A plenos pulmões

Prestou então concurso para professor e depois para Técnico em Assuntos Educacionais, no MEC.

Redação
Publicado em 24/12/2009, às 10h44

– aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh – gritou Jânio Roberto dos Santos durante 57 segundos, pouco antes de ir para casa com um carro 0km. Não que Jânio fosse acostumado a gritos. Mas quando recebeu a ligação do irmão, avisando-o sobre a promoção que daria um carro 0km para quem o conseguisse no grito, Jânio logo incluiu um berro ou outro na rotina diária, levando com disciplina o que a maioria das pessoas encararia como brincadeira. Procurou se informar sobre as regras e, contrariando aqueles que insistiam para que gritasse no impulso, teve cautela: gritou somente quando julgou que estava pronto e, assim, passou pela primeira etapa e foi classificado junto com mais 29 pessoas de todo o Brasil. Na final, com câmeras e jurados, não deu espaço à tensão e deixou para trás concorrentes melhores de grito que, por nervosismo, engasgaram. Das dez vagas, alcançou a sétima posição. “Na época as pessoas ficavam admiradas porque eu já exercia o cargo de analista judiciário, era Diretor de Orçamento e Finanças e Gestor Financeiro de um Tribunal, e geralmente as pessoas ficam com vergonha. Eu não tive”.

Sem se curvar frente a nenhuma dificuldade, a trajetória de Jânio é mais uma constante procura por desafios, pouco distante da dos alpinistas que buscam, sem medo, picos cada vez mais altos. Aos vinte anos de idade, Jânio já era oficial da reserva do Exército, obtendo o primeiro lugar em sua turma. Acabou, no entanto, optando por outro caminho e foi cursar faculdade de filosofia. Na ansiedade de entender a si próprio, ao mundo e à sociedade, esqueceu-se que precisava de uma profissão e somente no final do curso começou a se preocupar sobre como ia ser e o que ia fazer. Prestou então concurso para professor e depois para Técnico em Assuntos Educacionais, no Ministério da Educação. Após sete anos na área, em 1990, percebeu que existiam vários concursos, com salários consideráveis, que exigiam como requisito nível superior, independente da área de formação: ele poderia ser diplomata, auditor ou analista da Receita Federal, analista de finanças e controle, entre outros tantos.

Mais uma vez, sem se intimidar pelos obstáculos, começou a estudar. Durante o dia, trabalhava no Ministério da Educação; à noite, como professor; e o tempo livre dividia entre os livros e os três filhos. Mas já em 1991, tomou posse como técnico da Receita Federal; depois assumiu como analista de finanças e controle, na Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda; mudou para o cargo de fiscal de rendas do Estado de Mato Grosso do Sul; depois para analista judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da 24ª região. Foi então que percebeu que se tivesse formação específica em direito, outros concursos “poderiam se abrir” e então acrescentou à rotina a faculdade de direito.

Ao final do curso, mais e mais estudos. Com mais dois amigos, Jânio montou um grupo para estudar de forma autodidata. Eram 50 horas semanais de dedicação. Durante os dias úteis, ele estudava cinco horas diárias. Aos finais de semana, o grupo reservava vinte horas para debater o assunto e liquidar as dúvidas. Tudo sempre com um planejamento rigoroso: de antemão, já sabiam quais obras seriam estudadas, quanto tempo seria destinado a cada uma delas e em qual data o assunto deveria estar encerrado. Foi nessa época que Jânio passou para o cargo de procurador federal da Anatel e, através de concursos de remoção, chegou a exercer o cargo no INSS e na Funasa.

O grupo de estudos durou o período de dois anos, o suficiente para que os três colegas esforçados conseguissem os cargos pretendidos. Um, virou promotor de justiça; o outro, procurador federal; e Jânio, exerce até hoje a função de juiz federal. Durante essa jornada, ao grito somam-se mais excentricidades: em uma das provas, Jânio não teve pudor em levar uma grande mala de rodinhas que comportava todos os livros necessários para consulta. “Estudar é hábito. E concurso não resiste a estudo. Se você não consegue, é porque o estudo foi pouco e não porque o concurso foi difícil”.

Após mais de dez anos de dedicação aos concursos, Jânio aconselha aqueles que enfrentam a longa peregrinação rumo a um cargo público. “Depois de passar por essa experiência e experimentar também um curso preparatório, eu encurtaria o caminho e não seria mais um autodidata. Quando a gente é autodidata, não tem muito parâmetro do que os concursos estão cobrando e as pessoas que montam um curso profissional realmente conseguem dar uma base e indicar o caminho mais curto para você passar”.

Hoje, aos 50 anos e sem frustrações na bagagem, Jânio pensa e repensa para encontrar alguma dificuldade que já o tenha feito desistir. Não houve. Apenas alguns desvios no caminho. “Muitas vezes a gente vai tentar e desiste porque, caminhando naquela estrada, vê que não é bem aquilo que você precisa E nisso tenho que dar razão às outras pessoas que escolhem outro caminho. Se todo mundo decidir fazer concurso público, não existirão vaga suficientes, a grande maioria não vai passar”. 

Nina Rahe


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