Elas querem ser chefas

Preconceitos estão sendo vencidos e valorização da mulher no mercado de trabalho dá salto em todas as áreas. Na liderança, porém, o barulho é muito maior

Redação
Publicado em 06/07/2012, às 16h01

Vira e mexe o leitor é bombardeado com pesquisas e reportagens que mostram e explicam a “revolução feminina”. Que cresce a participação das mulheres no mercado de trabalho já é sabido, mas o que o mercado de trabalho tem a dizer sobre esse fenômeno que ganha musculatura a cada ano? Qual a percepção das mulheres que venceram preconceitos e assumiram cargos de liderança nas empresas que trabalham? O que pensam aquelas que assumiram o próprio negócio e se provaram tão ou mais capazes do que os homens? 
Os números precisam falar primeiro. Segundo o mais recente levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado no mês de março, a participação da mulher no mercado de trabalho cresceu em todos os setores nos últimos dez anos. Na indústria, comércio e empresariado, a alta foi mais flagrante com porcentagens entre 5% e 7% em comparação ao apurado em 2003. 
Se adotarmos como parâmetro o ensino superior, a participação de mulheres no mercado de trabalho já é estatisticamente superior a dos homens nos setores de comércio e administração pública e equivalente no empresariado. 
O rendimento médio das mulheres, no entanto, de acordo com os números do IBGE, ainda é inferior. A diferença, porém, é a menor já registrada.
De acordo com o recrutador da Proton Consultoria Jeferson Marques da Silva, o Brasil está atravessando um momento chave nesse cenário.  Para ele, consultorias e especialistas em RH estão percebendo que a busca pelo equilíbrio de gênero é um valoroso instrumento de produtividade. Esse conceito em desenvolvimento se reflete no aumento cada vez mais palpável de mulheres em cargos de chefia Brasil afora. O especialista acrescenta que o Brasil está à frente de países do chamado primeiro mundo nesse aspecto. Estados Unidos, Alemanha e Japão, por exemplo,  apresentam índices inferiores a 20% de mulheres em postos de liderança. No Brasil, essa estatística já é de aproximadamente 40%. Para ele, fatores como a boa aprovação da presidente Dilma Rousseff contribuirão, no médio prazo, para uma mudança mais efetiva na cultura de certas empresas. “Precisamos, inclusive, ficar à vontade para escrevermos e falarmos presidenta no lugar de presidente”, advoga o consultor. 
Assumindo a frente  “O mercado começa a aceitar as diferenças biológicas e constitutivas do sexo feminino e a perceber que as qualidades existem independentemente do gênero. O mundo empresarial  cada vez mais compreende que o empenho, a competência e a dedicação são características capazes de distinguir um bom gestor, independentemente se for homem ou mulher”. O diagnóstico é de Mari Gradilone, de 58 anos de idade e mais de 25 anos atuando profissionalmente. Com formação em arquitetura e desenho industrial, ela hoje é diretora do Virtual Office, uma das empresas pioneiras no país no que tange o conceito de escritório virtual. Cristiani Martins, de 43 anos, também percorreu um longo caminho desde a graduação em administração de empresas com ênfase em comércio exterior e o posto de diretora comercial da Atlantic Solutions – empresa de consultoria de TI focada em administração de banco de dados. 
Cristiani admite já ter enfrentado preconceito: “já vivi esta situação, onde eu tinha a mesma função de uma outra pessoa e ele tinha alguns benefícios que eu não tinha. Por mais que eu me esforçasse, sempre havia uma barreira que me parecia invisível; até o momento que comecei a perceber que não era eu o problema, mas sim a cultura da empresa. Cheguei à conclusão que ali não era o meu lugar”. Ela admite, no entanto, uma mudança de cenário. “Agora, no mundo da tecnologia, me deparo com um ambiente bem masculino, onde a maioria dos meus clientes ou contatos são homens. Há até uma certa facilidade na hora de uma primeira ligação, mas a dificuldade aparece na hora da negociação e fechamento, onde muitas vezes, o futuro cliente de forma subliminar tenta induzir uma negociação diretamente com o meu superior, que é um homem! Depois da primeira vez, o cliente já se sente mais confortável e vê que o fato de eu ser mulher não significa fraqueza ou falta de perspicácia”. 
