Uma história que serve de lição para toda a vida

Não existe êxito, não existe sucesso, não existe vitória sem muito sacrifício, sem muito sofrimento e muito choro

Redação
Publicado em 15/03/2012, às 15h51

Wilson Granjeiro

Esta é uma história real. Acredito que ela transmite importantes lições de vida, como a importância do trabalho, da determinação pessoal, do pensamento positivo e da crença em valores familiares, religiosos e morais, que constituem a base para a formação da personalidade. Sobretudo, ela mostra que o sucesso não se conquista com a simples espera de intervenção divina ou com mera ajuda da sorte. Muito pelo contrário, ele depende de muita obstinação e resulta de muito sacrifício e até mesmo de muito choro e muita dor.

O que vou contar neste artigo é a minha experiência pessoal, que espero contribuir, de alguma forma, para o sucesso de quem luta para conquistar seu lugar ao sol, tal como aqueles que estão trilhando a árdua caminhada do concurso público. Eu sou o protagonista dessa história, que vou partilhar com alguém pela primeira vez, passados mais de 30 anos.

Com 12 anos de idade, comecei a trabalhar com meu pai, como servente de pedreiro, ajudando a levantar casas em Ceilândia, na construção do Setor O. Portanto, os fatos aqui narrados ocorreram há exatos 37 anos, quando José Wilson Granjeiro era um adolescente pobre, filho de migrantes do Rio Grande do Norte que deixaram a vida no sertão nordestino para tentar a sorte na capital do país.

A família era grande: pai, mãe e sete irmãos. Qualquer ajuda na renda familiar era muito importante para a nossa sobrevivência. Por isso, lá fui eu ajudar o pedreiro Zuza em sua lida diária com cimento e tijolo. Aos poucos, ajudamos a erguer a cidade satélite onde fomos morar depois de desalojados da favela da Vila Esperança/Núcleo Bandeirante e despejados no mato que mais tarde viria a constituir a promissora Ceilândia. Era um trabalho duro para um garoto, mas eu não reclamava. Minha tarefa era virar a massa de cimento que meu pai usaria para assentar os tijolos, e eu me empenhava não apenas para ajudá-lo, mas para fazer o melhor possível. Sem falsa modéstia, esse é um traço de minha personalidade que tenho desde o berço.

O esforço era grande e exigia muito de mim fisicamente. Afinal, meu corpo de homem nem sequer estava formado!  Na verdade, meu físico foi moldado nessa rotina pesada, que começava bem cedo, antes das sete horas, e durava a manhã inteira. Por volta do meio-dia, eu trocava os trajes simples de pedreiro pelo uniforme da escola e iniciava outra jornada. Essa, sim, me levaria ao encontro dos meus sonhos, que, eu tinha certeza, um dia se tornariam realidade.

O trabalho com meu pai era importante para mim. Eu ganhava alguns trocados, que ajudavam nas despesas da família e ainda compravam material escolar para mim e meus irmãos. Depois da labuta, eu tinha de sair às pressas, ainda todo sujo de massa, passar em casa, tomar um banho e correr de novo para a aula, que começava às duas da tarde, a três quilômetros de distância.

Era tudo muito corrido, e acho que é por isso que hoje tenho esse dom de correr longas distâncias, como a maratona, que tem 42.195 metros. A vida, como vocês devem ter percebido, era difícil, mas eu jamais desanimei. Ao contrário, quanto mais dificuldades eu enfrentava, mais me empenhava para vencê-las. Com 14 anos de idade consegui meu primeiro emprego com carteira assinada, com a ajuda de um primo, como auxiliar de escritório de uma empresa no setor de oficinas de Taguatinga.  Passei a estudar de noite, no Centro Educacional 2, que ficava muito longe da minha casa.  Saía tarde da escola e precisava caminhar quilômetros para voltar para casa, entre dez e meia e onze horas da noite.
Em pouco tempo, ainda menor de idade, eu já era chefe do escritório. Mas seguia a mesma rotina de trabalho e estudo, sempre correndo de um lugar para outro, numa permanente luta contra o relógio. Só quem passa por esse sacrifico pode avaliar o quanto é dura essa vida de trabalho e estudo em plena adolescência.

