Não tenha medo de ter medo

O medo é instituto de defesa que tem o objetivo de nos proteger de determinados perigos. Mas, devemos saber utilizá-lo a nosso favor

PUBLIEDITORIAL
Publicado em 20/04/2021, às 08h34

Coluna Gabriel Granjeiro
Coluna Gabriel Granjeiro - Divulgação

“A inércia leva à dúvida e ao medo. A ação leva à confiança e à coragem. Se quiser dominar o medo, não fique sentado em casa pensando a respeito. Saia e se ocupe.” – Dale Carnegie (1888-1955), escritor, orador e treinador norte-americano.

Eu tenho medo. Aliás, medos, no plural. Tenho medo de acontecer algo de ruim a alguém que amo. Tenho medo dos impactos da pandemia em minha vida pessoal e na sociedade. Tenho medo de cometer injustiças. Tenho medo de falhar, mesmo tentando acertar.

Sim, tenho medo, mas não tenho medo de admitir. É que descobri o óbvio: o medo não tem nada de errado. Senti-lo é algo normal, esperado e saudável – até determinado grau.

Ter medo não é uma questão de falta de fé, como alguns podem pensar. Tampouco está no terreno da covardia, como outros tantos podem sugerir. Quando digo que é natural sentir medo, não me refiro ao tipo doentio, paralisante, tão forte que chega a congelar a pessoa. Medo irracional? Nada disso! Medo que gera pânico? Menos ainda. Refiro-me ao medo instintivo, que nos leva a prevenir o perigo e a lidar melhor com o inesperado.

Esse medo faz parte da natureza humana. Aciona no indivíduo um estado de alerta que foi indispensável para a sobrevivência e evolução da nossa espécie. O ideal, portanto, é fazer conscientemente o que nossos antepassados faziam sem perceber: ouvir o que nossos instintos nos dizem por meio daquele familiar arrepio na espinha. Mais que isso, é trabalhar para tirar proveito dos sentidos apurados que acompanham essa sensação, convertendo-a, no fim, em algo construtivo.

Em outras palavras, o medo funciona como um canal para nossa intuição se comunicar conosco. A nós, cabe confiar. Nosso instinto vai sempre nos dizer que rumo tomar em face de uma ameaça. 

Quem diz que não tem medo de nada está mentindo, é doente, ou simplesmente não tem o mínimo de autoconhecimento. A certeza do medo cumpre seu papel de nos levar à aceitação da nossa vulnerabilidade. Agir como se fôssemos invencíveis e destemidos seria pretensioso de nossa parte, verdadeira afronta ao Universo, às leis da natureza.

Sabe quem não tem medo? Uma criança inexperiente e ingênua, que confia cegamente em tudo e em todos. Ela não tem medo de um inseto... até ser picada por ele. Não tem medo de um animal... até ser vítima de um ataque feroz. É preciso que a vida a faça sentir na pele a realidade do mundo para que, enfim, ela passe a reconhecer o medo protetor.

Falta-lhe, apenas, compreensão, que só o crescimento e a experiência lhe proporcionarão. Medo, portanto, é também indício de amadurecimento, de desenvolvimento.

Se eu não sentisse aquela sensação de aperto na boca do estômago, no baixo abdômen, antes da tomada de uma grande decisão ou de um evento importante, como a abertura de uma live ou uma palestra para centenas de ouvintes, seria sinal de que há algo errado comigo. O conhecido friozinho na barriga vem quando queremos muito acertar, quando tudo que desejamos é entregar o nosso melhor. Chega irradiando energia e, por isso mesmo, pode se revelar um forte aliado da motivação.

Mas veja bem: para isso, o medo não pode ser do tipo paralisante, que resulta em inércia, autodestruição ou pessimismo. Não permita, amigo leitor, que se instale em você um alerta disfuncional que aciona toda hora, como se fosse uma campainha desregulada. 

Há quem precise de apoio psicológico ou psiquiátrico a fim de se livrar desse tipo de dispositivo defeituoso, ou, ao menos, aprender a controlá-lo, mas, na maior parte dos casos, basta um pouco de clareza sobre aquilo que se está vendo e sentindo.

A monja Coen diz que “a luz da verdade é o que faz que possamos nos libertar de muitos medos”. Há uma história conhecida entre os budistas que vai me ajudar a explicar melhor como essa clareza faz toda a diferença em nossa relação com o medo: 

"Conta-se que um homem que tinha muito medo de cobras já estava deitado, pronto para dormir, quando a luz da lua que entrava pela janela lhe permitiu notar o que parecia uma serpente, e dentro do quarto! O homem passou a noite inteira em claro, em silêncio absoluto, apavorado. Eis que, quando o sol da manhã finalmente invadiu o cômodo, ele percebeu tratar-se de um simples... tronco."

