Os sabores do cardápio gramatical

Crase, sonoramente estranha, mas de extrema importância para a gramática. Consiste em uma combinação de duas vogais da mesma natureza.

Redação
Publicado em 14/11/2013, às 15h34

Eduardo Sabbag

Muito se diz sobre o prato predileto do brasileiro: arroz, feijão e bife. Na combinação, entra algum ingrediente aqui – a salada ou as fritas, por exemplo–, varia outro item acolá – o feijão preto ou marrom, talvez. Mas, no geral, o brasileiro prefere a simplicidade dessa tríade alimentar e a considera infalivelmente clássica.

Entre as opções de bife, que transitam apetitosamente pelos cardápios dos restaurantes e lanchonetes, destaca-se uma que, conquanto sonoramente estranha,suscita importante questão gramatical: a crase (ou a ausência dela) na expressão “bife a cavalo”. Passemos à análise:

De início, urge relembrarmos o que vem a ser esse importante fenômeno gramatical conhecido por “crase” – um nome que se dá para a fusão de duas vogais da mesma natureza (“a” + “a”). Trata-se da soma de uma preposição “a” com um artigo definido feminino “a”. Tal adição resultará no chamado “a” acentual ou, como preferem alguns, no “a” com o acento grave indicador da crase, cuja representação é bastante conhecida: [ à = a (prep.) + a (artigo) ].

Relembrando alguns casos:

Eu cheguei à escola.

Explicando:Eu cheguei [ a¹ + a² = à ] escola.

a¹ = preposição própria do verbo “chegar”(quem chega, chega “a”);

a²= artigo definido feminino singular, próprio do substantivo feminino “escola”. 

Homenagem à escola.

Explicando:Homenagem [ a¹ + a² = à ] escola.

a¹= preposição própria do nome “homenagem” (quem faz homenagem, faz homenagem“a”);

a²= artigo definido feminino singular, próprio do substantivo feminino “escola”. 

Entre as regras impostas pelo uso do acento grave da crase, vem a calhar a que ocorre quando se subentendem as expressões “à moda de” ou “à maneira de”. Tais construções mostram a ocorrência da crase pela fusão elíptica que se estabelece com o termo “feito” ou “realizado”, que avocam a presença da preposição “a”.Observe:

-Algo feito [ a + a ] moda de = Algo feito [ à ] moda de = à moda de (com crase);

-Algo feito [ a + a ] maneira de =Algo feito [ à ] maneira de = à maneira de (com crase); 

Da mesma forma: 

-Algo realizado [ a + a ] moda de =Algo realizado [ à ] moda de = à moda de (com crase);

-Algo realizado [ a + a ] maneira de= Algo realizado [ à ] maneira de = à maneira de (com crase); 

Observe que a crase só encontrou lugar nas expressões “à moda de” e “à maneira de”porque “moda” e “maneira” são substantivos femininos, que avocam a presença do artigo definido feminino.

Portanto,se escrevemos, por exemplo, que “o drible foi realizado à maneira/moda de Garrincha”, podemos afirmar, sucintamente, que “o drible foi à maneira/moda de Garrincha”, ou, ainda, em resumo, que “o drible foi à Garrincha” (com crase).Da mesma forma, outros exemplos podem ser indicados: 

Gol realizado à maneira/moda de Pelé. Ou:

Gol à maneira/moda de Pelé. Ou, ainda:

Gol à Pelé.

Estilo realizado à maneira/moda de Machado de Assis. Ou:

Estilo à maneira/moda de Machado de Assis. Ou, ainda:

Estilo à Machado de Assis.

A exemplificação ofertada nos autoriza a enfrentar o dilema do nosso “bife”. É plenamente aceitável que escrevamos, com o acento grave da crase, “bife à milanesa”, pois se quer afirmar que o corte foi feito à moda ou à maneira de Milão. De igual modo, recomenda-se a crase nas expressões:

-“Bife à portuguesa” (à moda/maneira de Portugal);

-“Bife à Camões” (à moda/maneira de Camões);

-“Bife à parmegiana (à moda/maneira parmegiana);

Sob o enfoque gastronômico, como o bife estará sempre bem acompanhado ao lado do inseparável “arroz”, a propósito, devemos aproveitar o ensejo e aplicar a este a mesma regra: escreva “arroz à grega”, uma vez que tal arroz foi feito à moda ou à maneira grega.

Entretanto,se o desejo é pedir mesmo o tal “bife a cavalo”, recomendamos que o faça sem a presença do acento grave indicador da crase. A motivação é simples. Aqui não cabe a regra acima exposta. Ninguém irá comer um filé “à moda (de) cavalo”, até porque não seria compreensível tal maneira de ingestão.

Curiosamente,a expressão parece indicar que “algo vem em cima de”, à semelhança do ato de“montar” o cavalo, em que o cavaleiro se coloca sobre o animal. Para quem conhece os detalhes culinários do prato, irá notar que o “bife a cavalo” é um bife com um “ovo a cavalo”, ou seja, com um ovo que vem sobre o bife. Assim como podemos escrever, sempre sem o acento grave da crase, “homem a cavalo”(alguém montado sobre o animal), é crível falar “ovo (ou bife) a cavalo”. O detalhe é que a expressão “bife a cavalo” parece equivocadamente indicar que o bife é que está em cima de algo, mas, na verdade, é o ovo que “o monta”.

Feita a análise estética do apetitoso prato, nota-se que a crase não será adequada,pois a palavra “cavalo” – diferentemente de “moda” ou “maneira” – é masculina,rechaçando a presença do artigo definido feminino. Sem contar o fato de que a expressão “feito à moda (de) cavalo” é incompreensível. Daí não se poder falarem crase na expressão. Portanto, prefira “bife a cavalo”, sem crase.

Por outro lado, como a carne bovina nem sempre agrada a todos, é comum o restaurante oferecer mais de uma opção, o frango, por exemplo. Quem sabe um“frango a passarinho”... Nesse caso, é importante perquirirmos se a expressão está correta, sem crase, ou se o acento grave dela indicador será indispensável. Como se diz na linguagem popular, é chegada a hora de “dar nome aos bois”, ou melhor, “ao frango”. Vamos analisar:

O referido aperitivo, sempre presente nas rodas de amigos, nos bares e lanchonetes, é uma comida trivial, mas de notável predileção do brasileiro.Pense no frango, cortado em pedaços pequenos e frito em óleo bem quente. Este é o “frango à passarinho!” – e com um detalhe importante: um tira-gosto que se come apetitosamente com as mãos.

Partindo da receita em epígrafe, é possível notar que o frango, quando preparado à maneira de um passarinho, ou seja, cortado em pedaços pequenos, deverá ser assim grafado: “frango à passarinho”, com crase.

Nessa medida, vale a pena recapitularmos as curiosidades desse curioso “cardápio gramatical”:

Com crase

Sem crase

Bife à milanesa;

Bife à portuguesa;

Bife à Camões;

Bife à parmegiana;

Arroz à grega

Frango à passarinho

Bife a cavalo

Posto isso, diante dos diferentes sabores desse cardápio gramatical, há que se fazerem as devidas escolhas para o bom uso da crase. Como dizia Confúcio, “todos comem e bebem; são poucos os que sabem distinguir os sabores”.

Eduardo Sabbag é doutorando em direito tributário na PUC/SP; mestre em direito público e evolução social pela Unesa/RJ; professor de direito tributário e de língua portuguesa na Rede de Ensino LFG; e coordenador e professor do curso de pós-graduação em direito tributário também na LFG.

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