É bom demais pra ser Marketing Multinível

Artigo sobre marketing, mercado e trabalho

Kate Domingos
Publicado em 09/05/2016, às 11h49

Mesmo diante de tantas fontes de informação e do amplo acesso à grande mídia, muitos ainda se deixam ludibriar por promessas de enriquecimento profissional meteórico e milagroso como há no modelo de pirâmide financeira. Se a promessa de tal modelo é claramente “boa demais pra ser verdade”, então por que muitos ainda ingressam nele?

Desde a Telexfree, em 2013, primeiro caso famoso de pirâmide financeira no Brasil, milhares de pessoas ingressam nesses esquemas. A empresa alegava funcionar sob o modelo de Marketing Multinível com o objetivo de vender telefonia pela internet, serviço semelhante ao oferecido pelo Skype. Porém, o serviço em si não existia de fato e o negócio era sustentado apenas pelo recrutamento de novos “representantes” que deveriam investir dinheiro no negócio como requisito para o ingresso. Mas se a fraude e o caráter insustentável do negócio eram claros, por que, ainda assim, mais de 40 mil pessoas ingressaram no esquema e continuariam ingressando se o Ministério Público do Acre não interviesse? O Ministério Público de São Paulo também já teve de lidar com pirâmides financeiras, o Bbom, empresa que alegava vender rastreadores, quando na verdade o produto não existia, lucrou mais de 2 bilhões de reais e envolveu pelo menos um milhão de pessoas. Uma alta pirâmide.

O esquema que caracteriza a pirâmide financeira é bem diferente daquele existente no Marketing Multinível. Neste há um produto palpável, de ampla procura e de preço acessível para circulação, além de uma proposta sólida de distribuição de recursos. O foco permanece no produto e em sua capacidade de gerar ganho sustentável e desenvolvimento pessoal aos colaboradores. É praticado por empresas estruturadas e internacionais como Herbalife e Amway. Já a pirâmide financeira visa apenas ao lucro, através dos investimentos feitos por aqueles que ingressam no esquema (e que tem de “pagar para entrar”), não há produto palpável nem perspectiva de sustentabilidade, pois assim que novos indivíduos param de ingressar na pirâmide, ela se desmantela, pois sua única fonte de recursos é o investimento daqueles que entram, já que não há geração de “emprego” e renda através de produtos reais.

A real semelhança entre o Marketing Multinível e pirâmide é a forma de ingresso dos novos colaboradores, que ocorre por recrutamento dos colaboradores já existentes, estando os mais recentes subordinados aos mais antigos na hierarquia da rede. Tal semelhança tem rendido problemas para as gigantes do setor de Marketing Multinível, tamanho é o impacto negativo gerado pelas pirâmides. A Herbalife, por exemplo, mesmo demonstrando solidez até o momento, tem enfrentado críticas e precisa estar constantemente provando ao mercado de investidores seu potencial de sustentabilidade.

Mais do que a incompreensão da diferença entre Marketing Multinível e Pirâmide Financeira, somos levados a crer que outros motivos também levaram as vítimas da Telexfree, da Bbom e de outras tantas pirâmides a ingressar em tal esquema, os mais óbvios são a distorção de nossos valores éticos e a fragilidade da meritocracia de nossa sociedade atual, e não é difícil entender porquê.

As injustiças, a impunidade e a desigualdade que povoam nossa sociedade atual orquestram um estado de desconcerto tão geral que distorcem nossa noção sobre o que é verdade ou engodo, ético ou antiético. Chegamos hoje ao absurdo de cultivar algo que se tem chamado de “ética flexível”, esta sim pode levar um indivíduo a recrutar outros para um esquema fraudulento em prol de seu benefício próprio ou sob o pretexto de “evitar perder o que já investiu”. Já nos alertava, Mario Sergio Cortella, sobre a necessidade de cuidarmos da ética “para não anestesiarmos nossa consciência e começarmos a achar que tudo é normal”. Além da distorção de nossos valores éticos, a fragilidade da meritocracia também tem transformado indivíduos em presas fáceis para pirâmides financeiras, pois tem criado uma legião de desencantados com um mercado de trabalho cheio de apadrinhamentos e armadilhas que deixam a meritocracia com cara de boba e por vezes obrigam bons profissionais a amargar a estagnação.

Gostaríamos de dizer que vivemos numa sociedade ideal, onde a meritocracia é um valor nunca subvertido e a ética jamais é “flexibilizada” a ponto de acharmos que absurdos como injustiça social e impunidade são normais. Porém, para nós, que crescemos num mundo desconcertado, tais ideais também são “bons demais pra serem verdade” e fazer com que floresça, neste quadro, uma cultura de mudança, não será tarefa fácil. A luta não é para evitar que as pessoas ingressem nas pirâmides apenas, mas para evitar que percam a crença nos ideais que as mantêm distantes dessas ciladas.

* Agradecimento a Igor Cabral – Diretor de Negócios na empresa WebCasters – pela sugestão para o tema

Kate Domingos é publicitária pela USP, docente e consultora em Marketing e Comunicação. Contato: kate@concrie.com

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