A situação me obrigava a levar marmita para o trabalho, pois não tinha tempo de voltar em casa para almoçar. Eu saía cedo e precisava pegar ônibus para o escritório, já naquela época sempre muito cheio, tal como acontece hoje nos horários em que todos estão indo trabalhar ou estudar. 

Meu trabalho era numa oficina de manutenção de caminhões da Mercedes-Benz. Eu fazia folha de pagamento, controle de pessoal, pagamento de faturas, registro de pessoas, emissão de nota fiscal, e por aí afora. Na hora do almoço, meu apetite, logicamente, era de leão, pois eu já era um homenzinho bem formado nessa época, graças ao trabalho como auxiliar de pedreiro do meu pai. A marmita, preparada por minha mãe, era um verdadeiro presente para o meu estômago naquela hora.

Numa dessas manhãs de ônibus lotado, minha marmita só tinha arroz e ovo. O motorista era o Zezão, conhecido por todos que viajavam naquele horário. A viagem estava normal, até o momento em que o Zezão, para não bater no veículo que ia à frente, deu uma freada brusca e a marmita caiu no chão e esparramou arroz e ovo por todo lado. Foi um espanto geral dentro do ônibus. As moças e os rapazes que iam para o colégio ficaram olhando para mim, incrédulos. E eu fiquei vermelhinho, morto de vergonha, sem saber o que fazer para amenizar aquele vexame.

Tive vontade de chorar, confesso, mas não chorei. Não ali, no ônibus, diante daquelas pessoas que estavam com pena de mim. Chorei depois, sozinho, pensando por que aquilo tinha de acontecer comigo. Eu lutava tanto para vencer na vida, trabalhando, estudando, ajudando minha família a sobreviver, passando por tanta dificuldade que eu não tinha nada para comer senão arroz e ovo naquele dia fatídico. Mas, como quase tudo que nos acontece de ruim pode ter um lado positivo, em seguida veio a lição. Aquelas moças do ônibus ficaram minhas amigas e começaram a trazer roupas e tênis pra mim, pois deduziram que eu precisava de ajuda, conforme minha marmita havia mostrado.

Depois desse episódio, fiz comigo mesmo um compromisso: nunca, jamais deixaria meus filhos passarem fome nem qualquer tipo de necessidade. Dediquei-me a trabalhar e a estudar como um doido, mais ainda do que já fazia, para que, no futuro, pudesse cumprir essa promessa, nascida de um momento de profunda vergonha, de desespero, mesmo.

Num dado momento, comecei a achar que estava pecando, pois meus pensamentos eram voltados apenas para ganhar dinheiro, para “ter as coisas”, como se costuma dizer, para conquistar todos os bens que pudesse. Resolvi, então, me confessar com o padre Antônio, um holandês que tinha voz de tenor italiano e era muito sábio – e que mais tarde celebrou meu casamento, numa cerimônia belíssima, toda cantada por ele. 

O padre Antônio me tranquilizou. Disse que eu não estava cometendo nenhum pecado, desde que conquistasse tudo honestamente, com meu próprio esforço, sem humilhar ninguém. “Conquiste o seu espaço, o que é seu”, ele me dizia. Com carta branca para buscar os meus sonhos, me senti aliviado. Cumpri a penitência que ele mandou e segui estudando e trabalhando.

O resto da história é consequência de tudo o que vivi nesses períodos de privação e de esforço para melhorar as coisas. Mais tarde, fui servir o Exército. Me alistei no famoso BGP, o Batalhão da Guarda Presidencial, onde fiquei por dois anos. Persisti nos estudos, pois lá havia um curso supletivo para os soldados, e eu não podia desperdiçar a oportunidade. Quando saí de lá, não quis voltar ao escritório da oficina na Ceilândia, embora a vaga estivesse esperando por mim. Foi quando fiz concurso para o Banco do Brasil e não passei. Naquele fatídico dia, tive o famoso “branco” e fui reprovado. Hoje reconheço que me sentia na obrigação de ser aprovado, porque esse concurso envolvia os conhecimentos que eu mais dominava.

