Conselhos de um investidor

Compartilho com vocês meus aprendizados durante minha experiência como investidor. Isso poderá influenciar não só na sua vida de concurseiro, mas em todas as áreas da sua existência

Daniel Sena
Publicado em 04/02/2016, às 12h54

No ano de 2007 comecei a me interessar pelo estudo das melhores formas de investimento que pudessem multiplicar o meu capital. Lendo sobre o assunto percebi que alguns investidores sempre recomendavam a diversificação dos investimentos, enquanto outros orientavam que todo o investimento deveria ser concentrado em um lugar só, o que eles costumavam chamar de “colocar todos os ovos na mesma cesta”.
Na época, fui seduzido por esta última opção, a de colocar todos os ovos na mesma cesta, pela sede de obter maior ganho. Ingressei no mercado de ações e coloquei todo o dinheiro que tinha em um lugar só. E aí veio a crise de 2008 e eu vi todo o meu dinheiro ir embora da noite para o dia.
Mas você pode estar pensando: Daniel, será que você está escrevendo no lugar certo? Essa é uma página destinada a concurso público e você está falando de investimento para quem ainda nem tem como se sustentar?
Estou sim, meus queridos! O que quero compartilhar aqui com vocês são meus aprendizados durante essa grande experiência como investidor. Eu tenho certeza que isso poderá influenciar, não só na sua vida de concurseiro, mas em todas as áreas da sua existência. A sorte que você tem hoje é de aprender sem perder nada, com a minha experiência. Então aproveite essa oportunidade para investir em você mesmo.
A primeira coisa que fiz e que gerou um grande aprendizado foi investir tudo em um só lugar. Quando você investe tudo no mesmo lugar, as chances de dar certo ou errado são as mesmas: 50% de chance de dar certo e 50% de chance de dar errado. A questão é que se der errado você perderá tudo, mas se der certo, você ganhará mais. Quando você investe tudo no mesmo lugar, a pressão pelo acerto se multiplica. Inicia-se um período de autotortura, auto exigência, e seu estado emocional vai para a vala. Em compensação, se você investe um pouco em cada lugar, apesar de diminuir seu rendimento, a valorização de um supre a desvalorização do outro. Vamos trazer isso para o mundo dos concursos. Quando você só pensa em um concurso, corre o risco de acontecer de tudo com você nesse concurso, inclusive de você ter uma dor de barriga bem no meio da prova. Isso já aconteceu comigo, em uma prova que eu queria muito passar, mas a dor de barriga me afastou do meu sonho. Minha sugestão com base na minha experiência é que você, mesmo estudando para uma, faça todas as provas que vierem pelo caminho. E sabe por que isso é possível? Porque a maioria das disciplinas são iguais. Português é português em qualquer lugar e em qualquer prova, de qualquer banca. Então é inevitável que, ao estudar para um, você se prepare para outros concursos semelhantes. Foi assim que passei em vários concursos, sem nunca ter passado nos concursos em que focava. Meu conselho: aposte em vários, enquanto estuda para um.
O segundo grande aprendizado foi que eu não deveria ter dado ouvidos a qualquer um que falasse sobre investimento. Na época, eu participava de vários fóruns de discussão sobre investimentos na bolsa de valores. Eu via as pessoas contando o quanto elas ganhavam dinheiro com aquilo e eu acreditava. Foi então que, sonhando com um ganho surpreendente, investi em um “mico”, ação de baixa negociação, mas com potencial de ganho e de perda extraordinário. Ganhei muito dinheiro, mas perdi muito mais. Porque ao invés de estudar as ferramentas e técnicas de investimento, eu preferia ouvir o que os outros achavam daquele papel. Quantas horas você perde do seu dia ouvindo o que os outros acham da vida? Quantas horas você perde ouvindo as pessoas falando de concurso, de como estudam 30 horas por dia, de como se drogam para não dormir e continuarem estudando, de materiais milagrosos que resolverão a sua vida? O que acho mais incrível é que todo mundo se torna especialista em concurso, mas ninguém passa, pois a energia está sendo gasta no lugar errado. Meu conselho: pare de ouvir o que os outros acham e vá estudar!
O terceiro aprendizado foi dolorido. Na tentativa de recuperar o dinheiro que estava perdendo, eu aumentava a minha aposta. Eu acreditava tanto no que aqueles “especialistas” de araque falavam que eu simplesmente não estudava as técnicas mais eficazes de investimento. Como eu não estava preparado, acabava levando porrada. Mas meu orgulho perante minha família e meus amigos não me deixava aceitar aquela derrota. Então, eu dizia para eles não se preocuparem que na próxima conseguiria recuperar o prejuízo. Quanto mais eu me recusava a aceitar minhas deficiências, mais me afundava. O nosso orgulho tem dessas coisas. Ele te vê afundar, mas não dá o braço a torcer. É preciso humildade para reconhecer suas limitações. É preciso humildade para pedir ajuda. É preciso humildade para entender que se você continuar batendo no lugar errado você vai continuar se afundando. Se você não começar a ler texto de lei, se você não começar a fazer muito exercício, se você não começar a estudar de verdade, a tirar dúvidas em sala de aula, a fazer simulados, a sua aprovação nunca chegará. Meu conselho: pare de se sacanear, seja humilde, reconheça seus erros e peça ajuda.
E, por último, aprendi que meu pai tinha razão. Desde que eu era pequeno, sempre admirei a paciência dele para fazer as coisas. Até para dirigir ele é devagar. Ele me dizia sempre que as melhores coisas da vida não acontecem da noite para o dia. Mas quando eu comecei a investir em ações, o que eu queria mesmo era ficar rico da noite para o dia. Queria investir de manhã e ganhar a tarde. Queria acordar com 10 e dormir com 1.000. Essa ideia de que existe fórmula do sucesso, de que não é preciso esperar para conquistar as coisas, não passa de uma ilusão. É uma ideia efêmera que tem destruído as relações sociais e gerado milhares de pessoas frustradas. Já perdi as contas da quantidade de alunos que me procuram dizendo que estão desesperados, pois depois de três meses de estudo ainda não tiram uma nota boa no simulado. Quando vejo isso, eu começo a rir; não da pessoa, mas de mim mesmo, porque lembro do que meu pai dizia. Meu conselho: tenha paciência com você mesmo e saiba esperar o resultado acontecer.
Espero que meus conselhos sirvam para alguma coisa, para que vocês não percam como eu perdi, mas que, pelo menos, aprendam como eu aprendi.
Daniel Sena, coordenador do Focus Concursos, professor de direito constitucional e especialista em concursos públicos. Facebook: /ProfDanielSena. Twitter: @ProfDanielSena. YouTube: ProfDanielSena.

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