Empresas antiquadas e seus departamentos de Inovação

Artigo sobre marketing, mercado e trabalho

Kate Domingos
Publicado em 18/04/2016, às 09h41

As empresas vivem hoje um momento de transição, em que a Inovação começa a deixar de ser vista como diferencial, e logo passará a ser exigida como uma commodity. Mas o fato é que muitas destas empresas não estão preparadas nem mesmo para lidar com a Inovação, quanto mais para praticá-la. Algumas delas não sabem sequer por onde começar. Sua empresa criou um departamento de Inovação e elegeu pessoas específicas para cuidar dela? Então você, fatalmente, trabalha numa empresa antiquada.

“O nosso negócio é criar novos negócios. É possível contar histórias de inovação acontecendo em qualquer área da empresa. Aqui, todos pensam e buscam inovação”. Essa fala, de Marcelo Gandur, gerente de Produtos da 3M, pode nos ajudar a esboçar o que queremos dizer com nosso aparente paradoxo inicial. A empresa tricampeã em Inovação (pelo Best Innovator 2015, pesquisa feita em 15 países) é simpática para nós por ter criado produtos inovadores como Post-it, Durex, Scotch-Brite, mas a Inovação vai muito além de lançar produtos inéditos e a 3M alerta para a amplitude da questão. Inovar é realmente saber a diferença entre inventar uma novidade e internalizar a cultura de criação do novo, entre ter um cérebro criativo (que pode ser representado por um departamento onde a inovação permanece confinada), ou ser um cérebro criativo. Entender essa diferença, para empresas e colaboradores, tem se tornado, cada vez mais, condição para se manter no jogo.

Para as empresas que não sabem por onde começar, a sugestão é ampliar o horizonte: processos, estrutura física, estratégias, para sermos capazes de transformar a filosofia do novo em resultado, a teoria da Inovação em prática, tudo pode e precisa estar permeado pela busca e valorização do novo. E nesse ponto a cultura organizacional assume papel chave, pois é ela que se encarregará de levar ao conhecimento de todos e de cada um dos colaboradores a premissa de que a Inovação é buscada e valorizada pela empresa. Caso contrário, a empresa ficará restrita a um discurso vazio. E palestras motivacionais sobre Inovação já ultrapassaram o limite do enfadonho.

O best-seller “Imagens da Organização” (de Gareth Morgan), já prenunciava o modelo de negócios que perseguiríamos hoje ao descrever as organizações a partir da metáfora do cérebro. Tal como neurônios, todos os colaboradores precisam ser capazes de “aprender a aprender”, de pensar e criar, precisam estar interligados, evoluindo continuamente suas sinapses e habilidades em constante contato com o que vem de fora. É indispensável que as empresas e colaboradores se tornem capazes de trabalhar sob esse modelo, persegui-lo dia a dia significa estar mais perto do ideal da Inovação.

Buscar um benchmarking a seguir também pode representar um caminho. A Vale vem disseminando, entre os seus, a cultura de que todo funcionário deve enxergar sua atividade com olhar de dono, e já colhe frutos, como a redução de custos em R$ 10 milhões ao ano obtida após a troca de seus vagões de aço comum pelo inoxidável, ideia trazida pelo setor de manutenção desses vagões. A CPFL vem seguindo a mesma linha e substituiu suas escadas de manutenção por outras que estendem e encolhem com uma só “puxada”, sistema criado por um de seus eletricistas. Vantagens de empresas que não mantêm o novo restrito a um departamento de Inovação!

O Brasil é jovem na disseminação desse modelo de negócios, não possuímos grandes ninhos de Startups, nem tradição na área de pesquisa e temos muito a caminhar no campo das políticas públicas que possibilitem um real salto intelectual de nossa população. Mas já nos destacamos antes nos setores criativos e, se estivermos abertos ao intercâmbio, podemos “aprender a aprender” com multinacionais como a 3M. Aliás, a linha Nexcare (fitas, esparadrapos e curativos) foi criada no Brasil e é hoje vendida pela 3M para o mundo todo. E quanto aos departamentos de Inovação? Se não pudemos aboli-los agora, que tal abrirmos suas portas? Dentro do ideal de Inovação cabem todos os colaboradores de uma empresa.

Kate Domingos é publicitária pela USP, docente e consultora em Marketing e Comunicação. Contato: kate@concrie.com

Comentários

Mais Lidas