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Empregos A vida em parágrafos

O dono do balão

Edgard é um homem esguio, de sessenta e três anos, cabelos grisalhos e desgrenhados, e voz exageradamente...



Redação
Publicado em 04/12/2009, às 12h50

por Lygia Roncel

Edgard é um homem esguio, de sessenta e três anos, cabelos grisalhos e desgrenhados, e voz exageradamente rouca. Um “bom partido”, segundo o próprio, que ri quando o diz. É o homem que abre a larga porta de madeira de sua confortável casa em Moema – zona sul da capital paulista –, a poucos passos do Parque do Ibirapuera, com um sorriso nem tão largo, nem tão seguro, mas constante.

A casa tem dois andares: uma espaçosa sala que ocupa quase todo o primeiro andar, junto com a cozinha e a copa, no piso superior os quartos, que devem ser três ou quatro, mais a edícula, onde está seu estúdio particular. Na sala toda de paredes brancas, uma tevê antiga, três sofás, uma enorme janela com vista para a rua, uma mesa de jantar de vidro e quatro estantes de ferro, nas quais se organizam – em ordem alfabética! – LPs, CDs e DVDs. Centenas, talvez milhares. Nem Edgard sabe quantos são.

Música clássica, jazz e bossa nova são o que mais se vê. Tem todos do João Gilberto, do Tom, do Vinicius, da turma toda do banquinho e violão. Coletâneas de Frank Sinatra, Villa-Lobos, Jacob do Bandolim, Louis Armstrong. Tudo está lá, muito bem conservado e em seu devido lugar. Dormindo ali num canto, um tímido e charmoso piano, sobre o qual repousam dois livros de Mário de Andrade com estudos sobre a música brasileira.

Seu nome é Edgard Barbosa Poças e foi ele quem compôs – sozinho – quase todo o repertório da Turma do Balão Mágico, nos idos dos anos 80, quando macacões e mocassins estavam na moda. “Se enamora”, “Ursinho Pimpão” e “A Galinha magricela”, por exemplo, ele fez em homenagem a três filhos: Diogo, Mili e Maria do Céu. São seus alguns dos grandes hits dos grupos Dominó e Polegar, que fizeram suspirar as adolescentes. É, portanto, praticamente um papa em música infantil, com mais de duzentas canções gravadas, onze discos de ouro e quatro de platina.

Antes de atingir o topo do céu com seu balão mais do que mágico, Edgard compunha jingles para uma infinidade de comerciais de tevê, algo que continua fazendo com entusiasmo até hoje, e também ganhava uns bons trocados atuando em alguns deles. Era galã. Ele mesmo ri de suas atuações, me mostra algumas delas na telinha de seu Iphone, recorda de algumas falas, entre envergonhado e orgulhoso. Já vendeu de tudo: lâmina de barbear, geladeira, caderneta de poupança, frango temperado, bolacha de água e sal, aliança de diamantes, alho em pó, cigarro, sorvete, cartão de crédito. Jingles então nem se fala. Tocadas por sua varinha mágica de maestro e sua sensibilidade inegável de compositor, peças publicitárias abocanharam prêmios no Clio Awards, Festival de Cannes e Festival de Gramado.

Edgard nasceu no bairro do Belenzinho, mudando-se para o Paraíso mais tarde. “A mesma trajetória de Jesus, de Belém ao paraíso”, brinca ele, que não tem religião nem acredita em santos. Prova disso é de que, há dez anos, passava por uma crise depressiva, sem saber em que agarrar para não afundar mais. Estava nos Estados Unidos, à beira-mar, quando pensou em pedir ajuda ao santo das causas urgentes. Iniciou, de improviso, uma oração dirigida ao céu: “São Benedito, me ajuda...”. Ao se lembrar, no entanto, de que o nome do santo era na verdade Expedito, tentou corrigir a prece: “eu até errei seu nome... mas, entre nós dois, o santo aqui é você”, Edgard cai na gargalhada ao relembrar.

Sua mãe, dona Nena, ele conta, foi aluna de Mário de Andrade no Conservatório Dramático Musical da avenida São João, no centro. Pequeno, ouvia a mãe tocar um piano, que logo foi vendido por vontade do marido, Diogo, um português rígido que queria a música longe do sangue de sua família, mas mantinha uma discoteca alimentada com Carlos Gardel, Caymmi, Ângela Maria e Chuck Berry. Como a vida é feita de ironias, o caçula do casal apaixonou-se por Villa-Lobos, aprendeu sozinho a tocar piano e violão, e fez parte até de uma banda na adolescência. Primo do empresário Zequinha Marques da Costa, um dos melhores amigos de Vinicius de Moraes, frequentou com ele (e depois também sem ele) apartamentos, festas, programas de tevê e espetáculos onde pôde conhecer Tom Jobim, João Gilberto, Baden Powell, Gilberto Gil, Francis Hime, Geraldo Vandré, Edu Lobo, todos os que, àquela época, fervilhavam no rádio e nos festivais. A (boa) música o cercava por todos os lados, como o oceano a uma solitária ilha.

