Por que está demorando tanto?

Tempos de dificuldades e provações podem até parecer eternos em nossa percepção. Mas esperar pelo momento correto pode nos fortalecer ainda mais para conquistar o nosso objetivo

PUBLIEDITORIAL
Publicado em 27/04/2021, às 08h59

Gabriel Granjeiro, Gran Cursos
Gabriel Granjeiro, Gran Cursos - Divulgação

Não há nada tão frustrante como sentir que nossos esforços não estão frutificando. Claro, não me refiro à ausência de colheita em virtude da omissão em plantar, mas, sim, à decepção de quem semeou e arou a terra com diligência e, ainda assim, não viu seu trabalho render. Ninguém tem o direito de se sentir frustrado pela flor que deixou de nascer se a semente não foi sequer plantada.

Ao estudante não é permitido ver injustiça na nota baixa se o trabalho da faculdade foi feito de última hora e de qualquer jeito. A decepção só se justifica quando o estudo foi levado a sério, quando o aluno fez sua parte e nem assim conseguiu um bom rendimento. Triste é ter cursado quatro ou cinco anos de faculdade e se ver trabalhando numa área diferente da de formação, num emprego que mal paga as contas. Tudo isso é fonte de decepção, obviamente.

Contudo, como já comentei neste espaço antes, nossa percepção costuma pregar peças. Sentir-se infrutífero é diferente de ser infrutífero. Muitas vezes, quando pensamos que a vida está sendo injusta conosco, ela está, na verdade, nos polindo, nos fortalecendo, nos preparando para voos mais altos.

Na natureza, os ciclos dificilmente são idênticos uns aos outros. A depender do ano, o período entre a semeadura e a colheita varia bastante. Eventualmente a seca se estende e atrasa o plantio, e o mesmo pode acontecer com o momento de colher, sujeito a fatores como o mau tempo.

Enfim, pausas e até recuos podem ser necessários por motivos alheios à vontade de quem elaborou o planejamento, mesmo que o tenha feito com esmero. Todo processo está sujeito a imprevistos. Ficar decepcionado quando eles acontecem é normal; só o que não se pode fazer é confundir com derrota um ou outro revés.

Na era da velocidade, todos têm pressa. Ninguém gosta de esperar indefinidamente por algo que deseja muito, mas a verdade é que nada pode alterar o curso de certos acontecimentos, entende?

No Brasil de 2021, por exemplo, a ansiedade é pela vacina contra o novo coronavírus. As pessoas nem tomaram a primeira dose e já anseiam pela segunda, apesar de estarem, desde sempre, cientes do período mínimo entre elas, que não pode ser ignorado, sob risco de perda da eficácia.

Sabe o que se consegue com tamanha impaciência? Sensação de impotência, frustração e irritação, ou problemas bem concretos, como úlcera, aumento de peso e hipertensão, entre outros.

Então não adianta reclamar, espernear, surtar. Para sobreviver com saúde mental e paz interior, o certo é regular o cronômetro interno para saber quando é hora de ser mais paciente e quando a ansiedade se justifica. Não faz nenhum sentido manter o ritmo do dia a dia quando se está de férias numa praia, faz?

Por outro lado, a impaciência é plenamente compreensível – embora jamais justifique descortesia – ao se precisar de um serviço público e deparar com um servidor moroso, grosseiro, desrespeitoso ou ineficiente.

Quem é muito acelerado já se esqueceu – ou nem sequer viveu essa época – do tempo em que a comunicação escrita entre as pessoas era feita por meio de correspondências que podiam demorar muitos dias para chegar ao destinatário. Às vezes me pergunto como reagiriam a esse ritmo aqueles que hoje ficam irritados quando o parceiro ou parceira demora apenas alguns instantes para responder uma mensagem no WhatsApp... Ninguém mais tolera qualquer espera fora do que estava em seu roteiro mental.

