Antes do delegado, o homem

A coluna de cinema do JC&E seleciona filmes que abordam de maneiras distintas a atividade do delegado de polícia

Redação
Publicado em 24/06/2011, às 15h51


Na esteira da publicação do aguardado edital para delegado da Polícia Civil em São Paulo, convém pousar o olhar sobre como essa função - e o escopo da polícia - são retratados pelo cinema. São raros os filmes que se dedicam a investigar o cotidiano de policiais - ainda mais um delegado que tem uma rotina, à primazia, mais burocrática do que um agente ou investigador. 
O cinema nacional, para surpresa de alguns, é mais prolixo na matéria. Principalmente após o sucesso estrondoso dos dois “Tropa de elite”, de José Padilha. Antes desse marco no cinema comercial - e também de viés sociológico - brasileiro, havia pouco interesse em discutir os bastidores da atividade policial. O bandido e uma urgência por compreensão desse personagem sempre pareceram mais interessantes aos olhos dos cineastas do país. Exemplos não faltam. Desde “O bandido da luz vermelha”, de Rogério Sganzerla, até “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. Foi após o impacto proporcionado por “Tropa de elite”, que o cinema nacional resolveu dar voz à polícia. Mas ainda falta apurar o tom. “Federal”, por exemplo, é um filme que objetiva surfar na onda de “Tropa de elite”, mas lhe falta estofo dramático para tanto. A história acompanha o delegado da Polícia Federal brasileira Vital (Carlos Alberto Riccelli) no comando de uma operação para prender um renomado traficante internacional de drogas. O paralelo com sua vida pessoal e a mulher grávida que o aguarda em casa só reafirma a referência que é “Tropa de elite”. Vital, em linhas gerais, não deixa de ser um decalque do capitão Nascimento.
Não é para menos. O personagem de Wagner Moura nos filmes de José Padilha se tornou um ícone da cultura pop nacional. Uma espécie de super-herói proletário que busca identificação com a audiência (condição reforçada no segundo filme). 
No entanto, os dois “Tropa de elite” e “Federal”, ainda que com uma falha ali e outra cá, são produções mais encorpadas - sob a perspectiva de iluminar a atividade policial - do que os filmes americanos. Em Hollywood, o clichê impera. Em parte por falta de interesse do público em ver análises sócio-culturais nas telas do cinema, em parte por estereótipos muito bem construídos e longevos. O homem da lei e o homem do mal são arquétipos caros a qualquer construção de roteiro de uma fita de ação. Não há espaço para personagens complexos como, por exemplo, o Nascimento brasileiro. 
Nesse sentido, a figura do delegado surge como o corrupto dissimulado (como em “Los Angeles, cidade proibida”), o chefe bonachão (como na comédia “Os outros caras”) ou como o sujeito incorruptível que vai até as últimas consequências para defender a lei a e moral (como em “Cop land”). 
Os três filmes citados se dedicam, cada qual a sua maneira, a escrutinar a rotina policial e, não por coincidência, encontram na figura do delegado um personagem que dita o ritmo da fita. Em “Los Angeles, cidade proibida”, o tom é de drama sério; em “Os outros caras”, é satírico e em “Cop land”, é ação dosada a índices de testosterona. 
No final das contas, tanto o cinema americano quanto o brasileiro não fazem jus à dimensão da profissão. Também pudera. O acesso à carreira lá é diferente daqui. Aqui o ingresso se dá por concurso e lá por nomeação. Não deixa de ser por meritocracia, já que um oficial pode chegar a delegado. Basta boa produtividade e conexões políticas acertadas. 
O curioso é que apesar das diferenças nos trâmites para ingresso na carreira, há uma similaridade nesses filmes que chama a atenção: o interesse na corrupção policial. É, no final das contas, o aspecto humano que move o interesse do cinema na atividade policial. Não deixa de ser uma escolha acertada.  
Serviço:Los Angeles, cidade proibidaNome original: L.A, confindentialPaís: Estados UnidosAno de produção: 1997Direção: Curtis HansonDisponível em DVD
Federal País: BrasilAno de produção: 2010Direção: Erik de CastroDisponível em DVD
Cop LandPaís: Estados UnidosAno de produção: 1997Direção: James Mangold
Os outros carasNome original: The other guysPaís: Estados UnidosAno de produção: 2010Direção: Adam McKayDisponível em DVD

Por Reinaldo Matheus Glioche
Veja também: 
CineClube JC: improvável desejo, tema improvável
CineClube JC: por trás da toga

Comentários

Mais Lidas