Esporte + Cultura = Saúde

* por João Luís Almeida Machado

Redação
Publicado em 11/05/2007, às 10h29

* por João Luís Almeida Machado



Faltam dois meses para o Pan, no Rio de Janeiro, e o evento que une os atletas das Américas me fez pensar na importância do esporte para nossos jovens e no quanto ele é relegado a segundo plano nas escolas do nosso país.

Pratiquei esporte competitivo desde os 9 anos. Ia todos os dias à Associação Esportiva São José. Fazia parte de uma das mais competitivas equipes de natação do estado de São Paulo. Atualmente, minha filha é bailarina, minha esposa faz sapateado, meu menino joga futebol e eu continuo estudando, fazendo o meu doutorado. Estamos sempre ocupados com alguma atividade que nos faz crescer. Faz bem para o corpo e também para a alma. Tenho saudades do esporte e de seu ambiente saudável.

O esporte, a música, a dança, a literatura e todas as atividades culturais dão objetivo e horizontes para o futuro e evitam que os jovens fiquem ociosos e caiam no vício. Sinto que a nossa juventude anda muito ociosa. Penso que a resposta para problemas como alcoolismo, drogas, bulimia, violência e tantas outras pragas que atormentam a vida desses jovens se encontra no esporte e na cultura.

Nosso país não tem projetos consistentes de esporte na escola. Esse é um erro grosseiro de nosso planejamento curricular. A educação física deve ser encarada com muito mais respeito e ter uma atuação mais integrada com as outras disciplinas. Não sinto isso como um erro cometido pelos professores que atuam na área, pelo contrário, conheço muitos que se interessam em realizar projetos juntamente com os outros educadores das escolas em que trabalham.

A alteração tem que ser realmente de base curricular. Deve haver um aumento de carga horária para quatro ou cinco aulas semanais e a possibilidade de transformar essa participação em prática competitiva, com a criação de escolinhas esportivas dentro das próprias unidades educacionais públicas ou privadas. A criação de equipes de vôlei, basquete, futebol, futsal, atletismo, tênis de mesa, xadrez, natação, ginástica rítmica e tantos outros esportes é importante não apenas para o corpo de nossas crianças.

Ao se criarem alternativas esportivas dentro das escolas, damos aos estudantes um rumo em suas vidas e lhes legamos uma educação integral. O esporte não é bom somente para o corpo, ensina a trabalhar em equipe, dá ao atleta uma ótima coordenação motora, ajuda-os a se disciplinarem para o treinamento e a competição com repercussões positivas para o trabalho em sala de aula e os tira do ócio.

O mesmo movimento deveria acontecer em relação à cultura e, especificamente à arte nas escolas. Crianças e adolescentes estimulados poderiam aprender música clássica e saborear os acordes e notas de Bach, Beethoven ou Mozart; peças teatrais de autores nacionais e estrangeiros seriam encenadas e ajudariam a melhorar o rendimento em português, literatura ou história; filmes produzidos pelos próprios estudantes iriam ajudá-los a entender melhor o mundo que os cerca, a defender o meio-ambiente ou mesmo a se solidarizar em relação a crianças abandonadas e/ou idosos em asilos.

Oficinas de arte e escolinhas esportivas seriam remédios muito eficazes contra o ócio que empurra nossas crianças e adolescentes para as ruas e para os descaminhos dos vícios. As escolas se tornariam locais muito mais agradáveis aos olhos dos estudantes, que as encarariam como um segundo lar.

Os professores de educação física contariam com torneios regulares de âmbito municipal e estadual para que seus estudantes/atletas pudessem competir. Esportes como futebol, vôlei ou basquete ajudam a criar sentido coletivo, a repartir responsabilidades e a partilhar os louros da glória ou as dores das derrotas. As aulas de artes, oficinas literárias ou ainda a criação de vídeos poderiam fazer parte de um trabalho desenvolvido por professores de biologia, geografia, matemática, física, inglês... Dessa forma, o interesse por todas as disciplinas iria certamente aumentar!

Não devemos pensar que o objetivo final deve ser necessariamente o sucesso, com a revelação de grandes atletas ou de novos expoentes culturais. Se um projeto dessa natureza se torna política de Estado é certo que iremos trazer à tona talentos que estão sendo desperdiçados. Podemos assistir ao surgimento de novos craques como João do Pulo, Gustavo Borges, Daiane dos Santos, Oscar Schimdt e Hortência na área esportiva e, quem sabe, destaques na Cultura como Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Milton Nascimento, Tom Jobim e Ana Botafogo.

O objetivo maior deve ser, no entanto, o da criação de pessoas melhores – integridade, cidadania, ética, saúde, cultura mais ampla, solidariedade, criatividade e autonomia para as crianças e adolescentes que passam por nossas escolas. Criança saudável é aquela que é bem alimentada, tem um ambiente familiar que a trata com carinho, freqüenta escolas e é incentivada a estudar, participar de eventos culturais, praticar esportes e ter tempo para brincar.

O conceito de felicidade e desenvolvimento integral passa por todos esses quesitos. Não adianta melhorar a qualidade de nossas escolas e deixar o resto do tempo dos estudantes totalmente ocioso. Crianças e adolescentes precisam aprender a ter objetivos, planejamento e disciplina para que sejam bem sucedidos e se sintam presentes, atuantes e importantes.


* João Luís Almeida Machado é editor do Portal Planeta Educação, Mestre em Educação, Arte e História da Cultura.

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