Mas por que estamos assim, tão impacientes? Os psicólogos diriam que essa é uma herança da nossa evolução. Aqueles de nós que não perdiam tanto tempo com uma única tarefa menos compensadora foram selecionados ao longo das gerações, o que explica, em parte, o maior impulso de agir típico do homem moderno.

De certo modo, a ansiedade nos foi positiva em termos de sobrevivência na natureza, mas veja que paradoxo: hoje é fonte de estresse que condena muitos à morte ou, no mínimo, a uma vida de sofrimento.

Por isso, uma parada momentânea em sua caminhada pode fazer toda a diferença. Dará novo fôlego à marcha, e os bons resultados virão, não tenha dúvida. Ouso dizer que, se você seguir fazendo o que precisa ser feito, com paciência, o crescimento é um fato, não uma possibilidade. Está na iminência de acontecer, é só uma questão de tempo.

Perceba que a palavra-chave é... paciência. Sim, sei que é difícil comprometer-se com um projeto quando não se tem uma noção precisa do tempo de dedicação a ser investido, mas a vida é assim, repleta de incertezas, e nosso destino não se vale de prazos inflexíveis.

Como de costume, quero compartilhar com você uma pequena história. A de hoje, conhecida como Fábula da Borboleta, ensina que algumas dificuldades surgem em nossa vida para promover nosso desenvolvimento individual. Espero que, depois de lê-la, você compreenda os perigos de pular etapas. Saber esperar pode ser a virtude que lhe falta para prosperar, da mesma forma que a impaciência talvez seja seu grande mal.

Certo dia, um homem estava no quintal de casa quando notou um casulo pendurado numa árvore. Curioso, ficou observando enquanto uma borboleta se esforçava para sair através de um pequeno buraco, sem sucesso. Depois de algum tempo, ela parecia ter desistido, suas forças haviam se esgotado.

O homem resolveu, então, ajudar. Com uma tesoura, cortou o restante do casulo e libertou o bichinho. A borboleta saiu com facilidade, mas tinha o corpo murcho e as asas amassadas.

O observador ficou aguardando o momento em que ela fosse abrir as asas e sair voando, mas nada aconteceu. A borboleta passou o resto da vida com as asas encolhidas e rastejando. Nunca foi capaz de voar…

Foi só então que o homem compreendeu: o casulo apertado tinha uma razão de ser. O esforço imposto ao inseto para sair fazia que o fluido do corpo se deslocasse para as asas, fortalecendo-as. Romper sozinha o invólucro era o que a borboleta precisava fazer para estar em condições de voar assim que se libertasse.

Ninguém tem o que quer quando quer. É simples assim. Anote aí: ao exercitarmos a paciência, nos alinhamos melhor aos ritmos da vida. Não é demais lembrar que há quatro estações no ano. O inverno dura o tempo que durar, mas sempre é sucedido pela primavera. Essa é a lei da natureza. Então que tal aproveitar o momento de introspecção a que fomos todos lançados desde 2020 para repensar todos os seus comportamentos, todas as suas práticas que revelam impaciência?

Siga construindo, siga plantando, siga fazendo o que vale a pena, com a consciência de que é impossível ser consistente em tudo. Compromissos em excesso resultam em comprometimento de menos. Antes de assumir mais um, sempre questione: vale a pena? Se a resposta for positiva, continue, mesmo que os resultados demorem a chegar. Se fizer o que é de fato importante para você, sua família e sua comunidade, já terá compensado.

Nos últimos tempos, muita gente tem perdido a chance de fazer algo grande por se distrair com inutilidades. Outras pessoas fazem tudo direitinho, mas desistem pouco antes de serem bem-sucedidas. “Por que está demorando tanto?”, pensam.

Ora, da mesma forma que a borboleta precisa enfrentar o casulo apertado para se tornar capaz de voar, você, eu, todos nós precisamos superar os obstáculos que surgem em nossa trajetória. É isso que nos fortalece é isso que nos desenvolve, é isso que nos aperfeiçoa. 

*texto de Gabriel Granjeiro, presidente do Gran Cursos

Comentários

Mais Lidas