Construir carreiras, escovar dentes e outros hábitos

Artigo sobre marketing, mercado e trabalho

Kate Domingos
Publicado em 25/04/2016, às 14h38

As incontáveis atividades que desempenhamos diariamente podem parecer escolhas nossas, fruto de decisões tomadas com base em muita reflexão. Porém não são. A maioria delas não passa de hábitos. Atalhos criados por nossos cérebros para poupar esforço, nosso modo “piloto automático”. Alguns são hábitos fantásticos, como escovar os dentes, um dos maiores responsáveis pelo salto dado pelo homem em expectativa de vida. Outros hábitos, porém, não tão vantajosos, podem até nos matar, mas na maioria das vezes apenas arruínam nossas relações, saúde e carreira.

Os hábitos surgem por um motivo muito simples, quando estamos diante de uma novidade, nossa atividade cerebral é intensa, analisamos, ponderamos, decidimos. Mas a partir do momento que algo deixa de ser novo, nosso cérebro decide poupar energia, afinal, algo que já aconteceu parece, para ele, não ser digno de tanta atenção (e quem pode culpá-lo por um raciocínio tão lógico), então, por automatismo, mimetizamos uma atitude padrão. O problema é que a maior parte de nossas vidas consiste em uma rotina, ou seja, um amontoado de coisas que se repetem, dia após dia. Portanto render-se à mesmice do escritório e deixar-se levar por ela sem nunca reivindicar autonomia ou se perguntar por que algo é feito da forma como é feito consiste, simplesmente, num hábito.

Felizmente, “hábitos podem ser mudados se compreendermos como eles funcionam”. Essa premissa é sustentada por alguns, como Charles Duhigg. Em “O poder do hábito” ele procura esclarecer como podemos empreender tal mudança. Certamente, você conhece pessoas que dizem ser “viciadas” em correr. Claro que você, também certamente, conhece mais pessoas “viciadas” em TV a cabo e potes de sorvete. Mas não porque a segunda opção seja mais divertida ou melhor do que a primeira, mas porque a maioria das pessoas, por questões culturais, habituou-se à segunda. E mudar um hábito exige esforço. Se estivéssemos habituados a correr e precisássemos mudar para sorvete e TV seria igualmente difícil. Não acredita?

Os hábitos são realmente poderosos, e nisso é fácil acreditar. Não é à toa que empresas como P&G, Microsoft e Google mantêm cientistas corporativos concentrados em entender como os hábitos surgem e como podem ser mudados. Hábitos como acabar com o limite do cartão de crédito, fumar, tornar-se sedentário, não ler nem gibi, assistir a reality shows. Nós nos habituamos à apatia, ao comodismo porque viemos de educações familiares e culturas organizacionais que, em sua maioria, reforçam a hierarquia em detrimento do diálogo, tolhem a criatividade e iniciativa em nome da obediência, burocracia e manuais de rotina. Nós nos acostumamos a usar a falta de estímulo como muleta e isso se tornou hábito. Agora precisamos de um esforço extra para transformar em hábito um comportamento oposto a esse.

Nas empresas, não é diferente. A maioria das coisas que acontecem dentro delas não são escolhas racionais, fruto de reflexões colegiadas e deliberadas. São hábitos organizacionais de longa data, regras tácitas que se mantêm porque, afinal, “as coisas por aqui sempre foram assim”! Infelizmente, as empresas não são grandes famílias felizes, hábitos como competir de forma inescrupulosa, sabotar o trabalho do outro, roubar a glória por conquista alheia, semear intriga entre os subordinados para se manter no poder são hábitos comuns, e é essencial reformá-los. O engessamento hierárquico, por exemplo, se revisto, poderia disseminar entre os funcionários o hábito de experimentar novas ideias sem precisar pedir permissão a todo momento. Imagine quantos benefícios poderiam ser alcançados se adquiríssemos o hábito de ver as reuniões como momentos de brainstorming e tomada de decisões, ao invés de vê-las como cumprimento de tabela e perda de tempo.

Assim como nossos avós adquiriram o formidável hábito de escovar os dentes quando vinham de uma vida inteira em que nunca o haviam feito, nós somos capazes de transformar em hábito comportamentos ideais que nunca fizeram parte de nossas vidas até então. Nosso sucesso profissional depende disso sobretudo porque as empresas precisam de nós para empreender essas mudanças. Não se trata de tarefa simples, pois a cultural organizacional já existe cristalizada, porém ela, apesar disso, se mantém em constante evolução, nós a construímos a cada dia. Se nos mantivermos inertes apenas lamentando e culpando a geração anterior pela cultura organizacional de hoje, nossos sucessores também nos culparão, afinal, não seremos diferentes daqueles que vieram antes de nós. Algumas perguntas podem nos ajudar nessa empreitada: Por que fazemos o que fazemos, da forma como fazemos? Certamente podemos criar o hábito de pensar como fazer mais e melhor.

* Agradecimento a Marcelo Lima - Gerente de Negócios do Banco do Brasil, amante de livros e de História - pela inspiração para o tema.

Kate Domingos é publicitária pela USP, docente e consultora em Marketing e Comunicação. Contato: kate@concrie.com

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