Crase proibida

Para quem a entende e sabe usá-la, rapidamente reconhece a importância de tal acento, esclarecendo sentidos e funções

Redação
Publicado em 07/05/2012, às 14h37

João Bolognesi

É muito comum o brasileiro sofrer com o acento grave, sinal que serve para indicar crase, ou seja, a fusão de “a + a”. Ele é apenas um sinalzinho com inclinação à esquerda, tem seus encantos, porém deixa muita gente boa em situação delicada. Para quem a entende e sabe usá-la, rapidamente reconhece a importância de tal acento, esclarecendo sentidos e funções.

Falar do acento agudo e do circunflexo, como na nova ortografia da língua portuguesa, é coisa bastante distinta de falar do acento grave. Razões muito diferentes justificam a existência deles. Abole-se um acento agudo aqui, um circunflexo lá, mas o grave tem vida longa garantida. A crase é eminentemente sintática, exige noções de regência e bom conhecimento morfológico do artigo e da preposição. Acentuar uma proparoxítona (lâmpada) e acentuar um objeto indireto (referi-me à nova lei) exige esforços cognitivos diferentes.

Quando alguém me pergunta como faz para aprender a “crasear”, digo para começar pelo avesso: primeiro aprenda a não colocar o acento em lugar proibido. Há certas construções em que ele não cabe, pois falta metade: um dos “a + a” não comparece. Por exemplo, o artigo definido feminino “a” não pode ser usado em determinadas situações, o que, por exclusão, nos leva ao raciocínio de que o “a” da construção é apenas a preposição “a”.

Em todas as situações a seguir, não insista, o acento é proibido, pois o artigo definido feminino “a” não pode aparecer. Assim, não ocorre crase antes de:

a) substantivo masculino: foi a júri, falei a respeito, ir a bordo, a pé, operação a laser

b) “a” no singular + palavra no plural: a folhas, a duras penas, referiu-se a pessoas

c) artigo indefinido uma: falei a uma pessoa, referi-me a uma lei

d) pronomes pessoais: falei a ela, a mim, a ti, a nós

e) os seguintes pronomes indefinidos: falei a ninguém, enviei a pouca gente, referi-me a toda pessoa, a qualquer pessoa, a cada pessoa, não falei a nenhuma pessoa, falei a alguma pessoa, falei a muita gente, falei a bastante gente, falei a alguém  

f) os pronomes demonstrativos esta e essa: falei a esta pessoa, referi-me a essa lei

g) verbo infinitivo: a partir de, a combinar, a começar

h) pronomes de tratamento iniciados por Vossa ou Sua: falei a Vossa Senhoria, requer a Vossa Excelência

i) pronome de tratamento você:faleia você

j) pronome cujo: vi a pessoa a cujo caráter fizemos alusão

k) pronome quem: vi a pessoa a quem você diz obedecer

Também não ocorre crase em expressões em que usamos palavras repetidas: face a face, cara a cara. A memorização dessa lista é decisiva para que não sejam cometidas as falhas mais primárias em relação ao acento grave.

Nas provas de concursos públicos, essa área proibida de crase comparece com frequência. Em todos os trechos abaixo, destacamos o “a” com falha. Procure mentalizar por que o acento está errado.

1) (ESAF) como um instrumento de poder à favor dos capitais

2) (ESAF) no que tange à doenças ocupacionais

3) (VUNESP) vou narrar à Vossa Excelência

4) (VUNESP) deixe o carro na garagem e ande à pé

5) (VUNESP) Pôs-se à chorar

6) (FCC) sempre sujeitas à alguma revisão

7) (FCC) Quando à cada nova obrigação

8) (FCC) Se fosse a mim, e não à ela

Agora é ficar atento e evitar erros básicos como os dois exemplos seguintes, retirado de publicações de jornal:

INGLÊS À JATO

Para conversação e tradução.

Também Francês e Espanhol.

Fone: (11) 3167-61**

MANUSCRITOS DE DRUMMOND VÃO À LEILÃO

Os substantivos “jato” e “leilão” são masculinos e, antes de palavra masculina, antes de palavra “macho”, o acento grave é proibido. Costumo dizer que colocar acento grave antes de palavra masculina é homossexualizar a palavra, opção que, apesar de comum e já bem aceita entre homens e mulheres, não existe entre as palavras. Também não deixe de notar que o inglês do anúncio até pode estar a jato, mas o português, infelizmente, está bem teco-teco.

João Bolognesi é professor de Português para Concursos no Complexo Educacional Damásio de Jesus

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