O mundo perdeu as paredes

Artigo do professor Edison Andrades

Edison Andrades
Publicado em 27/02/2015, às 10h08

Nasci e cresci acreditando na tal privacidade. Existem coisas que se encontram de nossa porta para dentro e que pertencem única e exclusivamente a nós. Contudo me parece que as coisas mudaram, pois, com o surgimento das redes, as pessoas decidiram contar tudo, inclusive aquilo que não deveria sair de casa. Isso, para muitos, pode ser sinônimo de liberdade de “expressão”, um termo muito polemizado em tempos de repressão política e regime ditatorial. Os tempos mudaram, as pessoas também, mas muitos não perceberam que a importância de nossos valores não se perderá.

Juntamente com o “compartilhar” está, ou pelo menos deveria estar, o nosso senso de privacidade e pudor. Vejo “livros abertos”, ou seja, pessoas que contam tudo ao mundo das redes, mas não percebem, por vezes, a sementinha podre que estão plantando. Tudo pela exposição!

As redes sociais se tornaram uma espécie de palco para todos. Pois, por muitos anos, o lugar em evidência coberto por holofotes era apenas para celebridades, artistas e pessoas ímpares no restrito universo do glamour. Hoje, todos disputam um pedacinho desse pino de luz. Nada demais sob o ponto de vista de querer se tornar famoso, mas tal objetivo traz um perigo quando não é pensado e planejado. Principalmente quando tudo que expomos em busca dessa fama pode ser usado contra nós, num breve futuro.

Certa vez, um aluno desabafou comigo sobre não conseguir ascender em sua carreira profissional. Mostrou-me seu currículo, recheado de outros idiomas, dois cursos universitários e até breve vivência internacional. Em primeira instância, até eu fiquei intrigado, pois me dissera que trabalhava numa grande empresa havia seis anos, mas seus únicos aumentos salariais, até então, teriam sido os reajustes anuais chamados de dissídios.

Por ser meu aluno (um bom aluno), senti-me na obrigação de investigar um pouco mais, até porque ele me pediu ajuda. Dentre as investigações, cheguei até sua conta na rede social e, para minha surpresa, lá habitava uma outra pessoa. Irreconhecível! Percebi fotos inconvenientes, “curtições” sem propósito e o pior, uma rede de “amigos” num escalão abaixo.

Cheguei a levar um choque, pois, como psicólogo, parecia-me algum tipo de bipolaridade ou transtorno agudo de personalidade. Ao comentar com ele sobre a medonha página que possuía, ele riu e disse não enxergar correlação entre sua decadência profissional e sua imagem virtual. De forma elegante, apenas o alertei, ressaltando que o mundo dos negócios busca pessoas de caráter. O currículo nos proporciona apenas o primeiro acesso, pois o que perdura é a nossa imagem.

Por anos, perdi o contato com ele, mas recentemente o encontrei numa rede social de nível profissional (o Linkedin). A mensagem era a seguinte: “Dê os parabéns pelo seu novo cargo...”. Fiquei feliz.

Pense bem antes de derrubar as paredes de sua vida particular, pois reconstruí-las pode levar um bom tempo!

Prof. Edison Andrades é escritor, palestrante e sócio da Reciclare Treinamento. www.facebook.com/professor.edison.andrades

Comentários

Mais Lidas