Qualidade de vida no setor público

O JC&E conversou com o professor José Arimatés de Oliveira, que esclareceu alguns pontos sobre como encontrar a vaga ideal

Leandro Cesaroni
Publicado em 28/10/2013, às 15h06

Por que os concursos públicos andam cada vez mais concorridos? Essa é uma pergunta que pode render diversas respostas. Alguns dirão que buscam estabilidade, outros que miram salários mais altos, benefícios, jornadas de trabalho mais dignas. Enfim, esses são apenas alguns dos atrativos da carreira pública. Mas será que os ingredientes essenciais para se ter qualidade de vida no trabalho estão somente nas vagas ofertadas? Ou há algo que o profissional possa fazer para tornar ainda mais agradável sua vida profissional?
Recentemente foi realizado em São Paulo o XVIII Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida e, em paralelo, aconteceu o III Simpósio sobre Qualidade de Vida na Área Pública, que trouxe à tona justamente as questões levantadas acima.
O JC&E conversou com o coordenador do simpósio, José Arimatés de Oliveira, doutor em administração e professor universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Confira:
Jornal dos Concursos & Empregos - Primeiro, gostaria de saber o que foi discutido especificamente na palestra que o sr. concedeu, no Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida.
José Arimatés de Oliveira - Coordenei o III Simpósio de Qualidade de Vida no Setor Público, dentro do XIII Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida da ABQV. No referido evento, alinhado com os objetivos do Congresso como um todo, foram discutidos especificamente temas como: a necessidade de inovação nas ações para melhorar a qualidade de vida dos servidores públicos, a relação entre a carreira profissional e os desafios do serviço público, a importância dos programas de qualidade de vida para a melhoria da qualidade de vida dos servidores e ainda foram apresentados casos de sucesso na implantação desses programas. Concluímos, por exemplo, que o importante não é a implantação de programas de qualidade de vida nas instituições, mas a formulação de políticas de Estado para a qualidade de vida.
JC&E -Na opinião do sr., a carreira pública é mesmo mais atrativa que a privada? Por que?JAO - A resposta a esta questão requer um pouco mais de reflexão além de um simples “sim’ ou “não”.  É certo que no serviço público há especificidades e atrativos, como a esperança de melhores salários, mais segurança no emprego, menos sofrimento no trabalho. Mas não se pode negar que a carreira na iniciativa privada também pode ser atrativa, pela possibilidade de incentivo ao desenvolvimento profissional, aproveitamento das competências técnicas e emocionais, algo que não tem sido efetivamente, ponto forte no serviço público.  Se considerarmos aspectos negativos, em ambas as esferas também há extremos que podem ser considerados importantes na atratividade para alguém que está buscando um lugar para exercer sua profissão. Por exemplo, os jovens profissionais se formam em profissões bastante promissoras e participam de concursos públicos para atividades que nada têm em comum com sua profissão. Há probabilidade de terem dificuldade de adaptação à atividade no serviço público.  Já os que ingressam na iniciativa privada podem sofrer decepções com a cultura de produtividade máxima e busca incessante por metas, que podem levar a sofrimento no trabalho e a doenças profissionais. Eis o motivo pelo qual não se pode dizer que uma é mais atrativa do que a outra. Ambas, em suas especificidades, têm atrativos e debilidades. 
JC&E -Para ter qualidade de vida no trabalho basta conquistar uma vaga que proporcione isso, ou parte dessa condição depende também de como o profissional se comporta?JAO - Sem dúvida, a segunda afirmativa é a correta. As vagas, em si, sejam no serviço público ou na iniciativa privada não têm o poder, sozinhas,  de proporcionar qualidade de vida no trabalho. A organização fornece as condições, o ambiente e a cultura, mas a compreensão e o comportamento do profissional diante desses artefatos e dessas condições é o elemento principal para que haja a motivação, a satisfação, o comprometimento, que levam à qualidade de vida no trabalho. Quando muito, as vagas podem conter os atrativos comentados, mas quem dá o valor, quem dá vida a elas é o ser humano que lhe foi designado para ação. Por oportuno, devo dizer que o ser humano é central em todas as organizações, motivo de todas as ações organizacionais.
JC&E - No caso dos jovens, a longa permanência em um mesmo emprego não pode acabar resultando em pouca experiência?JAO - A longa permanência de profissionais em um mesmo emprego é característica das gerações anteriores a esta e até pouco tempo atrás, ocorria com bastante frequência. A ideia era que quanto mais tempo o profissional ficasse na mesma empresa, maior seria o seu conhecimento específico sobre a função e sobre a organização, aumentando a probabilidade de êxito, assim como a sua capacidade de tomar boas decisões. Além disto, a organização ainda teria a fidelidade do empregado.  No entanto, os processos de mudanças em todas as áreas da vida atingem as pessoas e as organizações fortemente. As novas gerações não têm o mesmo senso de fidelidade às empresas para as quais trabalham e passam de uma para outra com muita facilidade. Esse comportamento pode ser considerado positivo para as organizações, pois traz “sangue novo” e o conhecimento adquirido em várias experiências pode ser benéfico para as organizações, se for feito dentro da ética profissional.  Do ponto de vista do profissional, aumenta a experiência e a empregabilidade, pelos conhecimentos adquiridos nas diversas organizações por onde passou.  Não há como negar que há grandes vantagens nessa nova forma de pensar a carreira do profissional, tanto para os empregados como para as organizações.   