Oito e oitenta

Coluna baseada nos filmes: Cisne Negro, O Discurso do Rei e Uma Mente Brilhante.

Redação
Publicado em 18/03/2011, às 15h37

“Seu maior obstáculo é você mesma”. A frase proferida pelo diretor da companhia de balé de Nova Iorque, cuja preparação para a abertura da temporada acompanhamos em “Cisne negro”, bem poderia ser atribuída a um professor de cursinho preparatório ou a um amigo espirituoso e solícito que se preste a sessões de motivação em uma mesa de bar.  O obstáculo que Nina Sayers, a bailarina escolhida para interpretar o papel de maior destaque no número musical Lago dos Cisnes (do compositor russo Tchaikovsky) tem que enfrentar é de ordem emocional, mas com reflexo direto no exercício prático de sua função. Nina é tímida, recatada e extremamente retraída.

Disciplinada, executa seus passos com perfeição invejável. Para o papel do cisne branco (princesa Odette) ela é não menos do que ideal, mas não convence como o cisne negro (Odile). O público acompanha a jornada de flagelo psicológico da personagem em busca desse “lado negro” em si mesma.

Se podemos aferir alguma moral ao filme de Darren Aronofsky, e transferi-la para o aprendizado diário de nossas vidas, é sobre a força predadora de certas obsessões. É preciso equilíbrio na perseguição de metas. Pode-se argumentar, sem incorrer no prejuízo de revelar mais detalhes do filme, que falta isso a personagem que valeu o Oscar de melhor atriz, há algumas semanas, a Natalie Portman.

Mas como classificar uma obsessão em um espectro tão específico quanto o desempenho profissional? O grande vencedor do Oscar 2011 nos provê material para o debate.

“O discurso do Rei” mostra os esforços do príncipe Albert Frederick Arthur George para superar uma gagueira crônica que o acometia desde a infância e que o coibia de exercer a natureza política de sua condição. Bertie (como era conhecido nos bastidores da família real britânica), com o apoio de sua mulher Elizabeth, submeteu-se aos mais esquisitos e incomuns tratamentos fonoaudiólogos. A bem sucedida terapia ministrada por Lionel Logue, no entanto, se assentava mais na relação de amizade com Bertie do que em qualquer outra coisa. Logue se interessava mais em elevar a autoestima de seu paciente do que em realizar exercícios de eficácia desconhecida. A maior provação, de ordem política e emocional, ainda estava por vir. Bertie se tornaria o Rei George VI em pleno furor da ascensão nazista. Mais do que nunca era preciso ouvir a voz do líder. E ela não poderia ser trêmula e vacilante. O que “O discurso do Rei” salienta, em contraponto ao aventado em “Cisne negro”, é que uma obsessão não precisa ser encarada em viés tão pejorativo como o termo sugere. Bertie, assim como Nina, apresentava uma dificuldade monstruosa, de natureza emocional, que refletia imediatamente em sua atividade profissional. O que em um primeiro olhar os distingue, é a predisposição do segundo em ser auxiliado. Em ouvir o outro; em aceitar a imperfeição e dispor-se a aprender – e mais importante – conviver com ela. 

Ainda na esfera da convivência com a imperfeição está outro filme vencedor do Oscar. “Uma mente brilhante” mostra a incrível jornada de John Forbes Nash Jr., o matemático que revolucionou a economia moderna e que, ainda, convive com uma esquizofrenia aguda. O filme dramatiza grande parte da trajetória profissional e pessoal de Nash, que aos 82 anos mantém a lucidez contra todos os prognósticos.

Em comum, além da presença no Oscar, esses três filmes têm protagonistas imbuídos de determinação perene em alcançar seus objetivos. É interessante observar a forma como eles administram essa determinação e o preço que estão dispostos a pagar pelo sucesso profissional em um nível pessoal.   

Por Reinaldo Matheus Glioche

Serviço:

Cisne negro

Nome original: Black swan

País: Estados Unidos

Ano de produção: 2010

Direção: Darren Aronofsky

Em cartaz nos cinemas

O discurso do Rei

Nome original: The king´s speech

País: Inglaterra

Ano de produção: 2010

Direção: Tom Hooper

Em cartaz nos cinemas

Uma mente brilhante

Nome original: A beautiful mind

País: Estados Unidos

Ano de produção: 2001

Direção: Ron Howard

Disponível em DVD

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