Escrever é preciso

O escritor Nelson de Oliveira, 43, já publicou mais de vinte livros e revelou nas linhas a seguir como ele tem escrito a própria história.

Redação
Publicado em 19/02/2010, às 15h11

Era uma vez uma fada má que não foi convidada para o batizado de uma princesinha, uma tal de Bela Adormecida. Houve também um casal, Romeu e Julieta talvez, que viveu um amor proibido por serem filhos de famílias rivais na Verona do século 16. E também teve aqueles que fizeram uma viagem ao centro da terra e até alguns que conseguiram fazer contato de terceiro grau. Se não fossem os escritores, nossa vida seria menos rica em imaginação, em possibilidades filosóficas e científicas. Mas ser um escritor, hoje e no Brasil principalmente, é uma tarefa que exige muito do espírito de concurseiro, pois cobra determinação, talento e sorte. O escritor Nelson de Oliveira, 43, já publicou mais de vinte livros e revelou nas linhas a seguir como ele tem escrito a própria história.

Nelson nasceu em uma pequena cidade do interior paulista chamada Guaíra, na qual havia apenas um clube e dois cinemas provincianos. Em um tempo, não tão distante e ainda não dominado pelo computador, pela internet e pelo dvd, nas palavras dele, “existia apenas o tédio”. Na infância, nas horas de lazer, depois da TV, os livros eram sua melhor companhia.

No final da faculdade de artes plásticas, ele participou de uma oficina de criação literária e mudou suas perspectivas. “Percebi que escrever contos e romances era o que eu realmente queria fazer na vida”. O primeiro conto publicado por Nelson tinha o título “Encanador” e saiu em um jornal literário carioca, hoje extinto. Ele mal podia acreditar: “Por alguns dias me senti como se fosse amigo pessoal de Clarice Lispector, Jorge Luis Borges e Franz Kafka. Tempos depois saiu outro conto, dessa vez no Suplemento Literário de Minas Gerais. Foi a glória. Ah, eu era um escritor, exatamente como os grandes nomes da literatura mundial”.

Estas pequenas vitórias o animaram a planejar seu livro de estreia. Em 1995 ele recebeu pela coletânea de contos “Fábulas” o Prêmio Casa de Las Américas, oferecido por uma renomada instituição cubana. No ano seguinte, Nelson foi novamente premiado, desta vez pela Fundação Cultural da Bahia. “É claro que eu sempre soube que no Brasil é muito difícil, quase impossível, viver apenas de literatura. Poucos conseguem. Mas os dois prêmios, e outros que vieram depois, me motivaram a pelo menos reservar mais horas diárias para minha própria literatura”, contou.

Ser escritor em alguns momentos lembra a história de Dom Quixote, o cavaleiro andante: sem ter onde empregar-se e cheia de provações. Assim, Nelson, como nossos escritores desde Machado de Assis, tem outras atividades para poder se manter: ele dá aulas em universidade, faz crítica literária e é consultor de uma editora.  “Às vezes parece realmente que ele [o escritor] é desnecessário para o mundo moderno, pois os cadernos de empregos nunca publicam anúncios em busca de um escritor. Mas a grande verdade é que uma sociedade não vive sem seus artistas, sem o encantamento estético”, reflete Nelson.

Como o trabalho artístico e o literário extrapolam os limites mercadológicos, as normas do mercado de trabalho não são fáceis de serem aplicadas às pessoas que os produzem. Um exemplo é o grande desafio a ser enfrentado por todos os escritores: “Conquistar o grande público ou entrar para a história?”. Conciliar ambas as metas é algo que raramente acontece na literatura. Nelson apostou no difícil caminho de tentar escrever obras-primas, que podem vir a serem apreciadas apenas por poucos leitores. Segundo ele, quem opta por obras tidas como sofisticadas, assume o risco de demorar mais tempo para conseguir viver de direitos autorais.

Para um bom final de história, Nelson acredita que a sorte seja um elemento fundamental. “Literatura depende de talento, determinação e sorte, muita sorte. Apenas talento e determinação são insuficientes”, acredita Nelson. Supersticioso? Nelson se defende, alegando que até os matemáticos já sabem que o acaso “determina profundamente nossa vida, nossos projetos”. O sucesso e o fracasso estariam sujeitos à lei da probabilidade diz ele, moral da história: quem não arrisca, não petisca. E quem quiser que conte outra.


Aline Viana

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