Vale a pena trocar o emprego fixo pelos estudos?

Especialistas e concursandos se divergem sobre conciliar trabalho com estudos ou apenas dedicar-se ao aprendizado.

Redação
Publicado em 09/09/2011, às 14h57

Com o crescimento de profissionais qualificados anualmente, a concorrência na disputa de uma vaga de emprego elevou as exigências, dificultando ainda mais as oportunidades no mercado de trabalho. Uma alternativa para tentar fugir desta batalha acirrada e conquistar a tão sonhada tranquilidade financeira e profissional são os concursos públicos. Hoje, é comum as pessoas largararem seus trabalhos para dedicar-se apenas aos estudos. O JC&E conversou com especialistas e concursandos sobre o tema para saber quais os pontos positivos e negativos.

Para o psicólogo Fernando Elias José, especialista em ciências cognitivas e preparação de provas e concursos, esta atitude não deve ser tomada sozinha. “O que observo é que as pessoas que fazem isso, normalmente, já se organizaram um tempo antes, para poderem estudar com tranquilidade. Conversam com a família sobre o apoio financeiro e emocional que será fundamental para um bom estudo”, avalia.

O professor cursinho PRO Labore, Tiago Torres, revela que os benefícios atrativos de ser concursado, muitas vezes, são o grande motivo. “Temos alunos que insatisfeitos com seus salários na iniciativa privada, querem mudar suas vidas investindo num emprego público, principalmente pela estabilidade e remuneração que este oferece, em média, três a quatro vezes maior”, explica.

E neste perfil encontramos a mineira Ana Carolina Abreu Valente, que decidiu fechar sua empresa especializada em assessoria de comunicação para dedicar-se aos estudos e conquistar uma vaga de analista em tribunais. “Acredito que tomei a decisão acertada por ter confiança que a longo prazo terei mais segurança financeira e profissional”, conta. Ela sabe que essa é uma missão complicada e antes de abrir mão de seus negócios tomou alguns cuidados. “Guardei dinheiro suficiente para manter gastos pessoais e de estudos, mas tive a retaguarda da minha família para as demais despesas com a casa e minhas filhas”, afirma Ana Carolina, profissional de relações públicas, que diz estudar cerca de oito horas por dia quando algum edital que julga interessante é lançado.

Ana já participou de quatro concursos e mostra um resultado satisfatório. “Fui aprovada no Tribunal Regional do Trabalho, mas mal classificada, o que exclui a possibilidade de ser chamada. Recentemente, passei no último concurso do Tribunal Regional Federal, para analista administrativo em sexto lugar. Acredito que tenho boas chances de nomeação. Mas, ainda assim, continuo os estudos”, conta.

“Tenho pouco tempo para hobbies, já que tenho que cuidar da casa e atender à demanda das meninas. Mas nunca abri mão de ter lazer, frequento festas, casas dos amigos, etc. No entanto, escolho as atividades para não prejudicar os estudos”, conta Ana Carolina sobre a prioridade dada ao conhecimento.

Em contrapartida, o sul mato-grossense e bacharel em direito, Ricardo Gomes Silveira, diz conciliar o trabalho e os estudos, mas reconhece que às vezes pode atrapalhar. “Trabalho em um escritório durante o dia e estudo em torno de três horas diárias à noite. Porém, é claro que nem sempre dá certo. Estudar exige concentração e, assim como em qualquer profissão, estou sujeito ao estresse no trabalho. Quando isso acontece fico muito disperso e simplesmente não consigo ler nada”, explica Silveira, que almeja uma vaga de analista judiciário no Tribunal Regional do Trabalho.

O jovem de 27 anos nunca foi aprovado em concurso público, no entanto, não acredita que o motivo seja tentar conciliar as duas atividades. “Tirando os imprevistos do dia a dia, estudo normalmente. Acho muito perigoso largar tudo e ficar só nos estudos. Mesmo guardando dinheiro, imagina como fica uma pessoa quando reprovada em um concurso que praticamente dedicou-se em tempo integral? Ficar fora do mercado de trabalho é muito arriscado e, caso não dê certo, será mais difícil procurar emprego depois, já que a preferência das empresas é por profissionais atuantes e atualizados”, comenta Silveira.

Ricardo mantém seu comprometimento com o aprendizado, mas não abre mão de uma confraternização com os amigos e, segundo o jovem, o concurseiro não deve abdicar-se de tudo. “Pode variar de pessoa para pessoa, contudo, não troco meus amigos por livros e muito menos trabalho. Colocar os estudos acima de tudo é complicado, aumenta a pressão de passar no concurso e, com certeza, a frustração caso não consiga. Acho extremamente negativo viver em função de concursos público”, completa.

Segundo Fernando José, o comprometimento e dedicação do candidato são importantes, porém, o psicólogo faz um alerta. “Sempre o excesso será prejudicial, pois cabe lembrar que o estudante está trabalhando com sua memória, dessa maneira ela também tem um limite para absorver. Respeite seu tempo. Cabe lembrar que nem sempre o estudante estará com gás total, então um dia da caça e outro do caçador. O concurso faz parte da vida, mas não é a vida do estudante”, explica.

Já Tiago Torres vê o lado positivo e orienta os concurseiros que se preparam exclusivamente. “Por possuírem mais tempo para os estudos, conseguem absorver maior quantidade de conteúdo em menos dias. Além disto, normalmente quando estudam, estão com a mente livre e descansada para aprender. Este é o diferencial e devem usufruir disto, mas se insistir em mais horas além daquilo que a concentração permite pode ser uma perda de tempo, já que a absorção do conteúdo fica comprometida”, esclarece o professor.

Independente do tempo disponível dos concursandos e as atividades exercidas, para ambos especialistas, é imprescindível que cada candidato saiba o quanto pode dedicar-se à preparação. “Acredito que vai depender muito de cada pessoa, pois já orientei concursandos que estavam muito ansiosos pelo fato de não estarem trabalhando, então uma das alternativas foi a de procurar um trabalho onde conseguisse conciliar com o estudo”, conta Fernando José.

Tiago Torres explica que independente de conciliar o trabalho com os estudos ou não, a força de vontade do candidato irá prevalecer. “Obviamente que aquele que não trabalha terá mais chances de passar num prazo menor. Isto não significa dizer que aquele que trabalha irá demorar a passar em concursos públicos. Isto depende também de outros fatores como dedicação, disciplina, determinação e até a escolha do concurso que irá prestar”, finaliza.

Douglas Terenciano

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