É bonita, é bonita e é bonita

Relata histórias de amor, de vida e principalmente da sua luta para conseguir um emprego na área pública.

Redação
Publicado em 22/01/2010, às 15h45

Os olhos verdes de Cleuza Silva brilham. Não é um brilho comum. Representa um emaranhado de sentimentos que a paulistana da Mooca transmite. Prestes a completar 50 anos, ela me recebe em sua casa com um café da tarde, no meio de uma sexta-feira chuvosa. Pede licença e sai da sala para atender aos apelos de sua cadelinha, a Britney. Depois, começa a contar sua história. Relata histórias de amor, de vida e principalmente da sua luta para conseguir um emprego na área pública.

A filha de Dona Maria, que apesar dos 74 anos ainda trabalha como empregada doméstica, enche-se de orgulho ao contar as peripécias da mãe para criar três filhos sem a presença do pai e de sua força ao perder um filho prematuramente. Para ajudar em casa, aos 16 anos, Cleuza resolveu trabalhar como costureira, função que exerceu por quatro anos. Mas ela sempre soube que queria ajudar as pessoas e assim optou pela carreira de serviço social. Quando estava na faculdade conseguiu o emprego de bancária no Banco Geral do Comércio, onde conheceu o seu ex-marido.

No último ano de graduação estagiou na empresa São Paulo Alpargatas, foi efetivada e trabalhou lá por oito anos. “Eu era responsável pela área da saúde, ouvia as reclamações e controlava o restaurante da empresa”, relembra com saudade.

Com o nascimento de sua filha, Cleuza decidiu parar de trabalhar. O marido, que era gerente de banco e dava aula em faculdades, passou a manter as despesas da casa. Porém, com a independência herdada da mãe, não conseguiu ficar parada por muito tempo. Decidiu abrir uma lanchonete com a irmã. O negócio não deu certo. Assim como o casamento. E corajosa, como sempre, tomou uma das decisões mais complicadas de sua vida: o divórcio. Trabalhava com telemarketing quando percebeu que a única maneira de voltar a atuar como assistente social era por meio de concursos públicos. Em 2005, começou a prestar e não parou mais. Guarda todos os comprovantes das inscrições em uma pastinha para ter o controle de quantos já foram. “Sabia que um dia seria entrevistada, por isso guardei”, brinca.

Para a área de serviço social, já prestou para as Prefeituras de Mogi das Cruzes, e de São Paulo, Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público e INSS. A estratégia agora é tentar as prefeituras do interior, pois acredita que terá mais chances. “Preciso estudar mais os conhecimentos específicos da área da saúde”, queixa-se.  Mas a lista dos concursos prestados continua. Dentre as seleções destacam-se: São Paulo Previdência (técnico em gestão previdenciária), Centro Paula Souza (auxiliar administrativo), Tribunal Regional do Trabalho (técnico judiciário), USP (técnico de documentação), Ministério do Trabalho (agente administrativo), Ministério da Fazenda (assistente técnico administrativo) e Agência Nacional de Telecomunicações (técnico em regulação). Como critério de escolha, Cleuza elimina os que possuam muita matemática e informática. “Agora irei prestar os concursos da Fundação Casa e o da Prefeitura de São Caetano, que tem vagas na minha área”, comemora.

Mas depois de tantos esforços ela já acumula uma vitória: em 2008 foi aprovada em uma seleção temporária para atuar como agente escolar de uma escola estadual. Conviveu diariamente com crianças carentes de 7 a 12 anos e levou para sua bagagem a experiência riquíssima de aprender com quem menos se espera. Um ano se passou, o contrato acabou e a luta recomeçou.

Quase uma especialista no assunto, a concurseira resolveu dar algumas dicas para quem pretende ingressar neste mundo. “Cada organizadora muda o estilo das provas e eu gosto de estudar pelas avaliações anteriores. Acredito que a Fundação Carlos Chagas e a Esaf elaboram as questões mais difíceis”. Além disso, para ter um bom desempenho, ela controla bastante o tempo e lê a prova com toda a atenção.

Para continuar ajudando as pessoas, por quatro horas semanais, ela atua como voluntária no Centro de Valorização da Vida (CVV) da Vila Carrão, em São Paulo. Com os olhos cheios de lágrimas e não contendo a emoção, diz que sua vida passou por uma reviravolta após ingressar na ONG. Lá, ouve histórias de todos os tipos, de indivíduos que não tem com quem dividir os seus problemas. Cleuza está do outro lado da linha, com sua voz calma e suave proporcionando conforto e principalmente atenção para quem está passando por um momento difícil e encontra-se sozinho. “Está na minha essência ajudar, faz parte do que eu sou. Ser voluntária me engrandece, faz com que eu evolua. Saio de lá renovada”, diz.

Outro orgulho de sua vida são os filhos. Vinicius, 19 anos, entrou na USP onde cursa Biologia e Daniela, 16 anos, estuda teatro e quer ser uma atriz consagrada. Quando pergunto o que ainda falta para atingir a felicidade total, ela cantarola uma música do Gonzaguinha: “Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será. Mas isso não impede que eu repita: É bonita, é bonita e é bonita”. 

Samantha Cerquetani/SP

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