O céu é o limite

Casado e pai de dois filhos, Paulo é servidor público desde o início da década de 90.

Redação
Publicado em 15/01/2010, às 15h35

“Alô, você pode esperar eu chegar até a lanchonete? Lá a gente conversa melhor.”, responde do outro lado da linha uma voz animada e solícita. O dono da voz é Paulo Bueno, 40 anos, nascido em Santos, mas que adotou Minas Gerais como sua terra já há algum tempo.

No momento da ligação, Paulo estava na rua. Deficiente visual – logo ao nascer, foi identificado um glaucoma congênito que significou a perda total da visão –, ele segue até um local mais tranquilo, onde começa a contar um resumo de sua história.   

A simpatia identificada já na primeira frase impera ao longo de toda a conversa. Bom humor, confiança e estusiasmo durante os mais de 40 minutos de entrevista.

Casado e pai de dois filhos, Paulo é servidor público desde o início da década de 90. “Dos três concursos que prestei durante a minha vida, consegui passar em dois”, afirma com orgulho.

Em 1992, decidiu participar de um concurso da Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, para o cargo de oficial de apoio à gestão da saúde. Ali, ele chegava ao primeiro degrau de uma longa escada. Atuou no órgão por 15 anos, período em que viveu na capital, Belo Horizonte, e em algumas cidades da região sul de Minas.

Em meados de 2008, Paulo subiria mais um degrau ao tomar posse como oficial de apoio judiciário do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ/MG). Esta era a segunda seleção em que ele conseguia ser aprovado, desta vez disputando as vagas reservadas para pessoas com necessidades especiais.

Nesta mesma época, ele concluía o curso de direito. Primeiro deficiente visual a frequentar as salas de sua faculdade, Paulo define os cinco anos de graduação como um período de construção. “Foram tempos de aprendizagem para mim e para toda a equipe da instituição”, relembra.

Apoio nunca faltou. Os colegas gravavam as aulas para Paulo e os professores também o ajudavam. Na hora das provas, ele sempre optava pelos exames orais. “Era uma maneira de terminar a prova ao mesmo tempo que meus colegas e poder participar dos comentários sobre o conteúdo, as questões. Se eu fizesse em braile, demoraria muito mais tempo”.  

O bom relacionamento com o outro também faz parte de seu atual ambiente de trabalho. Munido das adaptações necessárias – seu computador possui um programa de voz –, Paulo faz de tudo um pouco lá dentro e garante se dar bem com todo mundo. Para ele, um dos segredos mais importantes da vida é construir a convivência, tendo sempre como palavra de ordem o termo inclusão.

“A pessoa com deficiência tem que estar aberta ao convívio social”. E isso Paulo está. Tanto que a desenvoltura em se relacionar com o outro fez despertar nele um outro talento.

Ele gosta de se comunicar, de se fazer ouvir, de ajudar as pessoas a compreender melhor o mundo. Por isso, além do trabalho no TJ, Paulo ministra palestras sobre três temas centrais: saúde pública, direitos da criança e do adolescente e direitos da pessoa com deficiência.

Frequentemente, é procurado por conselhos tutelares, secretarias e prefeituras municipais e, hoje, já está montando a própria empresa de consultoria.

A vida, no entanto, não para por aí. Ainda faltam tantos outros degraus a subir. O próximo é conquistar uma vaga de promotor no Ministério Público (MP). “Estou esperando completar três anos de atividade jurídica no tribunal  para disputar o concurso do MP”, conta. Este é o tempo de experiência normalmente exigido em processos seletivos do órgão.

Para alcançar tal meta, Paulo vai atrás de sua preparação. Segundo ele, concurso é coisa séria e não loteria. Mas, e depois? Engana-se quem acha que ele ficará satisfeito. Os sonhos de Paulo ultrapassam fronteiras e chegam até a capital federal, Brasília. O Instituto Rio Branco (IRBr), que forma os diplomatas brasileiros, é outro degrau da longa escada de Paulo, talvez um dos mais ambiciosos. “Para isso, tenho que estudar mais os idiomas e dominar o inglês, o francês e o espanhol”. Alguém duvida?

Talita Fusco

  

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