Simone Domingues, sócia-diretora da Trade Consultoria – empresa atuante na área de contabilidade, concorda com a percepção de Cristiani. “Acho que existe bastante preconceito ainda, pois às vezes tratamos com pessoas que acabam te desprezando em um primeiro momento; no início de uma reunião, por exemplo. Depois que colocamos nossos pontos e conhecimentos acabam mudando de ideia”. Mari Gradilone vai mais longe. “As mulheres possuem alguns pontos marcantes que quando equilibrados com racionalidade podem gerar positividade aos negócios. Características como intuição, sensibilidade e criatividade, normalmente derivadas do aspecto maternal, se afloram na hora de gerenciar uma empresa”. Jeferson Marques da Silva concorda e acrescenta: “As mulheres estão se preparando mais que os homens”. 
Multipersonagem  “Desempenhar papéis como de mãe, esposa e empresária faz a mulher ter uma visão ampla e múltipla”, argumenta Gradilone. Simone, casada, dois filhos e que trabalha com contabilidade desde os 15 anos, lista outras características que contribuem para o sucesso das mulheres em cargos de liderança: “facilidade de compreender e tratar as pessoas, ser paciente, persistente, corajosa, forte e determinada”. 
O consultor ouvido pela reportagem do JC&E, propositadamente do sexo masculino, assina embaixo e destaca que os cada vez mais frequentes estudos e análises encomendados por consultorias e departamentos de RH estão chegando a conclusão de que homens e mulheres se complementam. Por mais óbvio que isso possa parecer, o mercado só agora começa a assimilar essa verdade. “Existe a necessidade de mapearmos cada vez mais o perfil das lideranças para cada empresa e tipo de negócio”.
Para o consultor, a liderança feminina é mais bem recebida no marketing, setores administrativos, recursos humanos e educação. Ele não acredita, porém, que possa haver uma inversão da proporção de homens e mulheres em cargos de liderança. Isso porque, do ponto de vista comercial, a equidade vem se mostrando mais necessária a cada dia. Segundo ele, esse quadro também decorre da atenção midiática às políticas de cargos e salários das empresas para homens e mulheres. 
Criatividade e rendimento  Um outro dado interessante, mas estranhamente silencioso, dessa “revolução feminina” clama à atenção. Estudo realizado pela Rizzo Franchise apurou que franquias administradas por mulheres rendem mais do que franquias geridas por homens. A pesquisa vem chacoalhar convicções de mercado. 
A paulistana Ana Cândida Blasi engrossa essa estatística. Depois de trabalhar para marcas como a Hering e ter a própria produtora de vídeos, ela decidiu começar do zero após o fim do casamento. Assumiu a franquia da Quality Lavanderia no bairro do Paraíso em 2007, após a desistência do primeiro franqueado, mesmo morando no bairro de Moema e sem saber o ritmo do bairro. Aos poucos, Ana foi empregando o seu estilo, marcado por uma criatividade inquietante, para prospectar clientes. Desenvolveu estratégias pioneiras como sortear computadores para os porteiros de prédios que mais lhe arranjassem clientes e dia de beleza para empregadas domésticas que fizessem o mesmo. Investiu na distribuição de brindes, como meias no inverno, e foi atrás de contratos fixos de prestação de serviços. Ela hoje figura no sexto lugar do ranking nacional da franqueadora. O negócio cresceu tão bem que quando assumiu a loja, havia quatro funcionários. Hoje são nove.   A história de Luciana Valadão Teixeira exigiu o mesmo afinco. Também em 2007, ela casou-se com Magno Taveira, dono da loja Restaura Jeans em Franca (SP). O pioneirismo no serviço de tingimento profissional não rendia a Magno os frutos esperados e após o casamento ele estava pronto para se desfazer do negócio. Foi na ocasião da venda que Luciana resolveu insistir com o marido para que ela assumisse a loja. “Poxa! Se outra pessoa está vendo aqui uma oportunidade, sou eu que vou alavancar esse negócio”, confessa o pensamento.
Ela resolveu estabelecer uma relação de proximidade com cada cliente. “Foi um trabalho de formiguinha”, recorda. A paciência e persistência, características femininas destacadas por todas as entrevistadas, deram certo. “Crescemos em março deste ano 35% a mais do que no mesmo período de 2011”, comemora. 

Por Reinaldo Matheus Glioche/SP

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