Por que “viajamos na maionese”?

Você certamente já experimentou a sensação de estar lendo uma coisa e quando chega ao final do texto não tem ideia do que leu. Em uma linguagem científica pós-moderna chamamos isso de “viajar na maionese”

Daniel Sena
Publicado em 21/08/2015, às 09h58

Você certamente já experimentou a sensação de estar lendo uma coisa e quando chega ao final do texto não tem ideia do que leu. Em uma linguagem científica pós-moderna chamamos isso de “viajar na maionese” ou, como os antigos estudiosos chamavam, perda do foco ou perda da atenção.
Todos nós já vivenciamos essa experiência em algum lugar, ou durante alguma leitura. E se você estuda para concurso, acredito que essa sensação tenha se intensificado principalmente ao estudar uma coisa que não gosta. É o que ocorre, por exemplo, com um engenheiro que nunca estudou direito e resolve se preparar para o concurso de auditor da Receita Federal do Brasil. Quando ele começa a ler a legislação tributária, pensa um tudo, menos nas alíquotas do imposto de importação. Em algumas pessoas, a perda do foco é tão forte que dá vontade de fazer qualquer coisa, até de lavar louça ou passar roupa. Mas por que viajamos na maionese quando precisamos nos concentrar em algo? 
A perda da atenção geralmente é provocada por um diálogo interior. Você começa a ler o texto e de repente sua cabeça começa a lembrar das contas que tem que pagar. Você continua lendo e pensa que não deveria ter falado daquele jeito com sua namorada ou seu namorado. Aí você continua lendo e sente vontade de responder aquela mensagem importante do WhatsApp enviada pelo grupo da faculdade. Quando você chega ao final do parágrafo, olha para ele, ele olha para você e uma pergunta surge em sua cabeça: o que eu li mesmo? Do que esse texto está falando?
A maioria das pessoas continuaria o texto sem se importar com o que não entendeu e é exatamente por isso que a compreensão fica completamente afetada, não gerando o aprendizado necessário. Daniel Goleman, psicólogo norte-americano e autor de vários livros, dentre eles Inteligência Emocional e Foco, diz que “o cérebro é um músculo”, portanto, ele precisa ser exercitado até se habituar àquele movimento. Prestar atenção requer prática, requer exercício. No início, da mesma forma que ocorre com os músculos do seu corpo físico quando você começa a academia, será doloroso, difícil, cansativo. Você terá vontade de desistir, pensará que não nasceu para isso, mas a única atitude que você precisa ter é de insistência. Manter o foco é questão de prática. Manter a sua atenção no que está lendo requer dedicação e muito treino.
O problema é que, nos dias de hoje, manter-se focado em apenas uma coisa tornou-se tarefa de super-herói. Veja a quantidade de informações com que somos bombardeados diariamente. Se você entrar em uma página da internet, receberá uma enorme carga de informações, o que tem habituado o nosso cérebro a não prestar atenção em uma coisa só. Além disso, tem aquelas informações produzidas dentro de nós mesmos, por aquele diálogo interno que nunca acaba, principalmente aqueles gerados por nossas emoções. Não existe nada mais barulhento que nossas emoções. Na maior parte das vezes, viajamos na maionese pensando em coisas que não foram boas, em emoções negativas. Quanto maior for o impacto emocional de determinada situação, mas difícil será manter-se focado em uma leitura.
Mas a questão, agora, é saber como fazer para manter-se focado enquanto estudamos. Com base nos ensinamentos de Goleman, eu quero propor algumas sugestões para silenciar essa voz interior. 
Primeiramente você precisa fortalecer sua atenção prestando atenção. Lembre-se que a atenção é um músculo, então não desista quando perceber que não está focado em uma leitura. Assim que perceber que viajou na maionese, pare imediatamente de ler e retorne ao início. Geralmente, depois de umas três tentativas o seu cérebro entenderá que o que você realmente quer é ler a apostila de constitucional, e não pensar em outra coisa. Esse exercício, com o tempo, fará com que seu cérebro se acostume com o foco e fará você se concentrar mais rápido quando precisar estudar.
Mas é possível que o seu cérebro esteja tão viciado em não prestar atenção que ele insista em te levar para todo lugar, menos para o lugar em que deseja estar. Aí eu tenho outras sugestões! 
Se você tentar se concentrar umas três vezes e não conseguir, isso pode significar que o seu cérebro está cansado, pois você gastou toda a energia dele curtindo posts no Facebook ou em outro lugar. Então talvez a melhor coisa a fazer seja descansar. Pare de tentar ler e faça algo que te dê prazer. Assista a um filme, faça qualquer coisa que te mantenha totalmente presente. Temos a tendência de manter o foco em coisas que nos dão prazer. Então, pare a leitura. Você silenciará as vozes interiores e poderá voltar ao estudo totalmente concentrado.
Outra sugestão é caminhar em um parque ou dar uma corrida. Geralmente, nesses lugares, temos a possibilidade de deixar nossa mente livre para pensar no que quiser. Quando corro é onde meu cérebro mais viaja. Eu deixo ele livre para pensar em tudo o que quiser. Ele não para de pensar nem por um segundo. Dando essa oportunidade para ele, eu posso voltar para casa, sentar e escrever, ler ou estudar o quanto quiser que me manterei focado por muito tempo.
Se você conseguiu ficar concentrado nessa leitura até aqui, significa que já está começando a praticar os ensinamentos desse texto, agora é só levá-los para os outros que você precisará ler. Espero que, a partir de agora, você consiga colocar ordem nessa gritaria do seu cérebro e isso te leve ao sucesso em tudo o que fizer! E vamos que vamos...
Daniel Sena, professor de direito constitucional e especialista em concursos públicos. Facebook: /ProfDanielSena. Twitter: @ProfDanielSena. YouTube: ProfDanielSena.

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