Percebe que, tal como o personagem dessa breve narrativa, nós também estamos sujeitos a ter medo por nem sempre enxergarmos com clareza a realidade? Ou seja, se olhamos com mais calma e atenção, se analisamos com objetividade os fatos, podemos facilmente afastar medos injustificados.

Pense comigo: na historieta, mesmo que houvesse, de fato, uma cobra no quarto, faria sentido o homem continuar ali, e sem tomar nenhuma providência? Há várias formas de capturar uma cobra, ou mesmo de afugentá-la, sem se pôr em risco. Seria recomendável buscar ajuda, por exemplo. Ou tentar desarmar o veneno. O inaceitável é ficar sem reação, sofrendo e convivendo com a fonte do medo.

Cabe recordar alguns fatos de nossa história recente que também ilustram o medo do tipo paralisante, injustificado e, acima de tudo, irracional. Depois dos atentados do 11 de Setembro, muitos americanos, temendo viajar de avião, passaram a fazê-lo de carro. O resultado foi a morte de 1,6 mil pessoas a mais em acidentes de trânsito no país por ano.

O avião é, estatisticamente, muito mais seguro que o automóvel. Mesmo sabendo disso, esses indivíduos, por puro e irracional medo, tomaram a péssima decisão de se arriscar nas estradas em vez de nos céus. Se enxergassem com mais clareza a situação e agissem com objetividade, talvez tivessem sido poupados de uma morte perfeitamente evitável. 

Como vencer o medo que paralisa? Há várias técnicas, mas valho-me dos ensinamentos de Chris Guillebeau, escritor, empresário e palestrante norte-americano que vive e respira o que outros ousam sonhar. Guillebeau tem um blog no qual compartilha suas lições, ideias e experiências resultantes das viagens que fez a quase todos os países do mundo. Segundo sua visão, tudo não é apenas viável, mas também necessário. O processo sugerido por ele para vencer o medo passa por TRÊS PASSOS:

  1. Confronte a GRANDE MURALHA, ou seja, reconheça o medo.

É preciso ir decompondo o medo até o nível mais básico, o que pode ser feito por meio de uma lista com todos os seus temores. Enumere cada um deles. Na minha planilha, anotei até mesmo o medo de envelhecer e o de esquecer algo fundamental. Encare sua verdade, amigo leitor, e depois mude sua forma de lidar com ela. Em vez de antecipar só o caos, prepare-se para um futuro virtuoso.

Se, por exemplo, seu concurso será daqui a algumas semanas, não visualize a si mesmo ansioso no dia da prova, sem saber por onde começar (e se der branco? e se eu perder o horário de entrada?), e sim bem e tranquilo (estou preparado, fiz o meu melhor, mereço a vaga). Pode parecer banal, mas funciona. Tem efeitos comprovados. Tente. Ensaie.

  1. Crie sua rede de segurança.

Confie no ditado: “Salte, e a rede de segurança surgirá”. Aplique a filosofia do é proibido se arrepender, mas prepare-se sempre para o pior cenário possível. Ser prevenido, perguntando-se qual a pior coisa que pode acontecer, evitará surpresas desagradáveis e ajudará a colocar eventuais insucessos em perspectiva. 

  1. DERRUBE a MURALHA.

Ora, você já sabe o que quer e reconhece os próprios medos. É chegada a hora de se obrigar a tomar uma decisão que o tire da inércia. Em tempo, outra informação importante: nem as pessoas mais notáveis o são por natureza. Na verdade, elas fizeram, ao longo do caminho, algumas escolhas fundamentais que as levaram a superar o medo e seguir com seus projetos.

Estou convencido de que os obstáculos mais difíceis que a maioria de nós precisa transpor são resultado direto de nossos medos e inseguranças. É justamente por ter tanto medo que faço tudo que costuma me atemorizar. Paradoxal? Não. Isso é avançar apesar das limitações, é usar os receios como fonte de coragem para dar o próximo passo.

Quer um exemplo? O medo que você talvez tenha de deixar sua família desamparada financeiramente indica que deve agir imediatamente para construir uma estrutura econômica que impeça a concretização dos seus temores. Num caso como esse, o medo serve de impulso para uma tomada de decisão que talvez não fosse sequer cogitada se para você existisse apenas a calmaria.

É normal ter medo, caro leitor, cara leitora! A meta é vencê-lo e não evitá-lo ou fingir que ele não existe. Talvez a chave seja perder o medo do medo. Vamos tentar juntos derrubar essas muralhas para, enfim, enxergar o que tem para além delas?

*Artigo de opinião de Gabriel Granjeiro, Presidente do Gran Cursos

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