Liberdade ou segurança. Temos mesmo que escolher?

Artigo sobre marketing, mercado e trabalho

Kate Domingos
Publicado em 22/11/2016, às 09h43

O velcro foi inventado nos anos 40, o zíper por volta de 1912, a fivela é ainda mais antiga, com registros já no século XIX. Por que será, então, que a maioria dos calçados vendidos hoje no mundo ainda utiliza os nada práticos cadarços? Eles são tradicionais, nos trazem familiaridade e segurança, portanto persistem, ainda que sejamos livres para tentar outras soluções. Embora nem sempre seja tão fácil escolher entre liberdade e segurança, a trajetória humana nos mostra que sempre precisaremos escolher.

A dicotomia existente entre liberdade e segurança não é nova, há tempos ela é alvo de sociólogos, filósofos e pensadores renomados como Freud. Ela sempre norteou as relações humanas, mas até hoje a maioria dos indivíduos tem pouca clareza sobre como ela nos governa. A necessidade de segurança que nos faz preferir os cadarços à praticidade do zíper ou do velcro, é a mesma que nos faz escolher a estabilidade do emprego, ao invés da autonomia do empreendedorismo. Mas se acabamos comprando um calçado com zíper ou nos aventurando em busca de um trabalho mais livre, autônomo e expressivo, é porque nossa necessidade de liberdade, como a de segurança, é forte e latente.

Desenvolver a capacidade de identificar as escolhas que fazemos com base em segurança e liberdade é fundamental para nosso amadurecimento. O ímpeto de manter-se na moda, por exemplo, está diretamente ligado às necessidades de segurança e de liberdade. Ele atende, ao mesmo tempo, às duas necessidades: a de pertencimento a um grupo (intelectuais, hippies, yuppies) e a de se distinguir das massas (sentir-se original e único). O desejo de ser como os outros contra o desejo de ser diferente. Em suma, tudo gira em torno da necessidade de estar seguro como parte de um grupo que nos acolha e da necessidade de estar livre, como seres autônomos que não prestam contas a ninguém.

Se o indivíduo ganhou liberdade, foi porque entregou parte de sua segurança; cada vez que ele ganha segurança, entrega uma porção de sua liberdade. Para Zygmunt Bauman, expoente da sociologia moderna, trata-se de um dilema insolúvel sobre o qual nossa existência se baseia. E aqui o “insolúvel” realmente preocupa, pois revela que é preciso aceitar uma verdade indigesta: ganhar significa também perder, sempre. Todos os dias fazemos escolhas da ordem liberdade x segurança e é indispensável compreender que elas são marcadas por um caráter excludente. Além disso, muitas delas não são apenas pessoais, mas possuem amplitude social.

As discussões contemporâneas sobre suspensão do uso do WhatsApp no país são exemplo dessa amplitude. Se autorizada a quebra de sigilo, combate-se crimes contra a humanidade, como o terrorismo, garante-se a segurança! Mas não sem ferir a liberdade, seja de expressão da maioria dos usuários, seja de sigilo sobre dados particulares. Se proibido o acesso da justiça a esses dados, preserva-se a liberdade, mas sob o preço de abrir mão da segurança. O resultado será sempre um dilema.

Pensar nossa sociedade como fruto da dicotomia segurança X liberdade também pode ajudar a entender muitos de seus desequilíbrios. A desmedida proliferação das redes sociais é um bom exemplo. Ter 1.000 amigos no Facebook significa ter 1.000 relações que não exigem compromisso, que podem, portanto, ser rompidas com um clique. Trata-se de uma escolha pela liberdade. É claro que a contrapartida é a perda da segurança que uma relação baseada em laços reais poderia trazer. Você não pode contar com seus 1.000 amigos do Facebook (não lhe oferecerão essa segurança), mas em contrapartida, você pode se livrar de qualquer um deles sem dificuldades, drama ou explicações, usufruindo de sua liberdade.

Segurança sem liberdade é igual a cárcere, liberdade sem segurança é igual a caos, afirma Bauman. Embora não haja na história humana provas contundentes de que o equilíbrio entre estas duas forças pode ser conseguido, buscá-lo parece o único caminho para o bem-estar, sem esquecer que, nessa dicotomia, “a diferença entre o veneno e o remédio é a dose”. Uma escolha feita num dado momento pode deixar de ser a melhor escolha num futuro próximo, portanto precisaremos de coragem para aceitar as mudanças e rearranjar liberdade e segurança de forma que elas possam fazer sentido novamente. Seria incoerente buscar um equilíbrio definitivo, mas certamente poderemos alcançar algum tipo de equilíbrio dinâmico.

Kate Domingos é publicitária pela USP, docente e consultora em Marketing e Comunicação. Contato: kate@concrie.com

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