JC&E -A carreira pública também pode decepcionar? Se sim, que cuidados o servidor deve tomar antes de procurar uma vaga?JAO - Pode haver, sim, o risco de decepção com a carreira pública.  Um profissional que se prepara durante anos para entrar no serviço público, ao chegar àquela vaga tão sonhada, consegue por sua alta competência técnica. Ocorre que essa mesma competência pode ser também o motivo que irá fazer com que ele se decepcione e saia do serviço público.   Vários são os motivos dessa possível decepção. Uns somente podem ser descobertos ao chegar ao seu local de trabalho e outros são mais previsíveis. Um deles é que a instituição não esteja preparada para receber os novos talentos que foram aprovados para as vagas existentes e não lhes sejam dadas oportunidades de mostrar sua capacidade de trabalho. Também há o risco das lideranças que estão nas organizações terem receio de que os novos talentos ocupem seus lugares e o ambiente se torne bastante conflitante. Há ainda a possibilidade real de que o novo servidor não veja na função para a que prestou concurso, relação com sua profissão ou com suas qualificações profissionais.  Estes são alguns motivos de decepção. Uns são recorrentes em qualquer organização, outros são específicos do serviço público. Os cuidados principais que o profissional deve observar são relacionados à conscientização de suas competências técnicas, à compreensão de que as em todas as organizações, inclusive as públicas, há disputa pelo poder, e que os conflitos são inerentes aos locais de trabalho. Também convém aos que prestam concursos públicos a decisão de buscar vagas com maior proximidade de suas profissões ou de seus talentos.
JC&E -Mesmo com tantos atrativos, a carreira pública tem perdido profissionais para a carreira privada. Que políticas deveriam ser adotadas para evitar essa precarização do serviço público?JAO - As políticas de desenvolvimento contínuo das pessoas nas organizações em suas competências técnicas pode ser uma excelente ação. Penso ainda que a criação de ambientes saudáveis, éticos e de respeito à diversidade, podem ser também um bom início para que não haja decepção e consequente migração dos talentos que entram no serviço público.  A palavra chave para responder a essa questão é o desenvolvimento das pessoas e a oferta de opções de crescimento, de participação e de melhores condições de qualidade de vida às pessoas.
JC&E - Como deve agir e se portar um bom gestor de servidores públicos?JAO - A princípio, não se faz distinção de gestores de pessoas em qualquer que seja o tipo de organização, pois as funções da administração são universais. No entanto, compreendendo o objetivo da pergunta e o meio de divulgação, convém salientar a importância que o gestor de pessoas no serviço público seja alguém com aguçada competência técnica, mas também tenha competência emocional. Para a competência técnica, será necessário que o gestor seja conhecedor das ferramentas de gestão, tenha habilidades para manuseá-las e seja apto para tomar as atitudes no momento oportuno. Este saber agir implica em ter condições de mobilizar os conhecimentos, os recursos e as habilidades para que a instituição cresça e se desenvolva. Para a competência emocional o gestor necessita saber lidar com situações adversas, ser paciente, se prestativo, passar a ideia de transparência nas ações, ter iniciativa, ter automotivação, além do espírito harmonioso para trabalhar em equipe.  Esses comportamentos serão necessários para que o gestor possa mostrar aos servidores a importância do trabalho e a necessidade de elevar a colaboração desses em prol do desenvolvimento da instituição.
JC&E - De que forma a satisfação do profissional com seu emprego pode influenciar na execução de suas atribuições?JAO - No início dos estudos sobre qualidade de vida no Brasil, na década de 1970, uma das pioneiras foi a professora Eda Fernandes, que dizia em suas obras que um indivíduo sem qualidade de vida no trabalho não poderia elaborar produtos com qualidade. A professora queria dizer que é incompatível a falta de satisfação com a qualidade de sua contribuição à instituição.  O servidor público também entra nessa análise e não é errado afirmar que os seus serviços prestados ao cidadão terão maior qualidade se os processos psicológicos e psicossociais que ele necessita são fornecidos pela organização. Os processos psicológicos são os individuais, como motivação, o poder, as comunicações, a aprendizagem, a criatividade, os valores. Já os processos psicossociais que podem melhorar o desempenho dos servidores são a cultura e as mudanças nas organizações, os conflitos, as tomadas de decisões.
JC&E - Que conselhos o sr. daria a um jovem que acaba de ingressar no mercado de trabalho e busca aquele "emprego dos sonhos"?JAO - Primeiro, sugiro o óbvio: defina muito bem o que é o “emprego dos sonhos”. Que não seja somente o que tem maior salário, mas o que lhe dá melhores recompensas intrínsecas, pois a felicidade e o amor pelo trabalho vencem com facilidade o que um salário maior poderia oferecer, no entanto, sem qualidade de vida. Se o “emprego dos sonhos” não for bem definido, você poderá até chegar a ele e nem perceber. Conheço casos de pessoas que eram muito felizes em um emprego trocaram-no por um emprego que pagava alguns reais a mais e não passaram muito tempo no novo emprego, pois não lhes oferecia vida. É muito necessário procurar algo relacionado com a profissão que acaba de abraçar, pois se sentirá com autoeficácia para desenvolver as atividades solicitadas. Se por acaso ainda não está no “emprego dos sonhos”, enquanto procura, aproveite o atual, pois será um exercício importante para obter experiência e maior capacidade para agir quando encontrar aquele dos sonhos. Prepare-se bastante com muito estudo e mantenha uma excelente rede de relacionamentos, pois se vários profissionais têm a mesma nota, quem tem uma diferenciação com relacionamentos interpessoais saudáveis sairá à frente.

Comentários

Mais Lidas