ou menina cai em si e vê que poderia ter experimentado aquele novo sabor e perdeu a oportunidade. Talvez, dando uma chance ao limão, descobrisse que é ainda mais refrescante que o morango...

Enfim, ignorar os fatos não os faz desaparecer. Não adianta tentar se enganar, dizendo que o elefante na sala é apenas um ratinho. Adianta menos ainda fingir que não o está vendo. O problema continuará a existir. A dor continuará lá, em toda sua grandeza.

É inútil reagir apenas com fúria. Como se cara amarrada pudesse intimidar a senhora Realidade. Como se coubesse a nós escolher o que vamos e o que não vamos vivenciar em nossa passagem terrena. Pior: como se a vida nos devesse alguma satisfação.

Se não encararmos nossas frustrações, se não lidarmos com elas como homens e mulheres adultos, nossos dias serão de pura tristeza e amargura. É, caro leitor, a frustração pode ser o fim de uma busca ou um recomeço. Pode ser mais ou menos promissora, a depender exclusivamente de você e da forma como a enxerga.

Se a encarar como parte de um processo, verá que a vida é muito mais interessante do que uma decepção pontual faz parecer. Desafios são bons, afinal.

Existem problemas perfeitamente administráveis, outros de solução dificultosa, mas possível, e outros tantos que realmente estão além do nosso controle. Precisamos entender que escolhas impõem tanto perdas como ganhos.

Quando o saldo das suas for positivo, comemore. Até se permita sentir um pouco de tristeza pelo que perdeu, mas não a deixe tomar conta do seu estado de espírito. E tudo que você não pode fazer é abandonar seus objetivos. Seria uma covardia com a sua própria história.

Amigo leitor, as cicatrizes causadas pelas frustrações de hoje serão, amanhã, a lembrança de sua luta, e essa lembrança há de lhe dar força. É pegar o elefante pelas unhas e enfrentar os fatos, pensando em como tirar o melhor proveito da situação. E então, você está pronto?

*texto de Gabriel Granjeito, Diretor-Presidente e Fundador do Gran Cursos Online

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