A educação a distância dos novos tempos

“A educação é promovida entre pessoas, não entre máquinas. Mesmo na educação a distância há pessoas por detrás das máquinas”

Redação
Publicado em 07/12/2012, às 09h31

Natural de Vigo, um município espanhol com população de pouco mais de 294 mil habitantes, José Manuel Moran dedica-se ao aprimoramento da educação básica e superior, presencial e a distância, desde 1975.

O compromisso foi assumido a partir da vivência como professor em instituições como a Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou a disciplina de “novas tecnologias” por 17 anos e concluiu o doutorado em comunicação.

Hoje diretor de Educação a Distância da Universidade Anhanguera – Uniderp, Moran fala ao Jornal dos Concursos & Empregos sobre o panorama atual da EAD, a evolução da modalidade no país e propõe formas para melhorar a aceitação e a qualidade da modalidade de ensino.

Jornal dos Concursos & Empregos – Qual é o panorama atual da educação a distância no Brasil?
José Manuel Moran –
A EAD passou de uma fase mais experimental para ser mais controlada pelo governo, que fiscaliza o crescimento exagerado sem qualidade.
Também houve a ampliação dos modelos menos presenciais e a expansão de modelos virtuais. A tendência da educação a distância é caminhar para a orientação mais remota dos alunos, com processos e recursos digitais de comunicação.
Os modelos de sucesso atuais reúnem alunos, tutor, professor que dá aula gravada para o estudante ver e ouvir. Depois vai mudar. Vai haver modelos mais virtuais na medida em que as tecnologias vão chegando. É um processo de educação e, por isso, demora mais do que gostaríamos. Talvez daqui a cinco, dez anos tenhamos tantos alunos nos cursos de EAD quanto nos presenciais. Essa é uma progressão que tem de se levar em consideração.
Penso que, no futuro, o estudante não vai escolher educação a distância ou presencial. Os modelos vão estar misturados.

JC&E – Que avanços a educação a distância acumulou ao longo dos anos para poder chegar a este patamar que o senhor aponta?
JMM –
O Brasil demorou muito para entrar na educação a distância, mas hoje a modalidade é vista pelas empresas como algo fundamental para a vida profissional, para a educação continuada. Ela traz atualização permanente e é a adaptação de um mundo que evoluiu.
A educação a distância oferece contribuição para atender alunos de regiões distantes, para levar graduação e pós-graduação e para ampliar a base de alunos que fazem curso superior. Estamos avançando em uma lacuna vergonhosa, na qual sempre perdemos para qualquer país.

JC&E – De que maneira a modalidade é vista? Ainda existe preconceito?
JMM –
A educação a distância é nova e sempre ficou na periferia do ensino. Sempre foi mais para o ensino técnico, para cursos mais práticos, primeiro por correspondência e depois por rádio e TV. Esteve voltada à alfabetização de adultos, aos supletivos e à educação de jovens e adultos. Era vista como a modalidade de ensino para quem não tinha educação básica, como uma formação complementar. Os cursos superiores principais sempre foram presencias.
Nos últimos 15 anos, a oferta de educação a distancia no nível superior aumentou. O preconceito diminuiu muito nas áreas de gestão, dos cursos tecnológicos superiores em administração, em áreas mais próximas das atividades realizadas em empresas, e os cursos de curta duração são mais aceitos pelo mercado.
Áreas tradicionais, como direito, serviço social e saúde, ainda resistem, muito por desconhecimento e porque algumas universidades se prestam a exageros e podem oferecer educação de pouca qualidade.
As universidades deram um passo para incorporar a EAD, mas somando todas as instituições que existem, apenas 10% oferecem educação a distância hoje. Significa que é um caminho muito longo de crescimento, só que mesmo esses 10% já detêm quase 20% das matrículas do nível superior.

JC&E – Quais são os maiores desafios da educação a distância no país?
JMM –
Primeiro, continuar evoluindo na qualidade. Pode-se ampliar muito o número de alunos, mas não sem que a qualidade acompanhe.
Depois, o desafio de convencer a sociedade de que profissional formado em educação a distância é igual ou superior ao que obtém o diploma pelo curso presencial. Precisa-se superar o preconceito e aumentar o diálogo com as entidades de classe, incluindo metodologias mais participativas.
Os conselhos de serviço social, enfermagem e direito acham que os alunos vão fazer tudo pela internet, que o médico vai ser formado pelo computador, mas não é assim. Há recursos para a formação de qualidade com aulas práticas, laboratórios e todos os recursos necessários.

JC&E – Como o senhor avalia a atual metodologia aplicada na educação a distância?
JMM –
Há várias metodologias e, no geral, muito convencionais, com aulas baseadas em conteúdos ou transmitidas por teleaula, satélite, internet, gravada em vídeo, com conteúdos para ler e pesquisar.
Faltam metodologias mais ativas em que o aluno seja também pesquisador, elaborador de projetos.
Por outro lado, o aluno também espera tudo pronto do professor e precisa se envolver muito mais, aprender junto com os outros.

JC&E – A educação a distância poderia ser utilizada em todos os níveis escolares? De que maneira?
JMM –
Essa resposta tem de ser dada com cuidado. Para uma criança pequena, não se justifica, mas mesmo ela pode ter atividades online – não necessariamente na sala de aula – que sejam incorporadas no projeto do presencial.
A partir do ensino médio é que a pessoa de 16, 18 anos, que perdeu parte da escolaridade, pode fazer um curso a distância.
No entanto, o público mais preparado hoje para a EAD é o adulto, que geralmente está trabalhando, tem família e não pode ficar todo dia indo para a faculdade.

JC&E – Que contribuições a EAD traz para a educação presencial?
JMM –
A EAD ajuda as pessoas a gerenciarem o próprio processo de aprendizagem; a serem mais participativas; a organizarem melhor o tempo; a desenvolverem competências digitais; a terem uma autonomia maior, pois não tem professor ao lado o tempo todo; e a saberem se comunicar virtualmente.
É uma questão básica viver em um mundo conectado. Muitas pessoas tratam como se fosse só para alguns, mas afeta a todos. Temos grupos, redes, e a conexão é sempre a distância. Todos somos alunos a distancia.

JC&E – Dados do Censo da Educação Superior, de 2010, mostram que um em cada seis estudantes da graduação opta pela EAD e que quase 15% dos formados de nível superior conseguiram o diploma na educação a distância. As matrículas saltaram de 1.682, em 2000, para 930.179 em 2010. O que explica esses números?
JMM –
Nesses últimos 12 anos foram implantados cursos de EAD no ensino superior. Primeiro estava tudo parado porque não havia a possibilidade legal de ofertar cursos a distancia. Em dezembro de 1996 foi legalizada a educação a distância no nível superior. As instituições começaram a se organizar para oferecer, porque havia muita gente querendo, mas não tinha como fazer antes. Entre elas, pessoas adultas no mercado que não tinham graduação e professores atuando que não tinham graduação na área em que atuavam.

JC&E – O que o senhor considera um bom curso de EAD?
JMM –
O que tenha um bom projeto, bons profissionais, produção de material e acompanhamento, além de um processo sério de avaliação. Normalmente, uma instituição que realiza um bom trabalho no presencial também o fará na educação a distância – é o nome que está em jogo.

JC&E – Como a educação a distância pode contribuir para a formação de cidadãos?
JMM –
Preparando para o trabalho, que é uma dimensão importante, e educando para a vida. A pessoa se transforma em alguém com posicionamento crítico e consciência, para não se transformar em massa de manobra.

Pâmela Lee Hamer/SP

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