Concursos públicos: cultura que vem de casa

É cada vez mais frequente a influência de familiares na opção pelo serviço público. Tendência está em franca ascensão

Redação
Publicado em 11/10/2012, às 11h09

Em uma adaptação livre de Shakespeare, todo pretenso concurseiro se depara com a questão: “Prestar ou não prestar, eis a questão?”. No entanto, para uma parcela desse grupo o dilema shakespeariano é mais profundo. “Muitas famílias orientam seus filhos a fazerem concurso público”, adverte Marcelo Marques, diretor do Concurso Virtual. Para ele, diversos fatores contribuem para a cada vez mais flagrante, em muitas famílias brasileiras, cultura de se prestar concursos. 
Marques acredita que o constante cenário de crises econômicas e seus desdobramentos no mercado de trabalho têm levado jovens a optarem pelos concursos públicos como primeira opção de carreira. Em convergência com esse cenário, ele indica a influência já bastante reconhecida que os pais exercem sobre as escolhas profissionais dos filhos.  Isaura se encaixa nesse perfil. Aos 16 anos, ela cursa o ensino médio e se prepara intensamente para prestar o próximo concurso do BNDES. Ela admite que a ideia, porém, não surgiu naturalmente. “Quando eu tinha 14 anos, minha mãe encontrou uma maneira de me ajudar a incrementar meus estudos em relação às matérias de português e matemática e, como ela trabalha com concursos, me colocou para assistir às aulas dessas matérias. E lá estava eu estudando com um monte de gente que tinha um objetivo diferente do meu. Acho que aquilo foi abrindo minha visão e eu vi que poderia, só com o nível médio, ter minha independência financeira”, contextualiza Isaura. A mãe da adolescente, a assessora de imprensa especializada em concursos públicos Cláudia Jones, então, passou a estimular essa convicção da filha. “Minha mãe trabalha muito bem essa questão da ansiedade na minha cabeça. Quero poder absorver tudo que minha mãe sabe e passa para mim”. 
Maturidade e oportunidade - Isaura se recusa a enxergar o “para sempre” funcionária pública. “Para sempre é muito forte. Tenho sonhos. Um deles, por exemplo, é ser escritora. Mas preciso de dinheiro para bancar meus sonhos e é no serviço público que encontrarei subsídios financeiros para poder bancar meus gastos”. A professora da Academia do Concurso, Karina Jaques, provê contexto para a afirmação da adolescente: “A carreira pública vem ganhando cada vez mais prestígio na sociedade; e essa valorização é verificada no aumento do público que se prepara para concurso, não como a última alternativa, mas como primeiro projeto profissional”. Na avaliação da docente, hoje os jovens estão mais propensos a buscarem estabilidade financeira para garantir formação universitária e, nessa conjuntura, a carreira pública é muito vantajosa. 
É mais ou menos o que ocorre com Christiane Blume e Rodrigo Mattos Cardoso, ambos de 31 anos.  Eles se conheceram na faculdade de psicologia - ele só fez para ter uma graduação e ela pensava em seguir carreira -, mas logo enveredaram pela busca por um lugar ao sol no serviço público. Juntos já prestaram mais de meia dúzia de concursos - pelas contas dela - e se apoiam nos momentos de crise e hesitação. “Um é a influência do outro”, sacramenta Rodrigo.
Já a carioca Camila Mutz há muito tempo sonha em seguir os passos da mãe, servidora pública aposentada. “Eu estava perdida, não sabia que curso superior escolher, mas minha mãe me orientou a fazer algum para poder prestar concurso”, recorda Camila, que admite que os benefícios do funcionalismo público ajudaram em sua opção. Ela já perdeu as contas de quantos concursos prestou, mas segue firme em seu objetivo: a área de auditoria fiscal. 
Os bispos de sempre - Por trás do diagnóstico dessa cultura familiar de se prestar concursos públicos, estão o judiciário e todo o seu corpo administrativo. De acordo com os especialistas ouvidos pelo JC&E, essa é uma tendência que está migrando para outros setores do funcionalismo público. “Na área jurídica, muitos servidores públicos de tribunais, mas com outras formações, buscam formação jurídica para progredir na própria instituição como magistrados, no caso do judiciário, ou promotores, no caso do Ministério Público”, avalia Karina Jaques. Para ela, “a carreira jurídica proporciona um leque amplo de possibilidades profissionais em cargos públicos e quando há pessoas na família (que ocupem cargos do alto escalão do judiciário ou Ministério Público), o incentivo é ainda maior”. 
Evitando frustrações - Isaura tem convicção de que, a despeito das circunstâncias que a levaram a optar pelo status de concurseira, fez a melhor escolha. “Já saio na frente porque estou começando a preparação cedo e quando a gente quer muito uma coisa, a gente consegue. Eu quero fazer desse meu objetivo, um projeto de vida”. Shakespeare não teria chance com ela. 
Reinaldo Matheus Glioche

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