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Empregos Machado de Assis

Sob disfarce, na sala de estar

Para o público leitor contemporâneo, Machado de Assis é basicamente um ironista ameno...



Redação
Publicado em 30/09/2008, às 11h44

* por Welington Andrade

                                                                                    

Para o público leitor contemporâneo, Machado de Assis é basicamente um ironista ameno, um hábil criador de sentenças elegantes, cuja filosofia cortante, expressa em tom médio, refinado, faz da leitura de seus romances, contos, crônicas e peças de teatro uma agradável experiência. Um autor que merece figurar em bons dicionários de citações, constantemente reproduzidas em revistas de grande circulação para satisfação imediata dos bem pensantes.

                                 

Entretanto, tudo leva a crer que poucos leitores sejam capazes de identificar a sofisticada técnica machadiana da "literatura de sala de estar", onde costuma ocorrer, inclusive, a maior parte de suas tramas. Por meio dela, o autor é capaz, de acordo com a precisa definição de Antonio Candido, de "sugerir as coisas mais tremendas da maneira mais cândida" (fórmula que sugere um estimulante paralelo com a obra de Kafka, sobre a qual Adorno chamou a atenção para o fato de que nela o chocante não é o monstruoso e sim a naturalidade com que é apresentado), ou investigar o que está por trás da aparência de normalidade, ou insinuar que o ato excepcional é normal, e anormal seria o ato corriqueiro, ainda segundo o crítico. Vale lembrar a vasta galeria de personagens do bruxo do Cosme Velho - burgueses de reputação ilibada, transitando tranqüilamente pelos cenários típicos de sua classe - que, sob a acurada lente por meio da qual o autor os focaliza, acabam por se revelar indivíduos terríveis.

                                    

Talvez, por isso, o grande desafio das futuras gerações resida no fato de que elas precisam estar suficientemente preparadas para a fruição plena de uma obra complexa, que ultrapassa em muito o terreno das sentenças morais breves e conceituosas e das situações psicológicas ambíguas. Resumir Dom Casmurro, por exemplo, à (falsa) questão do adultério de Capitu é somente ceder a uma distração (etimologicamente, dis-trahere, "puxar para o outro lado") e não querer confrontar o essencial da trajetória.

                                       

A alfabetização mínima na obra de Machado passa, em sentido estrito, pelo conhecimento da ironia à la Voltaire e do humor de tipo inglês e, em acepção mais ampla, pelas aquisições intelectuais e estilísticas do Ocidente moderno. Aliás, como indica Roberto Schwarz, a propalada ironia machadiana nasce da observação de que as formas modernas estrangeiras se distorcem quando querem atender aos interesses locais. Assim, a ilustração do narrador machadiano não só afeta respeito e consideração, como também exala escárnio e deboche. E a tradição literária do Ocidente é constantemente invocada por ele como matéria-prima para a fabricação de anedotas e ditos espirituosos.

                              

Sob este aspecto, nova intertextualidade é sugerida. A atitude machadiana de fazer com que a conduta ilustrada e racionalista do Ocidente se precipite, aqui e ali, em estorvo aponta para outro paralelo desafiador: a obra do irlandês Samuel Beckett, para quem o conhecimento filosófico e a razão iluminista não passam de bugigangas discursivas.

                                

Mas Machado pode ainda ombrear com Dostoievski (na investigação do homem subterrâneo), Pirandello (pela sondagem do sujeito múltiplo e impalpável), Gide (pelo viés dos tormentos do homem e as injustiças do mundo) e Tchecov (diante da perspectiva de que a vida está repleta de prestígios exteriores, mas é vazia de sentido).

                                 

No tocante ao sinuoso confronto que criou com o império das certezas racionalistas, vale ressaltar que Machado de Assis dedicou-se também a investigar os limites da razão e da loucura, sob a ótica de que alienação psiquiátrica equivale também à alienação social e moral. O Simão Bacamarte de O alienista e o Rubião de Quincas Borba são legítimos representantes desta perspectiva.

                                 

Ambos os personagens ousaram adentrar o palácio da loucura, como postulava o poeta visionário William Blake, e por meio deles Machado pareceu querer retratar o absurdo e a insensatez como instrumentos de ataque à lógica racionalizante do poder político, do lar burguês e da sociedade capitalista.

                                  

No caso de Pedro Rubião de Alvarenga, a loucura assume o papel de transgressora da ordem institucional e social (por meio da qual o personagem nega as noções clássicas de sujeito e história), levando à crítica e à reavaliação do modelo racionalista do pensamento ocidental.

                                   

Muito além de ser somente um subversivo do espírito, disposto a encarnar a máxima atribuída a São Francisco de Assis - "A loucura é o sol que não deixa o juízo apodrecer" -, Rubião mergulha em uma atitude de desvario que é uma expressão de sentido histórico do Brasil, como aponta John Gledson. Assim como o país, Rubião também enriquece subitamente e desperdiça sua fortuna, deixando-se explorar por empreendedores capitalistas de olhos voltados quase que exclusivamente para o exterior.

                                     

De acordo com a original visão do crítico inglês, Rubião seria uma espécie de esquizofrênico político, cuja trajetória encarnaria a síntese de um fracasso pessoal projetado em escala nacional. O ex-professor de Barbacena é um homem com ideais elevados, mas absurdos e anacrônicos. Paralelamente, a tradição liberal, mas escravocrata brasileira só pode ser entendida como loucura. Como um país pode desejar o progresso, a liberdade e a igualdade, gozando simultaneamente os "benefícios" de uma instituição torpe como a escravatura? Que tipo de indivíduo se forma moralmente no seio de uma sociedade que acredita em vagas promessas de modernidade, mas está assentada sobre práticas bárbaras e privilégios inegociáveis.

                             

Por não se render às convenções do Realismo europeu e ter aberto mão do domínio da racionalidade convencional, Machado de Assis tornou-se muito maior do que o Oitocentos. O século seguinte o estudou, mas, dada a indigente política educacional do País, poucos foram os que puderam colher adequadamente os frutos de tais investigações. Cabe ao século 21, então, redescobrir o autor, colocando-o novamente no centro das salas de aula. E também das salas de estar, onde o leitor, tal como o Garcia de A causa secreta, poderá entrar em contato com "a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres" a fim de sentir o regalo "de penetrar muitas camadas morais até apalpar o segredo de um organismo.".


                            

* Welington Andrade é professor do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

* Artigo extraído, na íntegra, do site da revista Cult (www.revistacult.com.br).  

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Machado de Assis
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