Mais uma vez, consegui dar a volta por cima. Logo fui aprovado num concurso para uma instituição financeira privada. Eram apenas cinco vagas, e eu conquistei uma delas, embora fosse o único candidato com apenas o ensino médio, graças àquele supletivo do BGP. Depois, vieram novos concursos públicos. Passei em todos os oito que fiz e comecei minha carreira de servidor, trabalhando na Fundação de Serviço Social do GDF como agente administrativo. 

Eu havia sido aprovado num concurso federal, organizado pelo extinto DASP, mas optei pelo GDF, que oferecia mais vantagens. Fui trabalhar num almoxarifado, onde pude mostrar meu senso de organização – o lugar estava uma bagunça. Em pouco tempo, eu já era o chefe, comandando quase 100 funcionários, muitos deles motoristas já idosos, mas que respeitavam minha liderança e capacidade de trabalho.

Ao longo do tempo, fui passando em outros concursos, como o do Hospital Sarah Kubitschek, onde fui chefe de Divisão, chefe de Departamento e diretor. Segui carreira por 17 anos, sempre galgando postos de direção no serviço público, até que entrei num PDV (Plano de Demissão Voluntária) do governo federal e, depois, pedi exoneração como professor do GDF. No período em que fiquei no serviço público, tirei o máximo proveito do que aprendi. Sempre achei que precisava experimentar de tudo um pouco na vida profissional. Com isso em mente, trabalhei em setores diversos, como de pessoal, de orçamento, de finanças, de material, de licitações, de contratos e jurídico.

Eu não pedia para isso acontecer, mas o fato é que iam me colocando nos cargos como se estivessem me treinando para que eu pudesse exercer cargos de direção. Hoje, percebo claramente como o fato de ter passado por tantos setores me ajuda muito a dar minhas palestras e aulas e a escrever meus livros. Domino tanto a teoria como a prática para transmitir aos alunos nos meus trabalhos.

A história termina aqui. Com ela, quero demonstrar aos concurseiros que me acompanham que não existe êxito, não existe sucesso, não existe vitória sem muito sacrifício, sem muito sofrimento e muito choro, como disse antes. Às vezes é necessário até mesmo passar por humilhações, como aconteceu comigo. Prova disso está no livro de Eike Batista – “O X da questão” –, cuja leitura recomendo a todos que me acompanham. 

Hoje, o empresário é o homem mais rico do Brasil e daqui a pouco será o mais rico do mundo, mas diz que ninguém sabe dos anos em que morou na Amazônia, sob todos os riscos, para chegar aonde chegou. Ele não nasceu bilionário, nem ficou bilionário de um dia para o outro. Foram décadas de muito trabalho e estudo, aplicando os ensinamentos adquiridos e desenvolvendo sua capacidade de negócios, sempre com visão estratégica, visão que ele chama de 360 graus, do todo, que observa todos os detalhes.

É isso que quero passar para as novas gerações de candidatos a concurso público. Não pensem que vão ser aprovados sem estudar, ou só assistindo a aulas, ou apenas quando sai o edital. Não funciona assim. Trata-se de um processo de amadurecimento, de ganho de força e substância, comparável ao que ocorre com o bambu chinês: lança-se a semente e nada acontece durante anos. De repente, em questão de dias, surge um arbusto, que cresce dezenas de metros e fica tão forte que verga, mas não quebra com o vendaval. Por quê? Porque tem toda uma base para sustentá-lo.

Essa mesma base vocês têm de construir, e de forma consciente. Se não cresceram o suficiente, é porque ainda não têm essa base. Insistam. Insistam, que em pouco tempo se tornarão gigantes e ninguém conseguirá mais tirar isso de vocês. Será, então, o momento de caminhar em direção ao seu FELIZ CARGO NOVO!

J. W. Granjeiro é Diretor-Presidente do Gran Cursos; coordenador do Movimento pela Moralização dos Concursos - MMC. www.professorgranjeiro.com. Twitter: @jwgranjeiro.

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