Sem querer, querendo...

O ambiente de trabalho é pródigo em fomentar competição. Há quem diga que é inerente ao sistema capitalista. Não deixa de ser verdade...

Redação
Publicado em 29/04/2011, às 16h43

O ambiente de trabalho é pródigo em fomentar competição. Há quem diga que é inerente ao sistema capitalista. Não deixa de ser verdade. Avizinhada dessa competição está a trapaça. Em um mundo em que os pré-requisitos estão cada vez mais arrojados e agrupados em exigências que exigem currículos dignos de super homens, a trapaça se evidenciou como uma legítima ferramenta no dia a dia de muitas firmas e escritórios. A definição de “trapaça” no dicionário remete a manobra astuciosa empregada para surpreender a boa fé de outrem e causar-lhe prejuízo. Em outras palavras é uma ação dolosa e fraudulenta. O cinema observa muito bem essa, digamos, contingência capitalista.

A comédia francesa “O closet” brinca com as noções do politicamente correto ao flagrar uma trapaça inusitada para manutenção de um emprego. François Pignon (Daniel Auteuil) é aquele tipo de sujeito que o mundo parece considerar chato. Sua ex-mulher e seu filho, por exemplo, querem manter distância dele. Para complicar, Pignon descobre que está prestes a ser demitido.

Desesperado, busca os conselhos de um amigo, que lhe expõe uma artimanha: fazer uma fotomontagem em que revela sua homossexualidade. O detalhe é que Pignon é heterossexual. O amigo, entusiasmado, explica que a demissão passaria a ser arriscada, já que poderia incendiar um debate dentro da sociedade francesa. Relutante, Pignon aceita a proposta que vinga maravilhosamente bem. Além de manter o emprego, ele passa a ser consultado pelos colegas para todo tipo de situação, seja relacionada ao trabalho ou não. Não obstante, ainda desperta o interesse da ex-mulher com quem tentava, sem sucesso, reatar.

“O closet” é uma pontual e divertida crítica a ditadura do politicamente correto vigente nas grandes empresas. É curioso perceber como as soluções para os problemas de Pignon se relacionam com essa trapaça potencialmente problemática, do ponto de vista moral.

Moral é algo intrínseco ao filme mais bem sucedido da carreira de Jim Carrey. Em “O mentiroso”, o ator vive um advogado que não se avexa de adaptar a verdade à sua conveniência e a de seus clientes.

Depois de sucessivas decepções, seu filho faz um pedido de aniversário curioso. Quer que o pai fique um dia inteiro sem mentir. Acontece que esse dia calha de ser justamente o dia decisivo para um importante caso em que o personagem de Carrey está atuando. O caráter de fábula moral não é deixado de lado com as inúmeras caretas do comediante. De certa maneira, elas, aliadas a solução do caso, ressaltam a importância de manter-se moralmente intacto na profissão escolhida. Seja ela qual for.

O filme ajudou a fazer a carreira de Carrey como um dos mais notórios comediantes americanos e brinca com a percepção que o público em geral tem da profissão de advogado.

Outra profissão que é alvo constante de críticas e desconfiança é a de vendedor. Se o vendedor em questão for um corretor, desses que vende imóveis ou seguros, a desconfiança acerca de seus princípios éticos atinge picos. É um clichê capitalista e é um clichê muito bem abordado por um dos filmes mais geniais do começo dos anos 90, “O sucesso a qualquer preço”. Com roteiro do dramaturgo David Mamet (que se tornaria cineasta alguns anos depois), a fita acompanha um grupo de corretores de imóveis que recebem um desafio amedrontador do chefe: aquele que tiver o melhor desempenho receberá um cadillac eldorado; o segundo colocado um faqueiro e todos os outros serão demitidos. Pela nova filosofia de trabalho, não haveria lugar para fracassados.

O filme, sagaz, radiografa como essa referida trapaça se torna um mecanismo pela sobrevivência profissional. A ética esfumaçada pela selvageria capitalista ganha contornos definitivos nesse filme que conta com grande elenco. Capitaneados por um brilhante Al Pacino estão Kevin Spacey, Alec Baldwin, Ed Harris, Jack Lemmon, Alan Arkin e Jonathan Pryce.  

O infortúnio profissional é o grande vilão atual. Para superá-lo, existe um movimento de relativismo moral em órbita e pelo cinema é mais fácil, e seguro, nos darmos conta disso.

Por Reinaldo Matheus Glioche

Serviço:

O closet

Nome original: Le Placard

País: França

Ano de produção: 2001

Direção: Francis Veber

Disponível em DVD

                                           

O mentiroso

Nome original: Liar liar

País: Estados Unidos

Ano de produção: 1996

Direção: Tom Shadyac

Disponível em DVD

O sucesso a qualquer preço

Nome original: Glengarry Glen Ross

País: Estados Unidos

Ano de produção: 1992

Direção: James Foley

Disponível em DVD

 

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