Certa vez, no apartamento de Vinicius, reuniram-se, assim, de improviso, nomes como Baden Powell e Gilberto Gil, que àquela época era um moço rechonchudo, de bigode e terno, que cantava alegremente "Eu vim da Bahia". Baden chegou com o baterista Milton Banana, acomodou-se no sofá e foi tirando sons do velho violão de Edgard, chamado na ocasião de “empenado” – e que fora assinado por todos os grandes nomes, incluindo João Gilberto, mas dado, num impulso romântico, a uma namorada portuguesa. Aquela tarde virou, portanto, uma jam session. Um outro Gilberto Gil, porém, Edgard viu vestir uma túnica no terceiro Festival Internacional da Canção, em 1968, e receber uma enorme vaia junto de Caetano Veloso, que vociferou contra a platéia em defesa de sua música “É proibido proibir”. Edgard, componente da banda que acompanhava "Os Três Moraes", que tinha entre seus membros a cantora Jane (que, mais tarde, se casaria e formaria dupla com Herondy), estava com o multiinstrumentista Hermeto Pascoal ali no canto do palco, assistindo à algazarra de camarote.

As pressões do pai, porém, somada às tristezas da morte prematura do único irmão, fizeram com que Edgard deixasse a paixão de lado para refrescar a cabeça longe de tudo. Fez as malas e atravessou o Atlântico para estudar Medicina em Portugal. Mudou-se para a cidade do Porto, perto dos avós paternos, que moravam em um vilarejo de pescadores, e passou a dividir um pequeno quarto com um amigo. Ali conheceu dona Maria do Céu, uma lavadeira portuguesa, dessas que carregam a bacia de roupas na cabeça, tão meiga e risonha que Edgard lhe prometeu batizar uma filha com seu nome. Dito e feito. A filha nasceu mais de uma década depois, e hoje, passadas 29 primaveras, é conhecida por aí, pelos palcos, como Céu. Além de Céu – que lhe deu a única neta, Rosa, há pouco mais de um ano –, tem outros três filhos: Diogo, que também é cantor e acaba de lançar seu primeiro álbum, Mili, que é designer de uma grande marca esportiva, e Paula, de nove anos. Nunca foi casado de fato, apenas noivo de algumas mulheres – como Michelle, uma francesa.

A insatisfação com a medicina, a saudade do Brasil e a inquietude pelos acordes falavam em seus ouvidos como fantasmas, arrastando correntes pela corrente sanguínea. Em pouco tempo, menos de um ano, Edgard estaria novamente dentro dos abraços dos velhos amigos. Determinado a seguir o coração, cercou-se de livros e estudou teoria musical por anos a fio. Sabia de cor todas as sinfonias de Villa-Lobos e parecia estar pronto, enfim, para o futuro. O calendário estava cavalgando pelo ano de 1973, mas foi então que, num tropeço da vida, um acidente de automóvel limitou os movimentos de sua mão direita e brecou seu promissor futuro como violinista. Tornou-se professor, maestro, compositor, tudo o que podia ser.

Seu dia a dia é todo dedicado ao trabalho. Dorme tarde e acorda tarde, sempre compondo. Está às voltas com campanhas publicitárias e com projetos de discos de música clássica para crianças, para transformar Beethoven, Tchaikovsky e Bach interessantes para os pequenos. Às quartas-feiras e domingos, a caçula vem visitá-lo. Às quintas de manhã, vai à terapia, em Perdizes, e aproveita para almoçar com os filhos Céu e Diogo, que moram na região. Quando a noite chega, diariamente, é hora de ligar para cada um dos filhos – com Paula, diz falar mais de três vezes por dia, a última dela às nove da noite, antes de a menina dormir.

Vamos então ao seu estúdio, na edícula, para que ele me mostre uma parte de todo o seu tesouro. Em uma tela enorme de LCD, vejo incontáveis fotografias dos quatro filhos. Há também fotos lindas e bucólicas do vilarejo em que viviam seus avós em Portugal, perfeitas como cartões-postais, como pinturas impressionistas. Ouço dezenas de jingles seus e também o ainda inédito CD do filho Diogo, em especial uma canção feita em parceria entre os dois. No site Youtube, me mostra dois dos seus vídeos prediletos: um dueto entre Tom Jobim e Gerry Mulligan e, como não poderia deixar de ser, uma performance da musa Billie Holliday. E quando a gente se despede, é com a saudade de uns tempos que flutuam sobre as nossas cabeças como balões invisíveis e que pousam em nós sempre que fechamos os olhos.

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