Espírito olímpico

Minhas amigas e meus amigos concurseiros, não há êxito sem disciplina.

Redação
Publicado em 18/08/2008, às 12h06

Tivemos a histórica e feliz oportunidade de assistir ao belo espetáculo da aberturta dos Jogos Olímpicos 2008, em Pequim. Foram quatro horas de poesia, de alegria, de emoção, de lágrimas, de arte pura. Um momento maravilhoso de paz e amor, de crença sincera na fraternidade humana. Salve o mundo ideal!

Ali, naquela incrível apresentação estético-coreográfica, exibiu-se, com poesia e arte, todo o desenrolar histórico-cultural do povo chinês e sua famosa revolução cultural, expressa hoje em poderoso desenvolvimento econômico, impulsionado pela ciência e pela tecnologia a serviço das atividades produtivas no mundo.

Vimos um espetáculo que serviu de veículo para o maior recado chinês, retratado em belíssima aquarela que traduzia o ideograma: Harmonia = Paz = Liberdade.

São cinco mil anos de história. Quando os ocidentais chegaram à China, o povo chinês já vivia sob disciplina cultural milenar. É muito chão! A riqueza de um povo é capital acumulado em cultura e em desenvolvimento educacional e artístico-disciplinar.

O longo aprendizado de vida  daquele povo transformou-se em arte que mantém no espírito chinês as qualidades da perseverança, do esforço de trabalho e da disciplina. Graças a elas, os chineses construíram sua história cultural, com consciência e determinação. E ainda há a famosa paciência chinesa, que pude constatar ao acompanhar o trabalho de um artesão chinês na feitura de um vaso em cloisonnét.

Mas o que isso tem a ver com concurso público? Tudo.

Minhas amigas e meus amigos concurseiros, não há êxito sem disciplina. Os chineses nos legam esse ensinamento, indispensável ao espírito que almeja o conhecimento. Tanto que sempre foi apropriado pelos verdadeiros gênios, como Machado de Assis, que dizia ser a repetição – o hábito – do estudo a base fundamental da aprendizagem.

Eis a lição maior: quanto mais vivenciamos o assunto, mais o dominamos. Com disciplina e recorrendo à repetição, ao hábito, nos apropriamos de forma consistente da idéia que procuramos aprender, cujo entendimento ganha corpo, que se autodesenvolve em espiral, extravasando as fronteiras do conhecimento e da autoconfiança.

Os jogos olímpicos, que celebram o momento maior da humanidade, em sua crença no futuro e na fraternidade, têm na lição chinesa conteúdo fundamental. Demonstram como o tecido indispensável da cultura, em sua pureza, que independe dos interesses egoístas – meramente lucrativos –, emociona e traduz a verdade e a luz, provadas na experiência histórica.

Acabo de retornar, com minha família, de maravilhosa viagem à China. Visitei o país um pouco antes da abertura dos jogos, mas pude sentir uma pujança extraordinária, que chega a assustar. Os chineses vão dominar o mundo, assim como conquistarão o primeiro lugar no quadro de medalhas dos jogos que exemplarmente organizam.

O povo chinês demonstra pleno domínio da cultura e da revolução que a tecnologia e a ciência produzem. Tanto é assim que também promove uma revolução, com a aplicação ampliada da atividade humana na produtividade acelerada como forma de conquistar os mercados.

Em grande parte do setor industrial, tornou-se praticamente impossível competir com os produtos chineses. Com eles, a China fez poupança para financiar a despoupança histórica dos Estados Unidos, voltado ao consumismo exacerbado.

A China acumula muita riqueza financeira. Por isso, domina as finanças dos Estados Unidos, dispondo de títulos da dívida americana em quantidade considerável. Em decorrência disso, surgiu uma interatividade dinâmica entre os dois países, que se tornaram interdependentes e vivem um processo dialético.

A nação chinesa está tecnológica e financeiramente abastecida para dispor do mercado mundial, graças a sua revolução cultural, que se baseia na educação intensiva, amplamente dominada pela virtude maior que cultiva: a disciplina.

Esse recado, devemos consumi-lo, absorvê-lo, e dele extrair seu sumo maior: sem disciplina consciente, não há salvação e não há conquistas.

Cada um de nós, disciplinado à moda oriental – confucionista –, é potencialmente invencível e plenamente capaz de alcançar o objetivo a que se propõe.

Não há mistério. Tudo é muito claro. Para alcançar o sucesso, a receita é uma só: espantar a preguiça mental e disciplinar a mente para a batalha maravilhosa do conhecimento, da descoberta e do aprendizado.

Os ocidentais aprenderam que a China dá saltos históricos, combinando passado e futuro, tradição e desenvolvimento. Isso é um mito. As diversas fases históricas de uma nação são semelhantes às diversas fases históricas do desenvolvimento do próprio indivíduo, que é parte integrante da nação. Uma geração sobrepõe-se à outra e absorve os conhecimentos das anteriores, de forma indefinida, evolucionária, permanente, em obediência à lei do movimento. "Tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda" (Hegel).

Não há saltos espetaculares, mirabolantes. Há continuidade disciplinada, consciente, que leva à autoconsciência do movimento artístico-disciplinar estética e vividamente revolucionário.

O que existe não é o mito, é o fato histórico chinês, calcado na disciplina milenar, exposta brilhantemente pelo cineasta chinês Zhang Yimou, autor de Lanternas vermelhas. Ele traçou o plano geral estético da revolução cultural chinesa como uma síntese do pensamento chinês de Mao Tsé Tung, autor do Livro vermelho, que elenca os ensinamentos históricos da cultura chinesa: "A história da humanidade é a história do contínuo desenvolvimento do reino da necessidade para o reino da liberdade" (1964).

Os chineses viveram dias difíceis em sua história, inclusive no período ditatorial de Mao Tsé Tung. Mas a longa trajetória chinesa é um amálgama de experiências que se produzem em fases que se acumulam, interativa e historicamente, como contínua tríade grega, expressa na tese, na antítese e na síntese.

Estamos sempre lançando teses, que produzem antíteses, que, por sua vez, buscam uma síntese, em eterna recorrência para cima e para o alto, sempre do quantitativo ao qualitativo. Não se trata de bater o prego, mas de atarraxar o parafuso, algo mais consistente.

O exemplo chinês é excelente para concurseiros e concurseiras que, neste segundo semestre, se preparam com o vigor e o espírito de um atleta olímpico e buscam se superar para conquistar sua meta: o cargo público.

Para eles, um pensamento de Confúcio: “Se você atirar nas estrelas e acertar a lua, tudo bem. Mas você tem que atirar em algo. A maioria das pessoas nem sequer atira.”

Saudações olímpicas!


Professor Granjeiro é diretor e professor titular de Direito Administrativo e Administração Pública do Obcursos/Plêiade, em Brasília

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