Leia para um adulto. Isso muda o mundo

Artigo sobre marketing, mercado e trabalho

Douglas Terenciano
Publicado em 13/10/2016, às 10h26

Peço perdão às crianças por dedicar este artigo às pessoas grandes. Mas tenho um bom motivo: todas as pessoas grandes foram um dia crianças, e precisam se lembrar disso! Não parece, mas pessoas grandes são capazes de compreender todas as coisas, até mesmo os livros infantis, porém poucas procuram fazer isso. Contudo, se esse motivo não basta, eu corrijo minha dedicatória: ofereço este artigo às pessoas grandes que procuram aprender como se para sempre fossem crianças.  

A declaração acima pode parecer um tanto poética, descolada da linguagem que se espera deste artigo e de fato é. Ela propositalmente não faz parte deste contexto e, se o fez lembrar alguma coisa, significa que você, adulto, ou “pessoa grande”, como Antoine de Saint-Exupéry prefere se referir aos crescidos no memorável “O Pequeno Príncipe”, teve, em sua infância, este livro fundamental como referência. Com sua sensibilidade ímpar para as grandes questões existenciais da vida humana, é consenso que este título, o terceiro mais traduzido no mundo – depois da Bíblia e do Alcorão –  não pode faltar na formação humanística de nossos filhos. Mas e na nossa? Se ler para uma criança muda o mundo como o Marketing vem bradando, o que aconteceria então se lêssemos para um adulto?

A formação técnica não é o principal problema dos adultos de hoje, eles podem ter ingressado no mercado de trabalho sem a base necessária, mas a vivência profissional e o revisitar à educação formal já se encarregaram de auxiliá-los nisso. O que falta aos adultos de hoje é a formação humanística e relacional, emotiva e experiencial que não tiveram na infância, mas que desejam dar a seus filhos hoje. Afinal o que mais se valoriza no mercado de trabalho atual são os acessos que o indivíduo teve, a bagagem de experiências e referências que carrega. E não se trata de fetichismo ou glamour, mas de desenvolver capacidade emotiva, resiliência, habilidades relacionais e humanísticas, cada vez mais importantes no mercado de trabalho e nas listas dos headhunters.

Entretanto, nessa legítima empreitada, os adultos têm esquecido que nós, seres humanos, somos um tipo de animal curioso, que aprende não pelo conselho, mas pela observação. Conosco não funciona aquele velho ditado popular: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Que ler é fundamental para a formação dos pequenos não é novidade, mas muitos adultos ainda se esquecem de ser exemplo nesse sentido e esperam que a escola faça todo o trabalho. As “pessoas grandes”, já dizia Exupéry, têm potencial, mas são irremediavelmente estranhas.  Precisamos admitir, é realmente estranho esquecer que ler com as crianças pode trazer duplo benefício: investimento no desenvolvimento humanístico dos pequenos e resgate das habilidades humanas que os adultos deixaram de trabalhar na infância por não terem vislumbrado a oportunidade de contato com obras fundamentais como esta que nos ajudou a inaugurar essa reflexão.

A escola se encarrega da formação técnica, mas a formação humana, ética e relacional, não só para o mercado de trabalho, mas para a vida, está, antes de tudo, nas mãos das famílias. Sendo esta formação constante e continuada, nunca seremos indivíduos acabados. Mas estaremos prontos, na medida em que nos tornarmos capazes de manter nossa constante evolução.

Kate Domingos é publicitária pela USP, docente e consultora em Marketing  e Comunicação. Contato: kate@concrie.com

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