Meia nota, meio concurso

Nunca estude para tirar a nota mínima. Estude para tirar a nota máxima. Não estude para tirar cinco, mas dez.

Redação
Publicado em 14/03/2014, às 11h09

William Douglas

Recentemente,em uma loja, um vendedor me pediu uma nota de R$ 1,00 para facilitar o troco. Abri minha carteira e me deparei apenas com uma nota de R$ 2,00, surrada, que se partiu ao meio quando tentei retirá-la. Não quis perder a piada e entreguei a ele ametade que estava em minhas mãos.

Após um segundo de espanto, o caixa riu encabulado e respondeu: “– É... acho que essa não resolve.”

Insisti:“– Ué, meia nota de R$ 2,00 vale R$ 1,00, não?”.

Sabia que eu estava errado, claro, mas quis ver a reação do rapaz. No entanto, o que pode ser apenas uma piada, na vida real pode ser uma tragédia.

O que é meia cédula de R$ 2,00? Ou melhor, quanto vale meia cédula? Nada! Até mesmo para trocar a cédula danificada por outra é preciso que se apresente ao Banco Central a maior parte da mesma.

Pois este é exatamente o foco da mensagem que gostaria de passar para vocês. Como já mencionei em outra ocasião, “não se pula um abismo com dois pulinhos”. É preciso“pular de cabeça”, entrar na piscina, estar na chuva e se molhar. Algumas coisas, como as cédulas, têm de ser completas para que tenham valor. Se elas não estiverem completas, não valerão nem seu valor aparente relativo. Meia cédula de R$ 2,00 não vale R$ 1,00.

Isso se aplica a tudo. Warren Buffett diz que para se contratar alguém é preciso encontrar três características: inteligência, energia e integridade. Mesmo que a pessoa seja muito boa em um dos itens, a falta dos demais a torna uma má escolha. É preciso competência, disposição para trabalhar e honestidade. Um profissional extremamente competente que seja preguiçoso ou desonesto é uma péssima aquisição para a empresa. Um bom marido que ao se embriagar torna-se violento não é o ideal. Um estudante que vive se dividindo entre múltiplos interesses e não se entrega por inteiro ao estudo não irá valer mais do que meia cédula também, infelizmente.

Logo, o singelo incidente me trouxe à memória algo importante: uma preparação sem foco,sem paixão ou sem exercícios não é meia preparação, mas preparação nenhuma. O concurseiro deve estar pronto para fazer sacrifícios, ou seja, eleger um foco e investir nele. Sem isso, teremos meia cédula.

Na vida profissional, seja no trabalho ou nos concursos, é necessário que estejamos completos e que nos doemos por inteiro para que alcancemos nossos objetivos. E como a vida é composta de vários espaços pelos quais transitamos, precisamos aprender a dividir bem o tempo.

Administrar o tempo envolve estar inteiro nos lugares e tarefas, o que aumenta a produtividade e diminui o estresse. Isso inclui desde estudar sem ficar fantasiando com passeios até estar com a família nos momentos de lazer. Um cônjuge feliz é algo bastante “produtivo”, não só para o concurso, mas para a relação. E sem tempo de qualidade, não existe nem estudo, nem cônjuge, nem ninguém feliz.

A conclusão é que devemos dividir o tempo de acordo com nossas escolhas e investir para estarmos realmente presentes a cada uma das atividades, desde o estudo/trabalho até o lazer, ao tempo com a família e aos cuidados com a saúde.Registro, também, que o dispêndio de tempo com a espiritualidade, dentro delimites saudáveis, compensa pelo que traz de força interior, serenidade e equilíbrio.

A vida não é feita só de trabalho e concurso. Uma vida sem família, amigos, atividade física e interação também não é completa. O foco nos concursos é indispensável para a aprovação, mas você precisa ter motivação. E nada melhor para motivar que o amor dos entes queridos, o zelo, o cuidado e, claro, a possibilidade de ao transformar sua vida, transformar a vida daqueles que te cercam. Alguns apenas estudam e com o tempo “surtam”, ficando no meio do caminho.

Quando se fala no esforço necessário, lembremos que na fase de preparação temos que ser objetivos e inteligentes. As atividades extras, por mais necessárias que sejam, podem e devem ser limitadas. Todo exagero é perigoso. Ainda não é a hora de se ter aquele “vidão” maravilhoso. É hora de separar todo o tempo possível para o estudo e treinamento, ter disciplina e momentos de “recarregamento das baterias”. A colheita futura irá premiar esse esforço de organização e planejamento, as duras e longas jornadas de estudo.

Entre as modalidades de “meia nota” nos concursos, destaco a pessoa que não consegue abrir mão do excesso de lazer ou que fica tentando fazer todos os concursos do mundo e por isso estuda tudo pela metade. Também há os que tentam passar estudando apenas metade do programa contido no edital (o que acham que tem mais chances de cair) ou assistindo apenas metade das aulas. Tentar só estudar teoria ou só fazer questões é outra forma de apresentar ao mundo meia cédula de preparação. Como você pode perceber, existem muitas formas de fazer as coisas pela metade. Evite-as!

Outra coisa sobre “notas” pela metade é a seguinte: nunca estude para tirar a nota mínima. Estude para tirar a nota máxima. Não estude para tirar cinco, mas dez. No estudo e nas demais atividades, não seja como aqueles que se entregam o mínimo,fazem tudo de menos, se satisfazem com desempenhos medianos. O sucesso não é para estas pessoas e, agir assim, ou não, é uma questão de escolha. Como já liem algum lugar, “se você não está dando seu máximo, para qual mundo você está se guardando?”.

Entregue-sede coração, dedique-se. Esteja inteiro quando estudar, quando beijar, quando se exercitar. Quando for dormir, não pense nos problemas da vida. Entregue-se ao sono, esteja nele. Pense em como você é abençoado, de onde saiu e onde está. Visualize os lugares para onde quer ir. Seja grato pela cama, pelo teto, pelo momento de descansar. Desligue-se por completo. Se a mente, ansiosa, insistir em pensar nos leões a serem mortos, diga para si mesmo que irá pensar neles quando acordar. Se é seguidor da Bíblia, lembre-se do Salmo 23, de Josué 1 e de Filipenses 4. Isso ajudará você a relaxar.

Desejo, portanto, que você seja completo, que tenha mais do que apenas meias notas,meios sonhos, meios concursos e meia vida. Entregue-se por inteiro para a realização de seus sonhos para que, ao final deste ano, possamos comemorar os progressos que só quem caminha por inteiro pode experimentar.

Um abraço.

William Douglas é juiz federal, titular da 4ª Vara Federal de Niterói – Rio de Janeiro e professor exclusivo em técnicas de motivação e memorização da rede LFG.

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