Dois pais

José Ross Tarifa é um exemplo de como iniciativa e força de vontade podem gerar oportunidades e determinar o sucesso

Pâmela Lee Hamer
Publicado em 18/04/2013, às 14h31

José Ross Tarifa é um homem do passado. E não só porque viu a chegada dos imigrantes ao Estado de São Paulo e todo o choque cultural da experiência; viveu o trabalho árduo nas fazendas de café e pôde acompanhar a inauguração do Parque do Ibirapuera. E nem porque recebeu o título de cidadão paulistano recentemente.

O que dá a esse senhor humilde e simpático o brasão de ‘homem do passado’ é o jeito de ser. É daqueles que puxam a cadeira para você sentar, trata todos como se fossem da família e não tem vergonha de deixar expostas as raízes.

Grande parte da personalidade, Tarifa traz do pai, um imigrante espanhol que viveu até os 90 anos trabalhando de sol a sol - e também debaixo de chuva, se fosse preciso - sem deixar de lado os oito filhos: seis mulheres e dois homens.

“Ele gostava de trabalhar. Trabalhou como carroceiro, caminhoneiro e nas fazendas da família. Acordava todos os dias às cinco da manhã, e eu junto, porque minha mãe não achava certo eu ficar dormindo se meu pai já estava acordado. Então, eu tirava leite da vaca e só depois me arrumava para ir à escola”, lembra com sorriso nos lábios.
A vontade de fazer está no sangue. Sangue do imigrante que encontrou forças, em 1910, para fugir da falta de empregos, do racionamento de comida e da guerra civil. “Aprendi com os espanhóis, os italianos e os japoneses a ter garra, raça, objetivo, propósito”, resume, com a voz firme de quem viveu com intensidade o que relata.

Se a força de vontade foi o direcionador, a educação foi o motor. O início da formação ocorreu aos sete anos, quando duas professoras foram lecionar na escola que o pai de José construiu, tora a tora, na fazenda dos pais em Avanhandava, interior de São Paulo. “Estudei até o terceiro ano bem perto de casa. Para concluir o quarto ano tive de me deslocar para Santa Maria do Gurupá, o que me fez perceber que na vida é preciso fazer alguns esforços pela educação e, assim, todos os dias, percorria 16 quilômetros a cavalo para ir e voltar”.

A conclusão dos estudos foi realizada aos 20 anos, sete anos depois de terminar o quarto ano, devido à dedicação que José precisava oferecer às atividades na fazenda de café de Marialva, no Paraná. E com o ciclo de sete anos vieram as mudanças mais significativas: o supletivo e o colegial em São Paulo e o concurso para escriturário do Banco do Brasil.

“Meu irmão de 18 anos e eu, de 20, ficamos um ano só estudando, e nosso pai mandava dinheiro. Depois, arrumamos emprego de meio período no Banco Whitaker. Meu primo, que trabalhava no Banco do Brasil, disse que ia ter concurso e nos inscreveu”, recorda.

Naquela época, conseguir um cargo público era o que todo mundo desejava; a concorrência já era grande e exigia enorme preparação. José sabia disso e, mesmo não tendo passado por duas vezes, não desistiu. Percebeu onde estava o erro e foi com garra à aprovação. “Quando prestei a primeira vez, só sabia bem matemática e português, porque tive ótimos professores. Mas não era suficiente. Eu e meu irmão arrumamos um professor de português para dar aulas particulares. A média era 6,0 para matemática e português. Também pediam datilografia, inglês e francês comercial e contabilidade”.

Para saber o inglês e o francês, Tarifa se matriculou em escolas de idiomas. Para a contabilidade, a saída vinha de outro extremo. “Eu tinha um primo contador e pedi para ele me ensinar; era um ‘bicho de sete cabeças’ para mim. Ele me ensinou que tudo tem que ter registro e a fazer lançamento. Para complementar, eu estudava pela apostila do concurso”.

O irmão demorou mais dois anos para ver o nome na lista de aprovados, ao contrário de José, que passou antes mesmo de terminar o terceiro colegial. O feito o fez ir duas vezes ao Rio de Janeiro, na sede do BB: uma para pedir o adiamento da posse e a outra para se colocar à disposição, em 1960.

“Foi uma alegria! Passei de um salário de Cr$ 5.000 [na época, a moeda era o cruzeiro] para Cr$ 14.800. Meus pais viram que eu estava feliz, indo para frente. Peguei a relação de agências para tomar posse e escolhi Novo Hamburgo porque, além do Sul, só tinha o Nordeste, e não queria ir tomar água suja”, ri, e emenda: “mal sabia que este acontecimento iria mudar a minha vida, pois estava prestando o vestibular para engenharia, mas, por estar empregado em um ramo totalmente diferente, optei pela economia”. A saída do Rio Grande do Sul e o retorno a São Paulo vieram dois anos depois, e a graduação foi concluída na USP, em 1967.

Como sobrava dinheiro ao final do mês, em 1972, mesmo ano em que nasceu a primeira filha, José resolveu se aventurar no mercado imobiliário junto a outro irmão, Francisco. “Por trabalhar no banco, eu não podia ter uma atividade paralela, mas nunca dei motivo para reclamações. Nunca faltei ou cheguei atrasado, com exceção dos dois dias em que fiquei doente. Assim, acabei vendendo muitos imóveis para pessoas do banco, a maioria japoneses, inclusive para o gerente”.

Entre 1973 e 1983, 42 casas e um prédio já estavam prontos e entregues. Surgiu a necessidade de abrir a construtora Tarjab, em referência aos três sócios: Tarifa, Jarbas e Borges.

Hoje, prestes a completar 79 anos, José Ross Tarifa faz planos. Quer chegar aos mil funcionários (em novembro passado já eram 900); manter o crescimento de 5% a 6% ao ano; continuar dando atenção às três filhas (Daniele, Priscila e Cíntia) e à esposa, e investir na educação dos sete netos.

Quem abriu as portas para que ele conseguisse chegar aonde chegou, além da família, ele não esquece: “Você não tem ideia do quanto o Banco do Brasil me ajudou na vida! Trabalhei lá por 27 anos e meio. Foi um grande alavancador. Digo que tive dois pais: o meu, de sangue, e o Banco do Brasil”.

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